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Estratégias oblíquas

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Se você compõe músicas numa guitarra com certeza já passou pela seguinte situação: você liga amplificador, pisa nos pedais, saca a palheta certa e, quando começa a tocar, tudo soa como a mesma merda de sempre. Não importa se é para uma banda de hardcore com X pintado nas mãos ou para um grupo de surf music fantasiado de marinheiro. Quando você senta para escrever uma música ou improvisar, acaba lançando mão dos mesmos truques de sempre. Se livrar deles pode ser frustrante e quase impossível.

Para romper essa barreira, Ben Chasny, líder do projeto avant-folk Six Organs Of Admittance, criou um sistema de composição baseado num baralho de cartas. O trabalho começou como uma investigação de processos heterodoxos para quebrar velhos vícios na hora de tocar guitarra e dissolver estruturas musicais interiorizadas pelo instrumentista.

Numa mistura de filosofia ocultista antiga, matemática e guitarra, o sistema, batizado Hexadic System, estabelece uma relação entre cada carta do baralho e as notas no braço do instrumento para provocar situações onde relações tonais incomuns apareçam. No livro, lançado pela Drag City, são propostos três métodos de composição e dois jogos, além de toda a explicação teórica em torno do sistema, com elementos derivados da literatura mágica (o quadrado do Sol de Cornélio Agrippa domina um dos capítulos, por exemplo). Há também citações às ideias do filósofo francês Gaston Bachelard, do poeta mexicano Octavio Paz e do escritor catalão Raimundo Lúlio.

Como o sistema é aberto, você pode usar apenas uma das estratégias, combiná-las ou pegar somente as ideias que desejar. Cada um desses procedimentos aponta para novos modos de pensar criativamente a guitarra ou mesmo a linguagem (há também uma forma de correlação entre uma nota e uma palavra ou letra).

Como compor com o Hexadic System

índiceUma das técnicas no livro gira em torno da Hexadic Figure. A figura é criada a partir de um baralho de 36 cartas onde nenhuma nota é repetida (o Rei de Ouros, o Rei e a Rainha de Paus e todo o naipe de Espadas são dispensados). Seis grupos de seis cartas devem ser montados em torno do centro da figura, chamados de “braços”. Há também a relação espelho entre um pilar de três cartas e o pilar no outro lado da figura, os “polos”. Por último, uma carta da pilha deixada de lado é colocada no centro.

Assim ficou a minha primeira tentativa:

São doze grupos de seis notas cada, doze “campos tonais”. Cada campo tem notas específicas dentro de uma certa oitava, de forma que uma nota pode aparecer numa oitava, mas não em outra. Partindo da correlação entre cartas e a guitarra presente no livro, onde os naipes de Copas, Ouro e Paus se dividem nas três oitavas disponíveis na escala até o décimo segundo traste e o Rei de Copas é a sexta corda solta, o braço A seria: 2♦ (F# 1), 8♦ (C 2), J ♥ (D# 2), K♥ (E 1), 6♥ (A# 1) e 8♣ (B 3). O centro tonal na minha figura é 7♠ (B). Ele é opcional e não tem oitava pré-definida. Pode ser usado para adicionar mais peso a algumas notas e evitar a dodecafonia.

O raciocínio se estende a cada um dos “braços” e “polos”. São definidas ainda a nota raiz (tônica, root note, a mais grave das seis) e uma nota intervalo (de acordo com a carta que representa a hora do dia em que você está tocando, que também vai determinar qual dos “braços” ou “polos” devem ser utilizados). Elementos como tempo e intensidade também entram em jogo, de acordo com o valor definido pelo jogador para cada naipe.

Outros fatores como chance, tempo e combinação também influenciam o prosseguimento, mas detalhá-los sem qualquer conhecimento dos capítulos teóricos tornaria essa explicação mais exaustiva do que realmente é. O importante é notar que o método não mostra exatamente como você vai soar, mas cria uma projeção da harmonia.

No vídeo a seguir, Ben apresenta rapidamente uma visão geral do livro e demonstra um dos jogos:

O Hexadic System foi usado nas gravações dos últimos dois discos do Six Organs Of Admittance, Hexadic I e II. Como esperado de alguém que queira lutar contra o legado da guitarra a esse ponto, as músicas devem muito às explorações de Keiji Haino com seu Fushitsusha, principalmente ao material lançado pelo selo Tokuma, e ao American Primitive Guitar de John Fahey, influências que perpassam os lançamentos de Ben desde os anos de Plague Lounge. Ouça um exemplar do lado mais barulhento:

Alquimia dos números

A ideia de Chasny não é novidade. Brian Eno e Peter Schmimdt publicaram as Oblique Strategies nos anos 70, John Zorn ganhou fama com as game pieces uma década depois e mesmo Mozart compunha com dados séculos antes. O Hexadic System parece mais próximo às escalas inventadas por Harry Partch, ao diagrama dado por John Coltrane ao Yusef Lateef e ao conceito de harmolodics do Ornette Coleman como aplicado pelo Royal Trux no disco Twin Infinitives.

O livro não fará ninguém um “guitarrista melhor” como o entendido pelo senso comum, ou seja, não oferece soluções rápidas aos que sobrevivem na vida de frila em estúdio ou técnicas mirabolantes para quem busca o atletismo musical como maneira de chamar atenção. O objetivo é provocar a abertura de novos caminhos com a diluição das fronteiras entre a espiritualidade e a teoria musical, libertando o processo de composição ou transformando a relação do guitarrista com o instrumento através de uma alquimia dos números.

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