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ENTREVISTA: Steve Shelley

 

“Imagery zapping in from the philosophical minds of P.K. Dick, Sun Ra and Black Flag”, explica Thurston Moore nas notas sobre Sister da coletânea Screaming Fields of Sonic Love, “culminates with all that is sonic pop and holy”. Com suas origens na vanguarda e amor de longa data pelo free jazz, o Sonic Youth proveu um ponto de encontro e de impulso para muitas das confluências da música underground dos últimos 30 anos. Sister foi o quinto álbum da banda e o segundo consecutivo com o mesmo baterista, Steve Shelley, tocando em todas as faixas. Após várias mudanças na posição, o Sonic Youth encontrou nele a combinação de pulso firme e nuances rítmicas que os egressos, vindos da cena no wave nova-iorquina, não dominavam.

Quando entrou na banda em 85, Steve trouxe uma inclinação ao tipo de levada hipnótica que bateristas como Bruce Smith, Phill Calvert e Hugo Burnham tocavam no início dos anos 80, assim como uma propensão pela experimentação – uma das marcas registradas do seu estilo é o uso de maracas, chocalhos e baquetas de feltro para conduzir a música sem usar os pratos. No entanto, enquanto as bandas do post-punk inglês eram centradas no groove duro do punk-funk, o Sonic Youth era um filhote do Glenn Branca e, por isso, dado à destruição total. A combinação de habilidade, imaginação e força de Steve foi fundamental para amarrar os arranjos das músicas e dar ainda mais brilho a todo o barulho das guitarras. Ouça “Stereo Sanctity”, de Sister, “’Cross the Breeze”, de Daydream Nation, ou “Chapell Hill”, de Dirty, ao menos uma vez para ter uma prova do que estou falando.

Steve está passando uma temporada no Brasil, tocando com o Gata Pirâmide e o Riviera Gaz. Essa entrevista ocorreu antes do show do Gata Pirâmide em Botafogo (RJ), na Audio Rebel. Já que a casa foi o lugar onde vi muitos shows de punk e música esquisita quando moleque, o ponto de partida foram seus anos no Crucifucks e na cena hardcore do Centro-Oeste americano, mas também conversamos sobre o processo de composição do Sonic Youth, a relação com Daniel Johnston, a experiência com a Smells Like Records, suas sessões com outros artistas, entre outros assuntos.

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Steve tocando com o Crucifucks em 1984 (Foto: Sonic Youth/Twitter)

Antes de se mudar para Nova Iorque, você morou em Michigan e tocou em várias bandas de garagem, como o The No Zones, Faith and Morals e Strange Fruit. Quais discos você ouvia e quais eram suas bandas favoritas nessa época?

As favoritas mudavam a cada seis meses, mas eu gostava muito do Neil Young e dos Beatles, as duas primeiras grandes paixões. Também gostava de praticamente tudo que tocava no rádio nos anos 70, mesmo que algumas coisas fossem bem ruins.

Os discos de punk não chegavam na cidade que eu morava e só os conheci muitos anos depois. Às vezes, esbarrava com alguma coisa passando na TV, como o Talking Heads no Saturday Night Live, Elvis Costello, The Jam ou The Clash. Aí, bem devagar, você descobria algo dessa banda que te levava à outra, quase que por boatos.

As mixtapes também eram muito importantes. Se seu amigo não escrevesse direito quem tocava o que na capa da fita cassete, você poderia passar anos ouvindo o DNA do Arto Lindsay achando que era o Minutemen, por exemplo. Foi uma época divertida.

Como era a cena?

Não tive acesso a uma cena até ter idade suficiente para dirigir com os meus amigos para as cidades universitárias ou grandes centros urbanos, como East Lansing, Detroit ou Kalamazoo. Esses lugares tinham cenas porque os moleques tiveram irmãos mais velhos que passaram discos representativos para frente, como The Idiot ou Lust for Life do Iggy Pop. Eram os caras que tinham vinis importados.

Pode parecer esquisito, mas os primeiros de Michigan a ouvir falar de punk foram os fãs de progressivo, porque eram eles que compravam discos importados. O cara encomendava álbuns do Genesis e outras bandas de prog que eu não conhecia, e, no meio, vinha algo do Joy Division, Echo and the Bunnymen ou compactos de post-punk. Assim, chegamos nas nossas influências da época, o Pop Group, as Slits e o Gang of Four.

Conforme descobria mais discos, aumentava a vontade de tocar. Cada banda tinha um desafio particular: um não sabia tocar, o outro tinha que trabalhar, e também tinha sempre aquele que não saía da casa da namorada. Era um processo de eliminação até encontrar as pessoas mais dedicadas. São as agruras de ter bandas com punks de meio expediente (risos).

Havia duas cenas, a independente e a que girava em torno dos bares. Os lugares da cena independente funcionavam de maneira parecida com a Audio Rebel, mas a estrutura daqui é muito melhor. Nós tínhamos apenas uma sala e um PA, e alguém ficava na porta cobrando a entrada. Quando comecei a ir a shows e tocar ao vivo, o hardcore estava crescendo, com o Minor Threat e o Circle Jerks, então eram para essas bandas que a sua abriria. O Crucifucks abriu um show do Minor Threat em Lansing e o Spastic Rhythm Tarts – o nome original do Strange Fruit antes do baixista resolver mudá-lo na capa do compacto sem perguntar a ninguém (risos) – também estava nesse circuito.

Já nos bares, éramos todos menores de idade e tínhamos que implorar para entrar, tipo “nós não vamos beber, só queremos ver a banda”. E assim você via o Gang of Four ou Psychedelic Furs. Havia também um esquema maior, como os grandes concertos do Echo and the Bunnymen e U2. Por volta dessa época, conheci um grupo chamado L-Seven, a melhor banda de Michigan. Por mais que não pudéssemos tocar em alguns bares, a gente dava um jeito de entrar para ver o L-Seven. Eles eram muito legais por que não se encaixavam em nenhuma categoria. Também eram músicos de verdade e tinham um baterista do caralho chamado Kory Clarke.

Larissa Stolarchuk, que depois montou o Laughing Hyenas, também era dessa banda.

Sim. Apesar de ser uma garota americana de, se não me engano, descendência polonesa, a Larissa parecia uma mistura de John Lydon e Siouxsie.

Eles costumavam tocar em clubes disco e bares gays.

As minhas bandas também. O Faith and Morals abriu vários shows do L-Seven. Havia um bar gay chamado Nunzios que era o ponto de encontro do pessoal. Engraçado que hoje nós tocamos uma música do Funkadelic, uma banda de Michigan, e o Nunzios era o lugar que você ouvia George Clinton, Kraftwerk, “Christine” da Siouxsie and the Banshees e “To Hell with Poverty” do Gang of Four, tudo numa noite. Os únicos lugares para ouvir músicas legais eram nessas discotecas gays ou clubes new wave.

Tenho trabalhado num projeto de livro e LP do L-Seven. Está andando devagar, mas já tenho tudo o que foi gravado, o bastante para um disco de estúdio e outro ao vivo.

Vai sair pela Vampire Blues [selo de Steve]?

Espero que sim, se continuar a andar. Eles só lançaram um sete polegadas, que deve custar umas duzentas pratas no eBay. Um cara que me ajudou nas entrevistas com os membros sobreviventes pagou uns US$ 100 no disco. Acho que só prensaram 500 cópias na época.

Você sabe por qual motivo Kory deixou a banda?

A cena hardcore era um pouco esquisita. Era um bando de moleques de 16 ou 17 anos querendo ser muito intimidadores e malvados. Havia também um sentimento anti-gay e mente fechada.

Bem macho.

Muito macho. Kory era muito bonito e sempre conquistava as meninas. Então, esses caras do hardcore, crianças na verdade, eram super malvados com ele. Faziam piadas sobre ele ser gay por causa do seu topete pompadour loiro como o do Billy Idol, e olha que ele era ainda mais fofo que o Billy Idol. Enfim, Kory tinha um visual cool e eles não gostavam disso, porque só usavam camiseta, jeans e cabelo curto.

Houve um ponto em que todo mundo raspou a cabeça?

Sim, eu fiquei chocado. Para mim, raspar a cabeça era coisa do movimento skinhead fascista de Londres e fiquei me perguntando “mas por que eles querem ser fascistas?” (risos). É engraçado, eles não eram fascistas de verdade, mas tinham algo de fascismo nessas atitudes individualistas. Hoje, esses moleques cresceram e viraram boas pessoas, mas foram babacas na adolescência.

Nos vídeos antigos dos shows do Negative Approach todo mundo é careca e está brigando.

O L-Seven e seus fãs eram mais mente aberta. No entanto, o Negative Approach cresceu demais e a Larissa era muito fã deles, então o L-Seven começou a tocar mais rápido e fazer outras coisas que eram ditadas pelas regras da maioria. Só tocaram um ou dois shows sem Kory. Fiz um teste para a banda, mas não me escolheram (risos). Eles foram convidados para abrir para o The Birthday Party e esse último show foi com o Chris Moore, o Opie do Negative Approach, na bateria.

Como não consegui entrar no L-Seven, me mudei para Nova Iorque e tive sorte de o Sonic Youth precisar de alguém. Era o meu sonho, porque tudo ali era aceitável e poderia ser usado nas músicas.

Mas antes disso você entrou para o Crucifucks.

Na verdade, o Crucifucks existiu ao mesmo tempo que as outras. As bandas alternavam conforme os integrantes entravam e saíam.

Normalmente, o Crucifucks é tratado como uma semi-lenda do hardcore, mas havia um elemento forte de post-punk na mistura.

Era o que nós ouvíamos. Não gostávamos de hardcore, gostávamos de Minutemen e Meat Puppets. Por isso, chamamos o Spot para fazer o disco de estreia, apesar dele ter sido lançado pela Alternative Tentacles [Glen “Spot” Lockett era o produtor e engenheiro oficial da SST Records, gravadora californiana fundada por Greg Ginn].

Quando fomos para Los Angeles gravar o disco, dormimos num porão que servia como estúdio de ensaios do Black Flag. Kira Roessler apareceu para pegar alguma coisa do seu baixo e nos acordou. Ficamos conversando e ela comentou que todo mundo achou estranho gravarmos com Spot um disco que seria lançado pela Alternative Tentacles [selo administrado por Jello Biafra]. Havia uma rixa entre a cena de São Francisco e a da Los Angeles, especialmente entre a Alternative Tentacles e a SST. Essa mentalidade de quem é o mais legal, um negócio que eu nunca liguei.

O Crucifucks passou por muitas mudanças de formação, mas os integrantes sempre foram fãs de post-punk. O vocalista, Doc Dart, amava o Public Image Ltd e a voz dele lembrava a do Johnny Rotten. Ele também amava os Buzzcocks, com o Pete Shelley ou Howard Devoto, e Neil Young. Nós tínhamos essas mesmas influências esquisitas.

Como foi fazer parte daquela turnê Rock Against Reagan? A escalação era toda formada por bandas super hardcore, como o MDC, DRI e The Dicks.

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O DRI tocou apenas um show ou dois. Eles tinham a fama de ser a banda mais rápido do mundo, mas não dávamos a mínima para isso. Talvez o baixista ligasse um pouco, já que ele tinha um moicano e tudo, mas achávamos que era idiota tocar rápido o tempo todo. Vindo do Centro Oeste, você tinha uma base de classic rock, e eu nunca joguei fora meus discos dos Beatles e Neil Young, apesar de todas as novidades inspiradoras que apareceram, como o Minutemen ou Gang of Four.

Muita gente fazia piada do DRI ou MDC, porque ser rápido por si só já era previsível e típico naquela época. Não havia muitas bandas fazendo esse tipo de som de maneira criativa por volta de 1984, quando começou a sair de moda. Quando tocamos em Austin, no Texas, vi um show do Big Boys e eles tocaram covers de funk, músicas do Kool and the Gang, e achei aquilo demais. Em Michigan, apesar de amarmos a post-punk e a new wave, nós ouvíamos a Soul Station porque eles tocavam Prince, The Time, Afrika Bambaataa e coisas do início do hip hop.

Na primeira vez que o Crucifucks foi para Nova Iorque, “The Message” do Grandmaster Flash and the Furious Five começou a tocar no rádio da van enquanto dirigíamos pelas ruas de Manhattan. Foi incrível.

Como era tocar para o público do hardcore?

Algumas vezes o público era legal, mas, se Doc sentisse que as pessoas eram hardcore demais, ele fazia piada de todo mundo. A VICE publicou um artigo sobre ele há uns anos e é uma leitura fascinante. Doc está praticamente insano atualmente e fala de si mesmo na terceira pessoa. Quando o Doc Dart mau é o assunto da história, ele o chama de Little Doc.

Ele não faz ofensas ou xinga, não assiste TV ou notícias de política. Ele nem sequer sabe quem é o presidente. São as coisas que o deixavam furioso na época da banda, “I hate your government, I hate your media” [trecho da letra de “No One Can Make Me Play Along With This”], você sabe, tudo o que está acontecendo no Brasil hoje (risos) [a entrevista ocorreu ao mesmo tempo em que o presidente interino, Michel Temer, discursava na televisão].

Doc era uma pessoa antagonista que, constantemente, arrumava problemas com a polícia. Também sofria de alcoolismo, então estava sempre bêbado e fazendo coisas ridículas. Era um cara muito esperto, incessantemente disposto a mostrar aos policiais e políticos o quão eram estúpidos, o que nem sempre é a melhor maneira de mudar as coisas. Ele foi preso e internado em manicômios várias vezes.

Pouco tempo depois do fim do Crucifucks, você se mudou para o apartamento da Kim Gordon e Thurston Moore em Nova Iorque.

Eles estavam pela Europa abrindo a primeira turnê do Nick Cave com o Bad Seeds. A turnê continuava a ser estendida, então, eu e o meu amigo, Marc Hauser, o segundo baixista do Crucifucks, íamos ficando por lá. Morávamos no apartamento deles de graça, cuidando do cachorro em troca do aluguel, enquanto procurávamos por um emprego. Nova Iorque parecia ser uma cidade louca se comparada a Michigan e não sabíamos se daria para sobreviver por lá. Quando Kim e Thurston voltaram, eu já estava na porta com as minhas malas prontas, mas eles me convidaram ali mesmo para entrar no Sonic Youth.

Se você comparar os bootlegs do início de 1985, ainda com o Bob Bert na bateria, com aqueles da turnê europeia em outubro, com você na bateria, é quase uma banda diferente.

Sério?

Num show como o Gila Monster Jamboree, no Deserto de Mojave, eles soam mais desordenados em contraponto com o show na praia de Brighton, na Inglaterra. É como se você tivesse trazido o rock para o Sonic Youth.

Bem, eu gosto de rock e eles gostam de rock (risos).

O que quero dizer é que tudo passou a soar mais firme e preciso.

Até certo ponto acho que Thurston estava pensando que tinha arrumado um baterista de hardcore, porque ele amava o estilo, mas eu estava sempre tentando tocar qualquer coisa que não soasse como hardcore. Nos demos muito bem desde o início. Ouvíamos tudo o que vinha da Inglaterra, como o Jesus and Mary Chain. Era uma época muito fértil…

Mesmo nos últimos lançamentos com o Bob, o Sonic Youth ainda soava como um filhote da no wave. No entanto, quando você entrou na banda, a banda passou a ter canções.

Muita gente me culpa por isso (risos).

Pela banda passar a ter canções?

Sim. Sempre que você muda um integrante, acaba despertando coisas novas na personalidade dos outros. Talvez isso tenha acontecido com eles, mas, vai saber… Nunca virei e disse “ei, vamos tocar assim a partir de agora”. Na verdade, no primeiro ensaio, Thurston já tinha “Green Light” e “Expressway to Yr. Skull”. Lee nem sequer estava nesse dia. Thurston disse que tinha uma música nova e começou a tocar o riff de “Expressway”.

Mas, quanto a sua abordagem na hora de tocar, havia uma mentalidade de “eu quero fazer isso ou aquilo”?

Não, eu só queria tocar. Cada música é diferente e sempre me preocupei com o que o arranjo pede. Não tenho vontade de me exibir. Na verdade, nem conseguiria, não sou esse tipo de baterista. Pode ser bobo falar dessa forma sobre bateria, mas eu me sinto como um arquiteto, responsável pela construção do esqueleto da composição. Minha preocupação sempre foi com o que faria a música ser boa.

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Sonic Youth em Brighton Beach, dezembro de 1985 (Foto: Jeff Stonehouse/Sonic Concert Chronology)

Uma coisa que me surpreendeu quando li a autobiografia da Kim Gordon foi o processo de composição do Sonic Youth. No livro, parece que ela colaborava mais com a parte conceitual e com as linhas de voz, não tanto com o instrumental. De acordo com o que ela dá a entender, as estruturas das composições surgiam entre você e o Thurston. Já o Lee trazia as dele praticamente completas.

Não exatamente. Essa pode ser a versão da Kim e a interpretação dela de algo que aconteceu por 25 anos. Às vezes, era um processo muito socialista e todo mundo contribuía com alguma coisa, inclusive a Kim na guitarra. Em outras, Thurston e Lee tinham que mostrar para ela que notas encaixariam no tom, porque ela não dominava essa parte teórica. Na verdade, nem eu dominava na época.

De todos nós, Lee é o que tem mais conhecimento teórico. Os outros aprenderam a tocar no porão. No caso de Kim foi ainda mais diferente, já que ela não tocou em bandas de garagem. Lee geralmente trazia versos e refrãos prontos, mas cada um adicionava um ingrediente na mistura.

As versões deluxe dos discos têm aquelas demos caseiras das músicas do Lee…

São as mesmas demos que ele trazia para a banda. Acho que há quatro versões diferentes para essa reposta e as coisas também mudaram com o passar dos anos. Depende de quanto tempo nós passamos juntos. No início, quando não estávamos em turnê, ensaiávamos quatro ou cinco dias por semana. Esse era o motivo da banda ser especial. Passar esse tempo juntos, mesmo que fosse entediante de vez em quando, e você tivesse a mesma cara toda dia, e eu tivesse que ficar olhando para ela o tempo todo (risos), era a coisa certa a fazer.

Acho que por isso todo mundo tem essa impressão de que o Sonic Youth era uma gangue.

E é assim que as coisas legais aconteceram. Os momentos mais especiais nasceram de quando cada um contribuiu e o resultado foi algo que não poderia ter sido feito individualmente. Posteriormente, quando Kim e Thurston mudaram para Massachusetts, não nos víamos tão frequentemente, mas sempre nos reuníamos para compor antes dos discos. Nesse período, Thurston passou a trazer as canções mais formadas, então, não havia tantas opções do que tocar.

Você tinha que se encaixar na música.

Isso, não participei da construção daquilo desde o início. Não há muito o que fazer se o riff de guitarra é “changa-changa-changa” (risos), entende? Às vezes, as coisas não são ideais e você tem que trabalhar com o que tem à disposição. Estar numa banda é ceder e se doar para o seu colega. Mas, eu não li o livro da Kim, então não sei do que ela falou.

Depois de acompanhar um cara mentalmente frágil como Doc Dart, como foi lidar com o Daniel Johnston? Dá para dizer que você já tinha uma experiência.

Há algo nesses músicos ou figuras de personalidades conturbadas que acho especial e importante, é algo que me atrai. E as músicas de Daniel eram maravilhosas. Sempre que passávamos por Austin, a gente comprava suas fitas cassetes por US$ 1,99 na Waterloo Records e elas eram a trilha sonora na estrada até a Califórnia. Eram músicas muito engenhosas, especialmente as de Hi, How Are You.

Daniel foi um doce quando o conhecemos e acabamos virando amigos. Não sabíamos que ele tinha um lado manipulador, algo que fica muito evidente no filme [The Devil and Daniel Johnston, documentário lançado em 2005], só achávamos que precisava de alguém para tomar conta dele. A gente dizia “ah, ele é só uma pessoa muito doce, vai acabar sendo engolido por aí” ou “ah, ele acha que é melhor do que os Beatles” (risos).

Quando veio passar uma temporada comigo em Nova Iorque, Daniel parou de tomar seus remédios e começou a agir como um maníaco. Arrumamos um show numa loja de discos chamada Pier Platters, uma oportunidade bem legal. Poucos dias antes, ele mandou fazer mil flyers anunciando o show. Eu estava na gráfica e falei: “ei, Daniel, vamos fazer uns cinquenta flyers”. Ele respondeu: “Steve, você não está entendendo, isso vai ser grande. Eu estarei nas capas da revista Time e da Newsweek”. Esses flyers tinham o número sete por todos os lados, diziam que ele tocaria por sete dias seguidos às sete horas da noite, porque sete é um bom número cristão ou coisa parecida.

O show era grátis, umas 25 pessoas apareceram na loja e Lee filmou tudo, por isso vocês podem ver essas imagens hoje. No fim da noite, o dono da loja falou que tinha sido legal, mas o acertado era um único show, não sete. Daniel começou a ser muito rude e tratá-lo extremamente mal.

Ele estava num período delirante, se vestia somente de branco e acreditava ser semelhante à Cristo, se não o próprio. Eu nunca tinha lidado com esse tipo de alucinação.

O show em si foi muito esquisito. Ele começou a pregar numa parte e a falar de Jesus.

Ele também chorou durante “Casper The Friendly Ghost”. Depois do show, fomos para a minha casa porque o diretor musical da WFMU ia entrevistá-lo. Enquanto Daniel era entrevistado na cozinha, eu estava no outro lado do apartamento, sentado na minha cama e falando ao telefone com o empresário dele, um garoto chamado Jeff Tartakov. Eu disse: “Jeff, Daniel tem que ir para casa, ele não está muito bem”. Daniel entrou no quarto e começou a me intimidar: “Steve, com quem você está falando? Com quem você está falando?”.

Fiquei segurando o telefone o tempo todo para que Jeff ouvisse o que estava acontecendo. À certa altura, Daniel agarrou o meu pescoço e eu achei que ele iria me enforcar. O medo dele é que eu estivesse falando com os seus pais, porque ele sabia que estava agindo como um garoto levado (risos). Quando entendeu que não eram eles, Daniel disse “ah, OK!”, deu as costas, agiu como se nada tivesse acontecido e continuou a dar a entrevista.

Não lembro exatamente se o expulsei ou tentei fazê-lo ir para a estação de trem, mas Daniel acabou se perdendo por Hoboken. Lee e Thurston vieram até a minha casa porque souberam que eu estava irritado, e, inacreditavelmente, conseguiram encontrá-lo fazendo check-in em um pulgueiro perto do Holland Tunnel.

Nos dias seguintes, ele continuou escapando das tentativas de mandá-lo para casa. Kramer o deixava gravar durante o dia no estúdio dele, mas não passar a noite, algo que nunca gostei. Assim, Daniel virava a madrugada pelo metrô, era parado pela polícia e todas essas merdas até que finalmente voltou para casa.

Nesse período, Maureen Tucker convidou o Sonic Youth para participar das gravações de Life in Exile After Abdication.

Daniel virou um fardo tão grande que não pude participar da gravação de “The Chase”, porque Kramer não queria que eu o levasse ao estúdio. Fiquei muito desapontado. Até cheguei a gravar alguma coisa no disco, “Bo Diddley” ou algo assim, mas não pude tocar com o Sonic Youth e a Moe ao mesmo tempo.

Há um trecho muito engraçado no filme em que Daniel diz que você está possuído pelo diabo.

Sério?

É literalmente isso, “the Devil has you, buddy!”.

Não lembro disso. Se você dissesse qualquer coisa que ele não queria ouvir, então estava contra Jesus, entende? Uns amigos nossos que editavam um fanzine o levaram para subir o caminho da Estátua da Liberdade. Chegando lá, Daniel pixou aqueles peixes que são o símbolo do cristianismo e ‘Jesus é legal’ em todos os degraus com um marcador de graffiti (risos). Ele foi preso e ia se encrencar feio, porque é a Estátua da Liberdade, mas, de algum modo, conseguiram livrar a cara dele.

Você o encontrou depois disso?

Sim, é triste demais, ele está sempre muito medicado. Já o vi tocar algumas vezes e não consigo gostar. Não é para mim.

Ele tocou no Brasil.

É surpreendente que ele consiga viajar pelo mundo.

Não foi tão fácil assim. Toda a turnê sul-americana chegou a ser cancelada. Ele passou o dia muito nervoso e tremia demais durante o show. Ele também comprou um monte de quadrinhos brasileiros velhos.

Ah, ele adora quadrinhos.

Mas era uma porrada de quadrinhos.

Sim, não são só um ou dois quadrinhos, mas uma tonelada, como a história dos flyers. Até outro dia eu guardava esses flyers no meu armário. Joguei metade no lixo e mandei o resto para o empresário dele. Devia ter guardado alguns como lembrança.

No início dos anos 90, quando o rock alternativo se fincou no mainstream, você fundou a Smells Like Records. Quais eram os prazeres de operar um selo underground nesse período?

Havia muita gente boa produzindo e as coisas eram mais fáceis de fazer na época. Lou Barlow me enviou uma cassete e lançamos um single com as músicas [Winning Losers (A Collection Of Home Recordings) do Sentridoh], assim, sem dificuldade. Hoje, lançar um disco do seu amigo ou de um grupo novato é bem mais difícil, porque a competição é enorme, há uma enxurrada de discos chegando ao mercado todo dia e as pessoas não compram música como compravam no início dos anos 90. Apesar disso, não largo o osso e lançamos as coisas por nós mesmos na Goofin’ Records.

Pelo que entendi, você é a pessoa por trás dos relançamentos do Sonic Youth.

Basicamente sim, mas cada um colabora com algum detalhe. Lee ajuda com as artes de capa e nós mixamos as gravações juntos. Spinehead Sessions [compilação dos ensaios para a gravação da trilha sonora de Made In USA] sai no dia 17 de junho e eu estou muito feliz com o resultado. O próximo na fila é um DVD ainda não finalizado. Quando isso terminar, quero trabalhar em um projeto que a banda nunca tenha feito antes, algo divertido para nós e para os fãs.

A Smells Like Records parecia uma reunião de amigos, mas o catálogo ainda impressiona, com discos do Dump, Blonde Redhead, Loren Mazzacane Connors, Jad Fair, The Raincoats e Cat Power. Você conheceu a Chan Marshall quando ela abriu um show das Raincoats em 1994, no mesmo dia em que Kurt Cobain morreu. O que você lembra desse encontro?

Ela estava muito insegura e nervosa. Depois da passagem de som [Steve era o baterista das Raincoats na época. A banda, recém-reunida graças ao burburinho criado por Kurt Cobain, se preparava para sair em turnê abrindo para o Nirvana], a convidamos para dar uma volta e comer alguma coisa, porque ela estava super tímida e quieta em um canto. Fiquei impressionado com uma das músicas e me ofereci para tocar caso ela precisasse de alguém. Nós fizemos três discos, Dear Sir, Myra Lee e What Would the Community Think.

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Contracapa de Extended Play das Raincoats

Além de tocar bateria, você também produziu What Would the Community Think, certo? Esse é um dos meus álbuns favoritos dela.

Meu também. Levei-a para gravar em um estúdio que eu gostava em Memphis, no Tennesse, chamado Easley Recordings. Chegando lá, ela começou a agir de maneira muito cautelosa e sisuda. Por exemplo, ela não queria dobrar as linhas de voz e questionava a pureza de gravar assim, o que é engraçado hoje, já que os discos recentes dela têm dez Chans cantando ao mesmo (risos). Ela não levava fé em ninguém, então, você tinha que se esforçar para ganhar a confiança.

De todo modo, Chan era muito talentosa. Ela gravava as linhas de voz e a guitarra ao mesmo tempo, tudo ao vivo e sem metrônomo, enquanto todo mundo prefere fazer overdubs da voz. Na verdade, em alguns momentos dessas sessões, era exatamente isso que me passava pela cabeça: essa é uma das pessoas mais talentosas que já conheci.

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Cat Power no clube Local 506, em Chapel Hill, Carolina do Norte

Outro ponto importante da Smells Like Records foi ela ter pavimentado o caminho para a forma que outras gravadoras trabalham hoje em dia, como, por exemplo, a Light in the Attic.

Hm, um pouco, eles relançaram o catálogo do Lee Hazlewood e agora estão trabalhando com o Townes Van Zandt… Acho que eles têm uma coleção de discos muito legal (risos).

Eles fazem quase as mesmas coisas que você fez há 20 anos e com o mesmo filão de artistas.

Sim, é parecido mesmo, mas eles lançam um monte de discos que eu nunca conseguiria desenterrar. É uma gravadora interessante. Tenho um monte de discos deles nas minha coleção.

Fizeram um bom trabalho com o catálogo do Lee Hazlewood. Muito daquele material era impossível de conseguir enquanto Lee estava vivo. Ele era um cara muito difícil e não queria que eu revirasse os arquivos. Tive que trabalhar com o material que ele mesmo selecionou.

Ele não está com uma cara muito amistosa naquela foto com você.

Aquela foto foi tirada na noite em que nós o conhecemos. Havia um boato de que ele cantaria quatro músicas em um show da Nancy Sinatra no The Limelight, um clube disco de Nova Iorque. O nome dele não estava nem no cartaz, era um rumor mesmo, mas nós fomos em bando para lá porque colecionávamos seus discos há anos e ninguém falava em Lee Hazlewood nos EUA. Ficamos muito felizes de vê-lo cantar, conhecê-lo e dizer que amávamos as suas composições. O Sonic Youth todo o amava e ele era maravilhoso, mas uma pessoa muito difícil na hora de trabalhar. Não facilitava em nada.

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Lee Hazlewood, Steve e Lee Ranaldo no Limelight (Foto: Thurston Moore)

Nós estamos sempre atrás dos discos que você produziu e tocou, até plagiando uma levada ou obrigando um amigo baterista a tocar igual.

Legal (risos)!

Uma gravação recente muito marcante foi a de Universal Themes do Sun Kil Moon, um dos meus discos favoritos de 2015. Foi também uma época tumultuada para se estar com o Mark Kozelek, já que ele estava trocando socos com a imprensa, fãs e toda a Internet.

A banda foi batizada em homenagem a um boxeador coreano chamado Sung-Kil Moon. O boxe é um esporte de conflito e antagonismo, e acho que Mark gosta disso. Eu não gosto disso, mas ele gosta. Quando essa história começou, não imaginei que ele iria se desculpar ou coisa parecida, e, assim que viu que as pessoas ficaram incomodadas, continuou a irritá-las.

No entanto, Mark é um cara divertido no trabalho, muito talentoso e que me trata muito bem. Tenho duas turnês pela frente com ele.

Ele já conversou sobre toda essa situação com você?

Claro, o tempo todo. Eu sempre falo “ei, Mark, talvez seja melhor você não dizer nada, sabe, melhor você ficar quieto” (risos), mas ele é crescido e sabe o que faz. Nós gravamos muito e ele está fazendo um disco novo. Gravamos um pouco em São Francisco e no nosso estúdio em Hoboken. É um cara bem diferente de trabalhar, bem bizarro.

Como você lida com essas personalidades? Mark é esse cara muito intenso, enquanto Howe Gelb parece ser a pessoa mais doce na Terra.

Ele é o arco-íris! Mas Howe é difícil da sua maneira. Ele não gosta de fazer a mesma coisa duas vezes. Não acredita em praticar, ensaiar ou passar o som. Ele quer simplesmente aparecer no lugar e gritar os títulos das músicas para o resto da banda (risos). E ainda podem ser músicas que você nunca tocou antes e você tem que segui-lo.

O que deve ser um problema ainda maior considerando o tamanho da discografia dele.

Pois é, são muitos discos que ainda não ouvi. Foi muito divertido gravar The Coincidentalist com ele, M. Ward na guitarra e Thøger Tetens Lund no baixo, e mal posso esperar para fazer outras coisas. Atualmente, ele está sozinho em turnê, porque está muito difícil de sair por aí com uma banda, seja com doze, seis ou três pessoas. Ele só aparece e toca piano.

Sobre trabalhar com diferentes personalidades, você tem que se preparar da melhor forma possível, chegar com uma boa atitude e ver o que pode fazer para que tudo corra bem. Claro que não dá certo toda noite. Em algumas noites, o sentimento é de “foi horrível, o que eu estou fazendo aqui?”. Em outras, o show termina e você se sente chapado, com essa energia muito boa de que as pessoas gostaram e algo especial aconteceu naquele momento.

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