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Miles no Brasil, 1974

(Foto de Ricardo Beliel, reprodução de matéria da VICE)

Apareceu esses dias pelo Soundcloud um bootleg de uma das noites da passagem do Miles Davis pelo Theatro Municipal em São Paulo, no meio dos anos 70. Para quem quer baixar o registro numa qualidade melhor que a captura do Soundcloud, fica aqui o link para download de uma versão em 320kbps que eu guardo há alguns anos no HD. Apesar da baixa fidelidade da gravação (há um CD-R japonês que promete remasterização milagrosa), vale ouvir. É o auge da fase refusenik-kraut-funk-meditativa-psicodélica e o meu momento favorito da carreira do Miles Davis.

Se você não faz ideia do que eu estou falando, mas gosta de Ash Ra Tempel, Can e Amon Düül II do início de carreira, recomendo correr atrás dos discos Get Up With It, Dark Magus, Agartha e Pangaea. Como o Julian Cope disse uma vez, “a música de Miles Davis entre 1974 e 1975 foi o epítome do xamanismo sônico”. Para o Greg Tate, da Down Beat, o octeto foi “a primeira banda totalmente improv de acid-funk”.

Basicamente, Miles levou as experimentações em Jack Johnson e On The Corner ao limite, abandonando as estruturas em acordes em favor do ritmo. Os timbres de órgão, herdados do Sly Stone, também ganharam destaque. Falando nele, há uma lenda de que o Miles apareceu na casa do Sly e começou a tocar vários clusters loucos no teclado. Sly, que foi criado em coros de música gospel, o expulsou aos gritos de motherfucker por estar tocando “voodoos” na sua casa. Acho que a história já dá uma ideia do que se tratam esses discos.

A produção dessa fase é largamente ignorada em documentários ou pela crítica tradicional, que acusa o Miles de ter sofrido um burnout e se esgotado. Mas essas são pessoas, como o Wynton Marsalis, que acreditam que o jazz deve existir como peça de museu e ser apresentado por gente vestindo terno.

Theatro Municipal, 28 de maio de 1974

Em São Paulo, além do líder, a escalação do octeto tinha Pete Cosey (guitarra), Reggie Lucas (guitarra), Dominique Gaumont (guitarra), Michael Henderson (baixo), Al Foster (bateria), Mtume (percussão) e Dave Liebman (saxofone). O setlist foi similar a outros da época: “Funk [Prelude, part 1]”, “Ife”, “Turnaroundphrase” e “Tune In 5”. Eles tinham acabado de tocar no Rio, nos dias 23, 24 e 25, e repetiram a dose em São Paulo nos dias 31 de maio e 1º de junho. Charles Mingus passou pelo país no mesmo ano.

Segundo o jornalista Carlos Calado, em entrevista para o blog Farofa Moderna, “o volume de som era tão alto que assustou, ou até irritou, os fãs mais velhos”. Ele continua o relato: “Vi muitos quarentões e cinquentões saindo no meio do concerto. Já a garotada ficou tão enlouquecida que começou a subir nas cadeiras de veludo do Teatro Municipal. Graças àquela noite, os shows de música popular ficaram proibidos no Municipal paulistano durante o ano”.

Supostamente há diversas gravações desses shows feitas pelo Liebman, mas as fitas TDK 180 foram roubadas no aeroporto de Frankfurt, quando ele as levava para a análise e restauração do Enrico Merlin.

Alguns recortes do O Globo sobre a turnê brasileira (clique nas imagens para abrir em tamanho maior):

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