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ENTREVISTA: Sadie Rapson (Triage)

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Contando com membros do VCR, Burial Permit, The Boys e mais mil grupos da fértil cena punk de Toronto, o Triage é uma banda canadense que batizou o próprio som como power beat, uma mistura de crust punk e metal old school que conjura os melhores elementos da Burning Spirit japonesa e da NWOBH. Na prática, eles fundem a urgência do hardcore, a ferocidade do speed metal oitentista e vocais berrando palavras de empoderamento. E, mais do que qualquer outra banda de hardcore que tenha ouvido nos últimos tempos, eles amam solos rápidos de guitarra.

Esses elementos podem soar familiares, mas o Triage habita um território particular, até mesmo em termos estéticos. Descobri a banda enquanto matava tempo pela internet, esperando a hora de ir embora do trabalho, quando esbarrei nessas fotos e fiquei muito intrigado. Um colega passou atrás do computador e perguntou na mesma hora: “Que banda é essa, cara? Parece demais”.

Na época dessa entrevista com a Sadie, líder do grupo e peça fundamental na cena local, o novo disco, intitulado propriamente como Power Beat, ainda não tinha saído do forno. Agora, é só dar o play para trilhar a conversa. São 10 minutos de música no total, então, serão muitas audições até o fim do texto e espero que vocês já estejam tão convertidos quanto eu até lá. É o tipo de música que eu queria que tocasse dos céus sempre que tirasse meus pés de dentro de casa. Triage is power!

Já que você gosta de falar sobre guitarra tanto quanto eu, lembra como foi quando começou a tocar?

Comecei a tocar guitarra de verdade por volta dos 14 anos, meio que para fazer algo construtivo com o tempo livre em vez de jogar videogame e ficar à toa. A motivação veio das bandas de metal que ouvia na época, como o Death, especialmente aqueles álbuns posteriores e mais progressivos, o The Sound Of Perseverance (1998) e o Symbolic (1995). Prefiro a fase old school e crua hoje em dia, mas o solo do cover de “Painkiller” tinha um lick absurdo que me deixou tipo ‘cara, eu tenho que aprender a tocar isso’. Também ouvia muito Cryptopsy, muito prog metal.

Com qual modelo você começou?

Minha primeira guitarra não era nem minha, mas um violão de nylon do meu tio. Depois de um tempo, consegui uma guitarra de verdade, uma ESP LTD EC-256. O modelo é basicamente uma Les Paul da ESP. Ainda a tenho, não a toco muito, mas é uma guitarra decente.

Falando de modelos tipo Gibson, quando você descolou aquela Korina Flying V?

No fim do ano passado. É uma guitarra ótima, apesar do braço um pouco pesado. Desde então, arrumei também uma Ibanez JEM 555, o modelo assinado pelo Steve Vai (risos). Nunca ouvi uma música do Steve Vai na vida e não sei nem te dizer como soa. Só sei que ele é um shredder. Curto muito essas guitarras tipo super strat com ponte flutuante e humbuckers, bem metal clássico, pavoneadas e glam. É a guitarra que eu mais tenho usado ultimamente.

E o caminho entre a guitarra e o amplificador? Já notei um pedal de wah em algumas músicas do Triage na apresentação de vocês no Equalizing Distortion.

O meu wah é aquele Vox clássico, mas nem tenho usado muito porque tocar wah decentemente é bem difícil e eu sinto que ainda estou aprendendo a usá-lo de maneira que me deixe satisfeita. Ligo a Ibanez num Peavey Valveking, um cabeçote todo valvulado e high gain. A única coisa no caminho é um Tube Screamer para os solos. Deixo um pouquinho de reverb no amplificador, nada psicodélico ou louco, só para deixar um timbre mais profundo e com sustain. No fim, uma caixa Peavey de 4×12.

Você usa a distorção do amplificador e coloca o pedal para empurrar o som?

Sim, o ganho do Peavey não passa da posição de 1 ou 2 horas. Uso o Tube Screamer durante os solos para engordar o timbre e empurrar os médios para destacar a guitarra no som da banda.

Meu setup não é muito complicado ou extravagante. Tenho pensado em comprar mais pedais, mas ainda não decidi o que fazer…. Na verdade, acho que guitarristas com pedalboards imensas tendem a depender demais dos pedais para tirar timbre e se esquecem da maneira como estão tocando. Há muita variação tonal só na maneira como você acerta as cordas, algo comumente ignorado boa parte do tempo.

Esses foram os equipamentos que você usou nas gravações da Demo?

Não, nessa época eu ainda usava a Korina V direto no canal menos distorcido de um Mesa Boogie Dual Rectifier, mas super alto e com o ganho no talo, para dar aquele timbre com drive sem soar como as distorções exageradas e brutais de heavy metal. Tenho tocado com um timbre mais high gain ultimamente, procurando maneiras de ter o sustain e impacto do high gain sem passar do ponto. Meu timbre dos sonhos é aquele som de metal firme e crunchy sem ser brutalmente pesado e bobo.

Como os timbres de metal pós-Pantera.

Isso! Pode parecer óbvio, mas um bom exemplo do tipo de timbre que eu quero é o som do primeiro álbum do Metallica. Você tem o sustain grande e o peso sem soar estupidamente brutal.

Alguns dos riffs da Demo lembram o Kill ‘Em All e outras coisas do início do Metallica.

Todo mundo na nossa banda ama esse álbum. Definitivamente teve uma grande influência na maneira como toco guitarra. Ouvir esse álbum foi uma constante na época em que conheci vários discos de metal clássico.

O lance do Triage que me surpreendeu a primeira vez que ouvi foi a justaposição dos riffs de metal clássico, como os do Judas Priest e Mercyful Fate, com a velocidade do hardcore. Qual foi a ideia por trás da banda? Como tudo começou?

No início, eu tinha mais em mente tocar aquele estilo de hardcore clássico japonês, como o Gauze e Bastard.

As bandas apelidadas de Burning Spirit?

Exatamente! Queria reproduzir o mesmo sentimento que ouvir as bandas do Burning Spirit me passam, tipo ‘fuck yeah!!!!’. A principal influência no som do Triage é a banda japonesa Death Side, minha banda favorita de todos os tempos. A maneira como eles combinavam o metal com o punk era totalmente diferente do que as pessoas normalmente esperam da mistura dos dois gêneros. Normalmente, bandas de punk metal soam como um crossover de hardcore com thrash, ignorando as origens do heavy metal. Não que eu ache que há algo de errado nesse formato, mas com certeza já está desgastado de tanto que já montaram bandas assim. É até difícil aparecer alguma banda nesse estilo que me impressione hoje em dia.

Já o Death Side era a fusão perfeita daquele hardcore veloz japonês com o metal de raiz. Se você procurar por fotos deles, verá que os caras parecem integrantes de bandas de hair metal. Minha inspiração foi basicamente essa: como soaria o metal clássico se fosse tocado por gente que entende de música pelas lentes do hardcore? Basicamente, deixar de lado o crossover, que já foi feito à exaustão nos EUA, e voltar às origens do próprio thrash metal, ou seja, aos moleques metaleiros que eram apaixonados por hardcore. Como a nossa musicalidade tem se aprimorado e eu estou conhecendo mais as bandas old school, essa influência do metal tem ficado mais proeminente.

Você tocou no Burial Permit, que já tinha alguns elementos de metal, mas num estilo totalmente diferente do Triage.

Na época do Burial Permit eu estava num momento totalmente diferente da minha vida em termos de crescimento pessoal. Tinha uns 17 anos quando comecei a banda e hoje tenho 21. Havia uma influência proeminente de metal, porque eu queria um som bem agressivo e violento característico de powerviolence e grindcore, mas com riffs interessantes e pitadas de death metal… Eu não tenho muita oportunidade de falar sobre death metal com ninguém, porque boa parte das pessoas parece não gostar muito. Tudo bem, não é um gênero muito acessível ou completamente legal (risos). Como alguém que ama death metal, acho que posso afirmar isso. Além disso, o baterista daquela banda [T. Rapson] era o meu primo, fã louco de progressivo e death metal, então essa influência se destacou.

E como o Triage começou? Se não estou enganado, você tinha alguns riffs e correu atrás de um baterista para dar forma ao material.

Comecei a escrever os riffs que vieram a ser as músicas do Triage na primavera de 2014… Calma aí, deixa eu tentar montar uma linha do tempo.

Você estava na escola? Ainda tocava em outras bandas?

Sim, o Burial Permit ainda existia, era fase final da banda. Na época, estava fazendo umas jams com a nossa baterista original [Kaelan Bean, ex-Brutal Youth, The Frags], tocando uma mistura de hardcore americano e escandinavo, mas decidimos deixar esse material de lado e seguir em frente com o que veio a ser o Triage. Pouco tempo depois, ela sofreu um acidente enquanto andava de bicicleta e quebrou os pulsos [Kaelan foi atropelada por um carro], então tivemos que parar por todo o verão e esperar ela melhorar, mas conseguimos acertar tudo a tempo de fazer o nosso primeiro show em outubro de 2014 [com o Rakta, Farang e Gaucho no S.H.I.B.G.B’s].

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Na época, a formação era você, Kaelan, Lia Lepre [VCR, Winter ’94] e o Matt Avenins [VCR, ex-The Frags, Wrong Generation], certo?

Isso. Conheci Matt, Lia e Kaelan na cena punk local. Matt normalmente toca bateria, mas queria entrar numa banda em outra posição, então o chamei para ser o baixista. E a Lia virou a vocalista depois de uma postagem que fiz no Facebook perguntando quem queria cantar na minha banda nova. Ela era a pessoa mais legal dentre as que comentaram. Kaelan e Matt não estão mais no Triage. Já a Lia é parte integral da concepção do som e trouxe muitas ideias que eu não teria. Fez a banda ser o que ela é, levando além da minha visão.

A maneira como a Kaelan toca na Demo é demais. Ela faz umas viradas loucas.

Dei algum direcionamento na maneira como a bateria deveria soar, porque eu gosto muito de algumas coisas, tipo tom rolls (risos), no estilo de bandas antigas do Reino Unido, como o Disorder, ou japonesas old school que foram influenciadas por bandas como o Disorder, como o Gauze, ou aquelas de noisecore, como o Confuse, Gai e Swankys. Amo aquela vibe crust. Kaelan é uma baterista fantástica. Ela costumava tocar numa banda de pop punk super rápida e assim adquiriu velocidade. Definitivamente não dá para tirar o crédito dela, já que, em boa parte das vezes, eu não tinha uma ideia específica de como seriam as levadas, só dei alguns direcionamentos do que achava que funcionaria. Sinto saudades de tocar com ela, mas o nosso baterista novo também é fantástico e muito legal de tocar junto. Não posso nem reclamar.

Se não estou errado, a Kaelan deixou a banda porque se mudou para Nova Iorque. E quanto a saída do Matt?

Acho que nós estávamos em níveis diferentes de compromisso. O Matt tinha outros projetos e não estava funcionando. A gente não brigou nem nada parecido, mas fazia mais sentido arrumar outra pessoa que pudesse se dedicar e ensaiar para acertar as músicas, porque elas são razoavelmente difíceis, especialmente se você não está acostumado a tocar aquele instrumento. Às vezes, acabo escrevendo coisas um pouquinho além da minha habilidade e tenho que me esforçar para conseguir tocar, então entendo se nem todo mundo está disposto a ter esse trabalho. Mas, de todo modo, está tudo bem entre a gente.

Quem são os caras novos?

Nosso novo baixista se chama Luciano Castillo-Oliva. Ele toca com o The Boys, Winter ’94, Red Solo e mais um monte de bandas. E o baterista se chama Noah Aviles-Betel, que também com o The Boys e Red Solo, além do Not Down, uma banda de powerviolence…. Ah, tem uma banda que nós estamos montando, não há nada gravado ainda, mas são todos os integrantes do Triage em posições diferentes mais o nosso amigo Seb, que toca no Gazm e Winter ’94. Eu vou cantar nessa banda. O som vai ser bem pesadom, moshy/NYHC, afinação grave e “tough-guy” (risos). Bem boba, mas a músicas têm integridade. A demo deve sair em breve, no próximo verão com certeza.

Uma coisa que me surpreende é como há bandas novas surgindo o tempo todo em Toronto. Você poderia me explicar como a cena em torno de lugares como o S.H.I.B.G.B’s funciona e o motivo de ser tão fértil?

Não quero me dar muito crédito, mas outras pessoas já me disseram que minha primeira banda, Direct Approach, quando tinha 15 anos, foi amplamente responsável por trazer todas esses moleques que estão vindo aos shows. Quando tínhamos essa banda, todos os amigos do colégio, principalmente os que também tocavam instrumentos, vinham aos shows para nos apoiar. Com o tempo, essas pessoas do meu colégio também montaram bandas.

Por exemplo, nossa amiga Sienna, do Gazm e Crawler, era um pouco mais nova que a gente, montou sua primeira banda um pouco depois e manteve essa roda girando. Foi o início desse pessoal mais novo aparecendo nos shows. Eu fui a mais nova na cena por muitos anos, mas hoje em dia aparecem um monte de moleques de 16 anos que eu não faço a menor de ideia de onde surgiram, mas são sempre aqueles dando mosh e agitando. É muito legal. Dois dos meus colegas de Triage acabaram de fazer 18 anos e muitas das bandas ativas na cena hoje em dia são formadas por integrantes abaixo dos 20 anos.

Acabei de ouvir uma demo dessa banda chamada Vacation Forever, que vai tocar no lançamento do nosso disco no mês que vem, e não faço a menor ideia de onde eles surgiram, mas é uma banda muito agressiva e esquisita de hardcore formada por gente que talvez nem tenha total compreensão do que o hardcore é, o que muitas vezes pode ser mais interessante porque eles não estão limitados às noções de gênero musical… Música tocada por gente que não sabe o que “deve tocar” pode dar em coisas muito legais.

Não sei se posso te responder essa pergunta propriamente, mas parte disso também se dá pela importância de espaços DIY aqui. Nós tínhamos o S.H.I.B.G.B’s, hoje há a FAITH/VOID. As pessoas também dão muitos shows em casa, como o nosso baterista Noah, que abre o porão dele para os nossos ensaios e shows de outras bandas. Todos os shows não têm faixa etária, o que atrai mais adolescentes ainda. Talvez para alguns deles esses shows sejam só uma desculpa para curtir ou fazer festa, o que eu não acho ruim, mas, para alguns, é algo muito importante. Essas são as pessoas que acabam virando membros cruciais na cena.

Ao mesmo tempo, há veteranos, como o Greg Benedetto e o Ryan Tong do S.H.I.T., que permanecem muito ativos na cena. E, diferentemente do que costuma acontecer aqui no Brasil, não existe um conflito entre as gerações.

Sim, o que não quer dizer que não temos as nossas discordâncias, porque nós somos pessoas diferentes vindo de perspectivas diferentes, mas nos damos bem e apoiamos uns aos outros. Muitos dos punks mais velhos, principalmente os que têm trabalhos de gente grande (risos), se mostram abertos a dividir recursos com os mais novos. Por exemplo, Greg é um punk mais velho que sempre agendou shows de todas as minhas bandas e agora vai lançar o nosso disco. É ótimo que os que têm recursos financeiros e a uma rede de informações dividam com os mais novos, o que é especialmente legal para quem está vivendo relativamente na pobreza e é completamente incapaz de lançar um disco sem ajuda.

Também acho que ambas as gerações têm muito a aprender umas com as outras. Os punks mais velhos frequentemente podem contextualizar coisas atuais para a gente em caminhos que me ajudem a entender melhor. Por sua vez, nós provemos novos pontos de vistas em alguns assuntos. Pelo menos, eu me encontro muitas vezes explicando sobre transexualidade para aqueles na cena que não conhecem muito, mas estão abertos a entender e conhecer melhor os outros.

Definitivamente existem muitas diferenças entre as várias gerações de punks, mas nós nos ajudamos e temos muito a que aprender juntos, e, mesmo que não concordemos sobre tudo, está ótimo, porque não precisa ser assim. As pessoas são diferentes. Não quero que todo mundo monte as mesmas bandas e esteja no mesmo nível ideológico o tempo todo, porque isso é meio estagnante.

Antes de falarmos sobre o novo disco, queria fazer algumas perguntas sobre as minhas músicas favoritas na Demo. Como ocorreu a composição de “White Eyes”?

A letra foi escrita pela Lia. Fico hesitante em parafraseá-la, porque não quero perder nenhuma nuance do que ela quer passar, mas é basicamente sobre white gaze e racismo [Lia, descendente de chineses e italianos, é provavelmente a única vocalista asiática em Toronto]. A performance na gravação levou a música a um outro nível, o que, na verdade, acho que sempre acontece quando se trata das nossas composições. Na parte instrumental, a inspiração foi a música “The Way to Survive” do Bastard e uma banda local chamada Absolut, ou seja, essa vibe metal pesada e um pouco mais lenta. Além disso, eu queria variar um pouco o tempo na Demo, porque boa parte das músicas é rápida pra caralho e essa tem um groove. No sete polegadas, ela foi regravada com uma nova introdução composta por mim e pelo Matt, antes dele sair da banda, que cria uma atmosfera a mais. Aí, quando ela começa, é uma porrada.

Vocês costumavam tocar a introdução de Grind The Enemy (1987) do Axegrinder ao vivo antes dela começar, não é?

Sim! Eu amo todas essas bandas velhas de crust, cara! Todas essas bandas do fim dos anos 1980: Napalm Death do início de carreira, Bolt Thrower, Axegrinder, todos esses grupos super pesados e imundos. Nós temos um histórico de fazer introduções roqueiras e abrir o set com um tema. É uma maneira legal de começar o show. Quase ninguém pegou a referência ao Axegrinder, acho que os punks de Toronto não são lá muito chegados nesse tipo de crust, mas uns dois amigos ficaram impressionados (risos). Gosto muito desse riff. Nós temos uma outra introdução que tocamos agora, ainda não foi gravada e deve entrar num disco futuro.

E “Everyday in the Hell”? Se não estou enganado, você escreveu as letras para essa.

Essa música é sobre sentimento de ser jogado para baixo pelas pressões da sociedade capitalista de merda, de se sentir desgastado e pensar quanto tempo mais você consegue viver neste sistema violento, desumanizante e horrível. Como a música diz, subsistindo do ódio, como se a esperança por um futuro não te mantivesse indo em frente como o ódio pelo capital, o Estado, policiais e chefes o motivam. Não me considero ruim ou pessimista, mas odeio qualquer sistema de opressão violenta e autoridade injusta, e acho que deveriam ser incondicionalmente aniquilados. Essencialmente, essa música é sobre a alienação de viver sob o capitalismo, se sentir frustrada e impotente, mas continuar em frente contra todas as probabilidades.

De onde surgiu aquele riff da introdução?

Não faço a menor ideia de onde veio. Escrevi essa música há uns dois anos atrás. Você sabe quem é o Martin Sorrondeguy dos Los Crudos e Limp Wrist? Ele também toca numa banda chamada Needles, que soa mais ou menos assim. Estava ouvindo muito os discos deles na época. Os tom rolls e o baixo foram definitivamente influenciados pelo Gauze. É legal ter uma parte melódica para contrastar com os power chords.

Provavelmente não tem a ver, mas você já ouviu a música “Wasted Years” do Iron Maiden? O riff parece um pouco o dessa música.

Em que disco está essa música? Acho que nunca ouvi.

No Somewhere in Time (1986), se não me engano.

Em termos de Iron Maiden, eu praticamente só ouço o Powerslave (1984). Tenho enrolado para mergulhar no catálogo deles porque estou ouvindo outras bandas mais obscuras de NWOBHM. Fico com um pouco de preguiça de ouvir bandas grandes, porque, você sabe, é o Iron Maiden e tanto faz (risos). Mas o Maiden foi muito legal por uma fase e tem uns clássicos que valem a pena.

O riff dessa música tem a mesma ideia de palhetada alternada que “Everyday in the Hell”.

Interessante, tenho que ouvir. Eles fazem muito esses licks com ligados e palhetadas alternadas.

Para fechar, queria perguntar sobre “Power Beat”. Na entrevista para a CUIT, a Lia faz uma brincadeira dizendo que vocês tocam power beat e o novo disco se chama Power Beat.

Musicalmente, essa música gira em torno de um riff no estilo do Death Side. Acho que deve ser o riff mais Death Side entre as nossas composições. A parte mosh no meio não estava na ideia inicial, mas acabou virando esse trecho estilo two-step. Lia escreveu a letra e cunhou o termo ‘power beat’, que eu amei a primeira vez que ouvi. É uma descrição muito boa do nosso som. Se você pegar a Demo, no encarte está escrito “Triage is power” e é o que estamos tentando capturar com a nossa música, um sentimento de poder. Espero que a gente consiga transferir um pouco disso para o ouvinte, porque quando eu ouço o Death Side, me sinto muito tipo ‘sim, estou puto com tudo e vou ouvir hardcore’ (risos), mas de uma maneira edificante, não negativa e hardcore suicida. Já larguei essa fase depois de passar anos nela, não me interessa mais hoje em dia.

Não sei se existem muitas bandas que soam como a gente por aí, então, soou apropriado criarmos o nosso próprio gênero. Obviamente, há também a desconexão musical que nós sentimos dentro do hardcore. Cerca de 90% das bandas que eu vejo as pessoas se empolgarem eu só acho OK e nada de impressionante, porque eu tenho ouvido o estilo por tanto tempo que os padrões ficam cada vez mais óbvios. Então, é mais legal dizermos que somos uma banda de power beat do que de hardcore. Na contracapa do sete polegadas tem escrito “fuck hardcore, this is power beat”. É uma hipérbole, nós não achamos que somos bons demais para o hardcore, até porque somos uma banda de hardcore, formada por moleques do hardcore e que tocam shows de hardcore, mas o que nós fazemos não se encaixa perfeitamente no cânone do gênero. O objetivo não é tanto evocar um tipo de som específico, mas um sentimento de poder, justiça e esperança.

Quando esse sete polegadas deve sair?

O show de lançamento será aqui em Toronto, no dia 7 de abril, promovido pela Barf Bag Records. São cinco músicas, duas regravações – “White Eyes” e “Power Beat” –, gravadas pelo nosso amigo Jonah Falco, baterista do Fucked Up, Pavilion e um monte de outras bandas. Acabamos de receber os testes de prensagem e soam fantásticos. É o primeiro vinil que lanço e estou muito orgulhosa. Em retrospecto, definitivamente faria algumas mudanças, mas foi um processo criativo de muito aprendizado, então, não é o fim do mundo.

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Quanto tempo vocês levaram para gravar?

Gravamos em um dia só. Tocamos algumas dessas músicas há tanto tempo que não foi difícil gravar. O que demorou um pouco mais foram os meus canais de guitarra. Os vocais foram dobrados, a bateria e o baixo estão cada um num canal só, mas eu gravei quatro canais de guitarra: dois para as bases e dois para os solos. Levou um pouco mais de tempo para mixar porque eu fui muito pentelha, e ficava pedindo para mudar um negocinho aqui e outro lá (risos). Melhor atrasar um pouco o lançamento para chegar o mais perto da perfeição do que apressar e ficar insatisfeita.

Essas músicas novas são no mesmo estilo daquelas já lançadas?

Obviamente no mesmo estilo, mas há uma progressão natural. A primeira canção no disco é a nossa composição mais curta, mal passa de 50 segundos. Uma tem ritmos mais esquisitos e a outra é um pouco mais longa, inspirada por crust japonês, tipo o Framtid. Não quero entregar muito, mas o disco tem muitos solos, riffs, sentimentos e tom rolls (risos)!

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