As sobras do regime

“Foi um Natal de cão, em 1968, planejamos uma grande panfletagem do Resistência. Era um número especial do AI-5, com um editorial explicando sumariamente suas causas. (…). Foi um Natal de cão, em 1968. Havia muita gente presa, um corre-corre geral e os indícios de resistência eram quase nulos. Haviam dado um golpe num momento exato, quando o nível de mobilização era o mais baixo possível. E haviam dado o golpe no fim de ano, aproveitando a confusão das festas, compras de Natal e férias. (…)

“O povo mesmo não parecia ter sido tocado pelo AI-5. A vida corria seu curso normal. (…) Nós ali, engarrafados com uma partida de um jornal clandestino, gente fugindo de casa, limpando suas estantes de livros suspeitos; e, nas ruas, as compras, a permanente trama sentimental, presentinhos daqui, presentinhos de lá, onde é que vou comprar o pernil, cuidado com os pivetes, procura fechar a bolsa”.

Fernando Gabeira.

Foi a partir do dia 13 de dezembro de 1968, o dia fatídico do Ato Institucional número 5, que foi escrito um dos episódios mais sangrentos da história da ditadura no Brasil: o símbolo da arbitrariedade e da cassação dos direitos civis e sociais mais básicos e a institucionalização da censura, da tortura e dos assassinatos. A partir do AI-5, também, ficou impossível para as esquerdas organizarem seus movimentos de massa.

“O AI-5 foi um instrumento legal que deu ao presidente amplos poderes por tempo indefinido, ao contrário dos atos institucionais anteriores que vigoraram com previsão para acabar. Quando foi editado, ninguém podia imaginar que só deixaria de existir em 1º de janeiro de 1979, quando o país já vivia uma conjuntura muito diversa. “

Havia, também, uma luta interna no regime para transformar atos ilegais em legais. O governo lutava para transformar em lei seus bárbaros atos, negando, portanto, o caráter ditatorial do regime. Lembro uma vez que uma professora de história me disse “O fim da Ditadura Militar aconteceu para ‘mudar tudo para não mudar nada'” e eu vejo isso acontecer justamente no que tange o Habeas Corpus. Por mais que seja considerado um direito universal – e constitucional – parcelas marginalizadas da população ainda não têm acesso ao direito de ampla defesa. Hoje, a classe trabalhadora tem seus direitos mais básicos revogados.

“Se o governo Médici foi o mais repressor, foi também o que recebeu maior apoio popular. Como compreender isto? Muitos lançam mão do milagre econômico para explicá-lo. O período 1968-1973, exatamente, o momento de maior repressão política, coincidiu com o momento do enorme crescimento da economia brasileira, beneficiando-se de condições no cenário internacional, 6 Nosso século (1960/1980). São Paulo: Abril Cultural, 1980, p. 181. 7 que disponibilizava capitais para investimento e financiamento, superando a crise econômica do modelo tentado, sem êxito, pelo primeiro governo militar. Apesar da concentração de renda que o novo modelo gerou, agravando enormemente as desigualdades regionais e sociais, criou empregos para a população de baixa renda e melhorou consideravelmente o padrão de vida da classe média, desencadeando um rápido e intenso processo de modernização do país. “

Há duas teorias principais que explicam o fenômeno acima mencionado: a) de que os militares se apoiavam no “milagre econômico” para ter o apoio da população e b) havia o total controle dos meios de comunicação. Acredito em uma mistura das duas hipóteses. Vemos no atual governo traços marcantes desse período de barbárie: o que perdura até hoje é o monopólio dos meios de comunicação pela ideologia dominante e a volta de um patriorismo exacerbado nas propagandas políticas.

Nota-se, também, o grande investimento em propaganda política no regime. Foram criados órgãos para regulamentar todo o processo de investimento na formação ideológica do país. A educação pública foi sucateada, criou-se a ideia do bom-estudante, aquele que não se envolve em nenhum movimento estudantil e criou-se, também, massivas propagandas na televisão sobre o milagre brasileiro. Tudo isso armou ideologicamente uma geração inteira. Geração, essa, que hoje pede o retorno do regime militar.

Para exemplificar, recentemente tivemos a chamada Greve dos Caminhoneiros, que foi ambos um locaute e uma greve. Setores desse movimento carregavam faixas pedindo por intervenção militar. Cronologicamente antes disso, nos protestos pelo impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, via-se as elites brasileiras pedindo pela volta da “Revolução” dos militares.

Em uma entrevista para o blog, Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, Professor Titular da Escola de Direito da PUCRS, Doutor em Sociologia pela UFRGS, nos fala um pouco sobre a bandeira da Intervenção Militar que alguns setores do movimento tanto reivindicaram:

C: Há setores do movimento pedindo Intervenção Militar. Quais as implicações disso para a conjuntura atual?

R: A questão da intervenção militar, dessa bandeira que acabou emergindo do movimento, mas que já era levantada por alguns setores, de fato é o mais preocupante, né, nós temos aí a crise de legitimidade do sistema político, temos uma candidatura que claramente acena com uma agenda de retrocesso do ponto de vista democrático, que não considera os valores fundamentais colocados no artigo 5° da constituição dos direitos e garantias individuais como importantes e necessários para a existência da própria democracia, até porque não vê na democracia um valor a ser preservado e que tem obtido um respaldo pelo menos a partir do que aparece nas pesquisas eleitorais que não é pequeno. Então, para essa candidatura, me parece que essa bandeira e essas demandas por uma solução autoritária para a crise que o país enfrenta sai favorecida com isso, porque não me parece que haja por parte hoje dos militares, dos comandantes, do Estado Maior das Forças Armadas nenhuma ideia que vá nessa direção. O exército e as forças armadas nesses 30 anos de democracia adquiriram uma característica muito mais profissionalizada e muito mais vinculada ao funcionamento regular das instituições, nós não temos mais um contexto de Guerra Fria, ou seja, não há mais um inimigo político a ser combatido do ponto de vista do regime político e portanto é uma demanda de fato bastante vazia, não fosse a existência nesse momento de uma candidatura que de alguma forma representa para a população uma saída autoritária, em nome da ordem, em nome de alguma coisa que as pessoas não estão conseguido enxergar na perspectiva democrática. Isso é bastante grave, isso é uma questão que deve realmente preocupar todos aqueles que têm uma visão de democracia como um valor fundamental para o equacionamento dos conflitos e das demandas sociais. Nós temos que nos preocupar porque há um contingente significativo de pessoas no Brasil que por não terem as suas demandas atendidas no contexto democrático, acabam desacreditando da própria democracia. Isso, de fato, é lamentável. Denota nossa incapacidade enquanto sociedade de construir instituições e caminhos adequados para a afirmação de direitos e o fascismo e o discurso autoritário acaba retornando. Ele que é uma presença historicamente marcante na vida brasileira, mas não há, na minha opinião, viabilidade para isso. Temos que apostar que essa crise para que ela seja equacionada e aí de fato haverá um tempo para que isso aconteça mas não há um atalho que não seja a democracia. O pleito de 2018 vai ser de fato um dos mais importantes do período decrático no Brasil para que nós possamos retomar uma capacidade de legitimação do sistema político. Por meio do respaldo eleitoral, nós precisamos enfrentar esse discurso do populismo fascistizante que não tem propostas, que acena apenas com o medo e a insegurança das pessoas tentando dar uma resposta a isso que é uma resposta ineficaz, uma resposta incoerente e irracional mas que encontra respaldo justamente porque as pessoas não vêem outra saída e esse é o desafio que os partidos políticos que têm na democracia o seu valor fundamental precisam enfrentar para que nós possamos ultrapassar essa etapa e voltarmos a ter a esperança de que nós possamos equacionar nossos problemas, enfrentar nossas diferenças e que possamos enfrentar nossas grandes mazelas nacionais, especialmente a mazela da desigualdade social por meio da constituição de instituições democráticas.

Bibliografia:

http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/A_ditadura_civil_militar_em_tempo_de_radicalizacao_e_babarie.pdf

http://www.scielo.br/pdf/%0D/pe/v6n2/v6n2a03.pdf

https://core.ac.uk/download/pdf/16028855.pdf

Ser Mulher; texto de Annelise Pacheco.

 

Estar as 3 da manhã tremendo de raiva, com sensação de angústia ao lembrar que sou refém do meu próprio corpo e da sociedade capitalista que rouba minhas reais escolhas e me faz ter que seguir um roteiro que é minha única opção possível pois “ai de mim” sugerir edições. É ser jogada num mar de dor, culpa e angústia pois minha biologia não tem espaço nesse mundo porque vincularam minha vagina e meu útero a um gênero que apelidamos mulher e, esse gênero ao ser forjado, serviu para prender a mim e minhas companheiras a esses papéis que temos que cumprir conforme todos esperam que aconteça pois a “ordem natural das coisas é assim e não se discute”.

Raiva é o que me define. Dor me define. Aflição. Medo. Impotência. Gostaria de saber quem (e aqui me refiro aos homens, é claro) teria coragem de aguentar ser mulher se esse combo trouxesse junto da feminilidade o útero e todos os hormônios que entram em colapso durante TODA NOSSA VIDA, pois a cada mês, nosso corpo se prepara pra trazer uma nova vida e esse “berço” se desfaz todo mês e depois de dias ele se refaz e se desfaz e se refaz e se desfaz… Mas isso é óbvio né, todos estudamos biologia, todos sabemos disso e tua reclamação não faz sentido nesse mundo que não é teu. Por que eu tenho a “impressão” que preciso me adaptar ao mundo? Respondo… Pois ele não foi feito pra mim, nunca se considerou que a mulher é um tipo diferente de ser humano (rs), na verdade, nem humana a mulher é, não é mesmo? Somos um sentimento ambulante, um mistério a ser descoberto, uma experiência de vida que não conta. Ser mulher é sofrer. Todo mês. A vida toda (quando tem “sorte” de nascer). Quando criança te arrancam a infância. Nos casos mais brandos, te restringem as brincadeiras e te impõem responsabilidades de menina, quando agressivo, é através do teu sexo.Quando jovem, castram teus sonhos e limitam tuas possibilidades, te ensinam o medo. Na passagem pra vida adulta, através da maternidade, impõem que tu te anule em prol daquela nova vida e desmoralizam aquelas (raras) que não conseguem (pois tentam) viver negando sua existência. Na velhice, te abandonam e te enxergam agora como um adorno, uma coisa querida e fofa ou descartável mesmo, e a cegueira diante da humanidade da mulher permanece. Eu gostaria de gostar de ser mulher mas não posso, já vivi tempo de mais nesse corpo pra entender que eu não faço parte desse mundo e que ele não foi feito pra mim. A minha permanência só se dá por conta da teimosia e da submissão. Se sentir mulher é saber que, várias vezes durante sua vida, você vai chegar ao limite de perder a sanidade, de chegar no ponto inicial da loucura mas NÃO PODER dar o passo seguinte, pra perda da sanidade, pois te ensinaram a ser forte, paciente, estar disponível para cuidar e esse egoísmo não te é permitido. Gostaria que você soubesse como me sinto, Presa por uma invenção do homem que soube vincular minha biologia à sua vontade e necessidade para construir esse mundo, a sua imagem e semelhança, pensado de forma que atendesse sua própria demanda e me excluísse como pessoa e, até hoje (com tanto avanço e tal rs) me fazer sentir desconfortável dentro do meu próprio corpo, na minha própria casca. Eu não escolhi ser mulher, eu não pedi pra ser mulher, eu me tornei mulher no momento que permitiram que eu vivesse, no momento que furaram minhas orelhas e me diferenciaram dos humanos com uma fita rosa na cabeça. Eu quero acreditar em um mundo que as mulheres possam ser livres dessas amarras que as impedem de viver uma vida confortável dentro desse corpo. Eu quero que nós possamos experimentar a sensação de não ser como uma coisa estranha nesse mundo. Quero mesmo que um dia nossa biologia não seja mais uma barreira pra nenhum caminho que almejemos seguir. Quero abolir essas amarras chamadas gênero e sociedade patriarcal, quero que as mulheres percebam-se como classe subordinada e que possamos assim organizar uma resistência contra esse roteiro que nos faz sentir inadequadas a este mundo. Mulheres, falta-nos raiva.

microsegundo

 

-Tu, não sabe nada. – Falou o velho branco, privilegiado desde sempre, em meio ao burburinho das outras conversas ressoantes e tumultuadas na cozinha.
Ele falou. E falou baixo e rápido demais.
Falou entre dentes para mim e de forma imperceptível a todos. Num lapso de murmúrio. Emitindo pela língua o pensamento que escapuliu através dos lábios grogues pela bebida e cigarro impregnados em seu cérebro.
Falou e achou que eu não o tivesse escutado. Então, seguiu sorvendo seu vinho, fumando e fumando; navegando entre o burburinho de vozes, risadas e fumaça de cigarro.
Eu não tive a certeza de tê-lo escutado falar. Fiquei meio entorpecida e meio eufórica pelas falas ressoantes e pelo meu pensamento em fluxo; estimulado pelos temas das conversas, em meio às risadas.
Mas eu havia escutado. Ele havia falado. Meu inconsciente não pôde afogar aquilo. E essa sua fala ficou ecoando e incomodando através dos dias. Porque eu sabia o porquê dela. Eu sabia exatamente porque ele a emitiu…
Essa sentença, murmurada disfarçadamente, trouxe em si mesma um arcabouço antigo, mas já conhecido por mim. Ela recendeu, por um microssegundo, a um ódio misógino e a um racismo que, embora sutis, sempre foram persistentes dentro de nosso convívio.
Ódio misógino e racismo insinuados por silêncios condescendentes; repuxos impacientes do canto direito da sua boca; por olhares apiedados e por seus falares ácidos, ao longo de todos esses anos. Também pela insatisfação, sempre manifesta por ele, ao cabelo azul de minha menina amada e pela reprovação debochada, de sua parte, aos dreadlocks de meu querido e jovem Xangô. Aquele que ama e ousa ser negro, ao contrário de tudo o que ele almejava.
Não. Eu não sei nada. Mas eu sou alguém.
Eu sou a pessoa que está disposta a ouvir, a aprender e a compartilhar. A pessoa que nunca pretendeu assenhorear-se de conhecimento, como quem se declara dono de um latifúndio exclusivo, egoísta e arrogante.
Eu sou a pessoa que tem aprendido coisas recentemente. Coisas de minha história afro- indígena brasileira, coisas de histórias das mulheres, coisas da história negra e da Afrika. Coisas da ciência física e da astronomia que, embora não representem algo novo; para mim são novos territórios, novos desbravamentos e me dão o prazer de me fascinar com o mundo e comigo mesma.
Talvez isso seja perturbador e suscite desprezo da parte de quem nunca foi habituado à fala segura e crítica vinda de uma mulher negra. A quem sempre foi habituado a infantilizar as mulheres e a classificá-las, segundo um ranking nojento; entre burras, dóceis, feias, bonitas, magras, gordas, loucas, subversivas, jovens ou velhas.
Talvez a presença dominante de uma mulher negra seja perturbadora para quem sempre se julgou protagonista de uma história do “mundo”. De uma história consagrada, correta, certa, implacável, determinante, branca, masculina e única.
Eu não quero me apropriar de conhecimento e nem fechá-lo dentro de um círculo exclusivo, determinado por quem tem pele pálida, patrimônio e um pênis.
Não me interesso por ser apontada como a sumidade, a inteligente categorizada com o QI mais elevado; nem com os títulos acadêmicos; nem com os prêmios.
Não quero a bajulação de um segmento que roubou o conhecimento do meu e de outros povos. E que, ainda por cima, conspirou para o apagamento e para a destruição de culturas e línguas. Destruição de modos absolutamente mágicos de construir o pensamento artístico e religioso.
Não quero dar trela para quem conduziu o apagamento e a destruição de cosmovisões riquíssimas ancestrais, geradas no sagrado território do berço da humanidade.
Não. Não quero a aprovação e nem quero ser laureada através dos valores dos genocidas eternizados nos monumentos e nas estátuas equestres que eles santificaram.
Quero sim escutar a voz das Mulheres da Via Campesina, das Yiás e Yiabás como a Mãe Vera Soares. Quero ler e quero alfabetizar. Quero acolher, caminhar, proteger, admirar a beleza e as cores.
Sei que nada sei e fiquei conjecturando: O que ele sabe? O que ele SEMPRE soube e escondeu?
Esta última, uma pergunta capciosa…
E em que esse seu conhecimento todo auxiliou para melhorar a vida emocional dos seus filhos e filha?
Em que momento o conhecimento dele libertou um sonho, pediu perdão, lastreou alicerces para construir cidadania e valores para além do seu círculo de pessoas de bem tão misóginas, racistas e homofóbicas quanto ele?
O que ele sabe de mim, de minha vida e preocupações? O que ele sabe de nossas lutas ou da força que nos move?
O que ele sabe?
Rotular pessoas? Julgar as boas ou as más mães? Apontar fraquezas dos outros, como se sua vida fosse um perfeito exemplo de ótima conduta e plena de realizações?
Ele sabe muito bem e isso já testemunhei; humilhar pessoas quando lhe pedem ajuda por desconhecer um termo ou uma palavra mais rebuscada ou quando recorrem a ele buscando aconselhamento sobre o melhor modo de realizar um pequeno concerto doméstico.
Sabe ser arrogante e debochado, a ponto de não aceitar uma informação que desconhecia, porque era EU quem a estava lhe trazendo, aprendida por mim através de uma mulher nordestina. Informação que eu sabia perfeitamente que ele não buscaria confirmar, se eu não tivesse atenção em dizer que sua fonte era um homem alemão, o marido desta mesma mulher…

É. Deve ser difícil olhar à volta e perceber que seu parâmetro para o que define riqueza e sucesso; não define mais nada. Que importa cada vez menos na cabeça de quem faz o mundo no agora. Que o seu legado de intolerância, homofobia, racismo e misoginia interessam cada vez menos. É cada vez mais silenciado. Evitado. Que causa vergonha alheia.

Estou cansada desse tipo de jogo que se funda em estereótipos para valorizar ou desvalorizar seres humanos. Cansada das pessoas dessa cidade, a maioria delas parasitárias, arrogantes e achando que merecem mais do que os outros, porque se julgam melhores do que os outros, baseadas em critérios desse tipo.
Não sei nada. Mas estou aprendendo a viver melhor. Não porque eu precise da aprovação ou do respeito de pessoas como ele. Não mais. Mas porque acredito, cada vez mais, que conhecimento e vida são movimento e compartilhamento. Coletividade; microcosmo, imensidão.
Pronto. Falei.

por Angela Maria Lopes Kerber

Revolução Mulher.

Os maiores índices de pobreza no planeta são formados por contingentes de mulheres. Existe uma FEMINILIZAÇÃO da pobreza. E vemos isso a cada dia dentro do cenário de países atingidos por guerras, em que mulheres são alvo da forma de violência mais sórdida praticada, da parte de brigadas de soldados e de invasores.

Nesses casos mães são sempre as que permanecem ao lado de seus filhos pequenos em regiões conflagradas, ao contrário de homens que as abandonam e a suas famílias, ou que morrem em conflitos diretos nessas guerras.

Vemos essa feminilização da pobreza também na exploração econômica de recursos naturais nos países sul americanos e africanos, que levam à destruição de culturas locais, à desagregação familiar favorecendo surgimento do mercado de exploração sexual de meninas e de mulheres. Quadro muito conhecido a exemplo de regiões de garimpo e de áreas de instalação de grandes barragens no Brasil.

Há ainda por cima, a pobreza, com a violência direcionada à mulher negra de comunidades de periferia que ocorre também, na forma de salários mais baixos, na falta de acessibilidade urbana, no desemprego, na violência policial aberta contra nossos filhos. No racismo e na humilhação.
Importante pontuar que pobreza é uma forma de violência.

Por tudo isso é muito importante que mulheres se vejam como uma categoria com muito a perder frente os cenários cada vez mais conflagrados e mortíferos, desencadeados pela agenda neoliberalista. Que reconheçam a si mesmas. Que questionem fortemente a configuração desses mundos caóticos, ensurdecidos a nossas dores, buscando ver a si mesmas na imagem e na força de nossas mães yabás ancestrais; nossa força espiritual primordial. Em guerreiras como Acotirene, Luiza Mahin e nas rainhas Candace etíopes.

Saber que sem as trabalhadoras, mães, artistas, cientistas, professoras… não se viabiliza a porcaria da sociedade contemporânea.

Se hoje mesmo todas as mulheres do mundo todo resolvessem parar; o mundo deles entraria em um belo colapso.

Mas nossa capacidade produtiva vai muito além de uma mera questão de economia. O sistema imperialista, alicerçado no patriarcado e no racismo, sabe de nossa força quando nos posicionamos e lutamos por nossos direitos, quando atingimos altos escalões de empresas e começamos a desempenhar um papel significativo na política dos países. Assim, utilizam mecanismos como a publicidade e a propaganda para nos fazer perder tempo e dinheiro buscando uma aparência impossível /inatingível. Recriminam nosso corpo, hipersexualizando-o, adoecendo nosso psicológico. Quantas meninas e mulheres com ódio do próprio corpo? Quantas agora enfrentando depressão? Quantas arriscando suas vidas com medicamentos e com os fármacos envenenados que a indústria deles nos vendem?
Existe uma agenda direcionada às mulheres como forma de impedi-las de dominar seus espaços e direcionar o dinheiro dos países para causas humanas proibindo guerras, indústria bélica e colonização forçada. Exatamente o oposto do que convém ao imperialismo patriarcal assassino. Além disso, mulheres negras vivenciam o flagelo do racismo onde se justificam os lugares e castas sociais. Criando e reforçando o discurso da inferioridade de um ser humano através de seu fenótipo.

O maior poder do sistema patriarcal é o poder de nomear. De dizer quem é e quem não é. Quem pode e quem não pode. Categorizar através da linguagem a rica, a puta, a mãe de família. Instaurar o discurso de inferioridade e de superioridade. Nós mulheres precisamos retomar esse poder. Deixar de acreditar nos rótulos que a sociedade machista nos impõe e que faz com que nos coloquemos umas contra as outras. Precisamos usar nossa intuição; deixar de ser manipuladas pela indústria, pelos padrões de beleza eurocêntricos. Vamos nos ouvir mais entre nós e acreditar em nossa palavra. Votar e eleger mulheres. Ensinar a outras mulheres. Voltar a estudar a obra de mulheres negras, escutar nossas irmãs anônimas; da área da saúde; mulheres quilombolas, indígenas, professoras, militantes.
Precisamos e devemos encontrar nossa força de resistência em nós mesmas e em outras mulheres.
Quando saímos da periferia e ocupamos espaços de nossa cidade,quando fazemos rap e grafite, quando ensinamos e aprendemos com outra mulheres, há uma mudança ativa direta que mexe com a vida de todas as pessoas. E isso vai ser sempre assim, a partir de agora, porque todas as outras portas ruíram atrás de nós e as escolhas são cada vez mais restritas. Não temos mais volta.

Bora lá construir juntas nossa resistência junto com a nossa felicidade, gurias!

por Angela Kerber.

O Perdão que nunca chega

O perdão é sobre muitas coisas. A primeira face do perdão é o esquecimento. Se eu morresse hoje, talvez eu encontraria uma face do perdão. Pois eu não me lembraria mais, nem de quem eu fui, nem da minha história, nem de quem ele foi pra mim. Eu só sentiria alguma coisa, mas eu não me lembraria. Então acho que essa primeira face do perdão tem a ver com a morte. Quando a gente pensa em pessoas que adoecem, pais, mães que a gente tem um rancor muito forte, a gente pensa no perdão. É bem mais fácil perdoar pessoas mortas ou que estão morrendo, porque elas não estão vivas fazendo coisas que podem te machucar de novo. Então perdoar em vida é algo difícil. Talvez a primeira coisa que eu aprendi tentando lembrar da  história do meu namoro abusivo é que de certa forma não adianta nada contar sobre ele. Eu posso escrever tudo que eu lembro. A partir daí, as pessoas podem lembrar das próprias dores e se identificar, ou podem negar e dizer que não aconteceu. Vale mesmo a pena? – eu me pergunto. Talvez não. Todas as vezes que eu achei que tinha perdoado se basearam no esquecimento. Esqueci como se eu tivesse morrido e a pessoa que vive hoje é outra. Mas eu não sou outra pessoa, eu sou a mesma. E se no meu relacionamento atual eu ainda tenho medo de que as coisas do relacionamento abusivo voltem a acontecer, então eu não perdoei.

 

Se eu ainda me sinto mal quando eu olho aquela pessoa se dar bem, ou quando eu olho o quanto aquele grupo de amigos antigo ainda defendem ele, eu sei que eu ainda não perdoei. Acho que a segunda face do perdão é a morte do ego. E eu fico pensando… eu estar certa nesta história, ou ter sido vítima… tudo isso sou eu? Realmente sou eu? Se eu morresse, essa história seria minha? Eu seria aquela pessoa, aquela mulher que foi a vítima? Ou talvez, se ninguém nunca soubesse que isso aconteceu, então… isso ainda faria parte da minha história? Eu, minha adolescência, sem ela eu não seria quem eu sou, sem ter tido esse relacionamento, eu poderia não entender outras mulheres como eu entendo agora, faz parte de mim, ao mesmo tempo minha alma continua intacta. E meu corpo…

 

O esquecimento e o ego estão todos na cabeça, mas chega num ponto em que o perdão está só no corpo. A gente sente que não perdoou totalmente quando nosso corpo fala. Pesa. E nosso corpo mostra que a gente ainda está grudado nas ações daquela pessoa. O perdão nunca chega pois nosso corpo foi uma das principais coisas que sofreram. Se eu pensar nas humilhações, bom, minha mente já consegue se esquecer de como elas foram, mas meu corpo não. O corpo que apanhou, que tomou cusparadas, que foi machucado, invadido, ele é o mesmo. Não tem como mudar o meu corpo. Tem como mudar minha mente, tem como mudar de ideia… Mas o corpo continua o mesmo. Pensando nisso, o perdão vem pelo corpo. E o corpo é só seu, não da outra pessoa que fez o que fez contigo. Se o perdão no corpo só acontece em ti, então é você que tem que perdoar as coisas que você deixou que acontecesse com seu corpo. Por qualquer motivo que seja. Se for pensar, foi sua mente que lhe condicionou a estar em um lugar em que seu corpo era maltratado. Por isso, a terceira face do perdão e talvez a mais importante é o autoperdão.

 

O perdão nunca chega porque é algo constante. Chega, de chegar e acabar. Ele nunca chega, nem acaba.

Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva

Hoje, depois de tanto tempo ausente, publico algumas poucas notas sobre uma das obras mais sensacionais que eu já tive o prazer de ler: “Calibã e a Bruxa”.

“O mundo deverá sofrer uma grande sacudida. Acontecerá uma situação tal que os ímpios serão expulsos dos seus lugares e os oprimidos se levantarão.” Thomas Müntzer.

“Não se pode negar que, depois de séculos de luta, a exploração continua existindo Somente sua forma mudou. O “mais-trabalho” extraído aqui e ali pelos atuais senhores do mundo não é menor, em proporção, à quantidade total de trabalho que o mais-trabalho que se extraía há muito tempo. Porém, a mudança nas condições de exploração não é insignificante {…} o que importa é a história, a luta por libertação.” Pierre Dockes.

Aqui, se debate justamente o que já publiquei anos anteriores nesse mesmo blog: as acadêmicas feministas traçam um estudo sobre o assassinato em massa de mulheres na era medieval e como o surgimento do capitalismo coincide com isso. Segundo o livro, essa “coincidência” se dá justamente para destruir o controle reprodutivo que as mulheres tinham sobre o próprio corpo.

A autora se esforça para esboçar  um esquema que explica a relação da caça às bruxas com o desenvolvimento contemporâneo das relações entre trabalho mais-valia e trabalho reprodutivo o confinamento das mulheres a este último.

Hoje, reivindicar-se feiticeira e praticar feitiçaria é reivindicar nossas raízes. Uma época que já fomos mais donas de nós.

Não darei spoilers, quem conseguir ler, leia :)

Moradia X Propriedade: as normas administrativas prevalecem sobre o direito à moradia

foto: Luiz Damasceno

A noite de quarta-feira, 14 de junho, foi um marco nos processos de luta da cidade de Porto Alegre: ocorreu a reintegração de posse da Ocupação Lanceiros Negros, localizada no centro da cidade, esquina com as Avenidas General Câmara e Andrade Neves.
Eu gostaria de abrir esse espaço no blog (que há tempos está sem publicações, peço perdão pela rotina pesada) para debatermos um pouquinho a história da Ocupação e as questões inconstitucionais que permearam todo o processo de reintegração. Talvez, assim, o senso comum não crucifique tanto as famílias desabrigadas, afinal, é cara a sanção para o crime de ser pobre.
No início do ano de 2015, em uma assembléia do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB – RS) no Morro da Cruz, decidimos que naquele mesmo ano faríamos nossa primeira Ocupação no Rio Grande do Sul. O movimento possuía vasta experiência na área pelo Brasil inteiro, porém, ainda no RS, era relativamente novo. O ano inteiro foi de muito trabalho e muita organização. Noites mal dormidas (ou totalmente em claro) planejando, pesquisando, estudando, conversando com as famílias nos bairros, vilas e favelas da cidade de Porto Alegre e Região Metropolitana. Mulheres, crianças, idosos e deficientes em situação de vulnerabilidade reuniam-se uma vez por semana para iniciarmos um processo de luta por moradia digna e acesso à cidade. Afinal, essas pessoas não tinham acesso à saúde, educação ou cultura, quanto menos segurança.

Na madrugada do dia 24 de novembro nasce a Ocupação Lanceiros Negros, nome escolhido para homenagear o massacre de porongos 150 anos antes. A Ocupação resistiu por quase dois anos (de muito trabalho).
Um prédio do ministério Público que estava vazio e jogado aos ratos virou um centro pulsante de vida. Inúmeras atividades ocorriam todos os dias, as crianças tinham as 4 refeições diárias orientadas por uma nutricionista (importante salientar que maioria das crianças viviam abaixo da linha da pobreza), estavam indo a creche, os adolescentes estavam freqüentando escolas bem melhores no centro, a vida de todos havia melhorado. Abrimos as portas, também, para a população indígena.
Tudo isso gerou e ainda gera indignação por uma boa parcela da sociedade. Parcela, essa, que acredita que o lugar do pobre é nos espaços marginalizados da cidade e não ocupando o seu centro e freqüentando seus cinemas. Apenas isso geraria (e gera ainda) infindáveis discussões. Quero passar para uma análise constitucional de todos os fatos, talvez essa (e não todo o apelo ao coração) convença alguns e algumas do trabalho que era realizado lá (e que continuará sendo em outros espaços).
A moradia digna, a partir da Constituição de 88, configura um “direito inerente à personalidade humana”. Quando este direito é violado, acarreta a violação de uma sequência de outros direitos que visam assegurar a dignidade da pessoa humana. A Constituição de 88 tentou abarcar um leque gigantesco de direitos fundamentais – grande parte destes jogados às favas nos anos de chumbo.
Observemos o Artigo 1°, parágrafo único: todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta constituição.
É um direito constitucional o de lutar por uma vida melhor.
Artigo 3° Objetivos Fundamentais
Inciso III – Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.
É sabido que o Rio Grande do Sul possui um dos maiores déficits habitacionais do país, com um número acima de 250 mil unidades.  A moradia, não sendo um “direito absoluto”, tende a sofrer minimização por parte do Estado, visto que passa por questões de investimento (questão, essa, de extremo cunho político-ideológico).
Já no Artigo 5°, Inciso XXII e XIII: é garantido o direito de propriedade e a propriedade atenderá sua função social.

Percebe-se uma certa contradição entre os dois incisos, quase uma dicotomia entre Moradia X Propriedade. O que diz no “Estatuto das Cidades” é que os imóveis precisam cumprir sua função social, coisa que o prédio abandonado há mais de 12 anos não cumpria. Precisou que o próprio povo, diretamente (como diz ali no Artigo 1°), exercesse o seu poder. Vemos, ainda, que as normas administrativas (vide a sentença esdrúxula da juíza que permitiu a reintegração da Ocupação Lanceiros Negros) ainda se sobrepõe as de cunho social.

“Bandido” é o Estado que não garante sua própria Constituição.

Encerro essa rápida reflexão com uma citação de Friederich Engels, em seu “Sobre a questão da moradia”:
“Está claro como a luz do sol que o Estado atual não pode nem sequer remediar o flagelo da falta de moradias. O Estado nada mais é que a totalidade do poder organizado das classes possuidoras, dos proprietários de terras e dos capitalistas em confronto com as classes espoliadas, os agricultores e os trabalhadores. O que não querem os capitalistas individuais tampouco quer o seu Estado. Portanto, embora individualmente o capitalista lamente a escassez de moradia, dificilmente mexerá um dedo para dissimular mesmo que superficialmente suas conseqüências mais terríveis, e o capitalista global, o Estado, também, não fará mais do que isso. Quando muito, tomará providências para o grau de dissimilação superficial que se tornou usual seja aplicado em toda a parte do mesmo modo. Vimos que é exatamente isso que ocorre.”
Os apoiadores e os moradores das Ocupações não são vagabundos que querem viver à custa do Estado. São lutadores que entendem que o Estado dentro do sistema capitalista de produção não é suficiente em lhes fornecer aquilo que é mais básico, aquilo que é o mínimo para sua dignidade: um teto sobre suas cabeças.

Deep Green Resistence: Liberais vs Radicais

No início da minha militância feminista, não tive acesso a Beauvoir, Keith, Lorde, Davis ou Dworkin (pra citar apenas três mulheres fantásticas que teorizaram sobre uns pilares muito importantes da luta pela liberação das mulheres). Sendo assim, não problematizava muito meus alinhamentos políticos. Os casos que me chegam aos ouvidos são quase sempre os mesmos: “Comecei no liberal.”

Mas no quê, exatamente, se pauta o feminismo liberal e a luta dos liberais?

Lierre Keith, escritora americana, feminista e ambientalista radical, fala pelo vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=YkXrS0NnQM0) da Deep Green Resistence sobre as principais diferenças entre as pautas liberais e as radicais.

Faço aqui, então, uma quase transcrição – com algumas notas pessoais – do material de Keith.

Liberal VS Radical

São posições que tendem a tencionar, já que são paralelos.

O ponto principal do liberal é o individualismo (o que é muito diferente de individualidade); os liberais acreditam que a sociedade é feita de indivíduos. De fato, o individualismo e sua subjetividade são tão sagrados que se dizer e se identificar como parte de um grupo é visto como um insulto, uma afronta.

O que é totalmente diferente do radical: a sociedade não é feita de indivíduos, mas de grupos de pessoas. Na versão original de Marx, isso era visto como classe econômica. Essa é a dívida de todos os radicais com Karl Marx, sendo eles marxistas ou não. Essa sacada foi dele: a sociedade é feita de grupos e alguns desses grupos possuem poder sobre os outros.

Como ocorre a mudança política? Tu te identifica com determinado grupo de pessoas, compartilhando uma causa comum com tua condição.

Outra grande divisão é no que concerne a realidade social. Os liberais são idealistas. A realidade social, para eles, é feita de atitudes, de ideias, é um fenômeno mental.

Do lado dos radicais, o materialismo, em oposição, opera da seguinte maneira: a sociedade é organizada por um sistema concreto de poder; não por ideias ou pensamentos, mas por instituições materiais; e a solução para opressão seria desmantelar esse sistema tijolo por tijolo.

“Então, os liberais vão dizer: “Nós temos que educar, educar. educar.” e os radicais vão dizer: “Na verdade, nós temos que pará-los.”

É claro que os radicais acreditam na educação e na mudança de pensamento, mas isso sozinho não faz revolução, não muda a realidade social.  Porque o mundo não é um estado interno, não é um estado mental. O ponto da educação é construir um movimento que possa derrubar essas estruturas opressivas.

“Se tu remover o poder da equação, a opressão vai parecer ou voluntária, ou natural. Se tu não souber que as pessoas são formadas por essas condições sociais, como explicaria a subordinação?

“Ou essas pessoas não são humanas – então são naturalmente diferente de nós – por isso são subordinadas ou, de alguma maneiras, são voluntárias da subordinação. São essas as opções que ficam. Por exemplo: raça e gênero são vistos como biológicos. Eles deveriam ser fisicamente reais, não é mesmo? Bom, eles não são, eles são politicamente reais, ok? É a subordinação brutal e visceral que cria essas coisas. A ideologia afirma que são biológicos.” L. K.

Claro que há diferenças óbvias entre brasileiros e australianos, mas essas diferenças só são importantes porque o poder precisa que assim o façam, de alguma maneira.

Se tu não analisar pelo ponto de vista da biologia, resta o voluntarismo. E isso é algo que os liberais não entendem.” L.K.

“Não pode haver nenhum sistema generalizado de opressão sem o consentimento do oprimido.”

Florynce Kennedy

Significa que os poderosos – os capitalistas, os masculinistas, os supremacistas brancos, quem quer que seja – não suportariam um vasto número de pessoas armadas 24h. Para sua sorte, eles não precisam.

90% de qualquer opressão é consensual (e consensualismo é algo que radicais discutem com frequência). Isso não significa que é nossa culpa, ou que nós somos responsáveis por isso. As pessoas toleram a opressão usando três mecanismos psicológicos: negação, acomodação e consentimento.

Todos que vivem sob dominação aprendem cedo na vida que precisam viver de acordo com as regras, andar na linha, ou sofrerão as consequências. E essas consequências só precisam ser aplicadas de vez em quando para serem efetivas. A partir desse ponto, a psiqué traumatizada policiará a si mesma.

Há um ditado no Battered Woman’s Movement que diz: “Uma agressão por ano manterá uma mulher calada.” Então, de vez em quando já é o bastante.

Qualquer sinal de resistência gera um continuum que começa com o desprezo social, atravessa todo o espectro da violência, até culminar em assassinato. É assim que opressão funciona, no final das contas, nós acabamos consentindo. Porém, a resistência pode dar um jeito de acontecer, as pessoas vão insistir na sua humanidade.

A diferença final entre liberais e radicais é a abordagem à justiça. Para os liberais, o poder é invisível. Com isso, a justiça é alcançada por meio de adesão a esses princípios morais que são abstratos. Para os radicais, a justiça não pode ser cega. A dominação só será desmantelada tirando os direitos dos poderosos e redistribuindo para o resto de nós. Então, precisamos nomear o mal e pensar numa compensação específica para poder aplicá-la. Deixando a justiça cega, apenas servimos de mantenedores de opressões e poderes já instaurados.

Um exemplo que Kieth traz no segundo vídeo é de um caso de uma denúncia de discriminação sexual. Foi uma ação em massa contra um estabelecimento movida por mulheres que não estavam conseguindo promoções, licença maternidade e etc. Elas perderam, já que a constituição serve aos homens brancos heterossexuais, e uma das alegações do juiz – no caso um juiz federal – foi a seguinte: “Isso não é um caso de discriminação contra as mulheres porque se os homens ficassem grávidos eles também não teriam licença maternidade.” Não há princípio mais abstrato que isso!

Cito, aqui, Marilyn Frye (leitura super recomendada, incrível) em Políticas da Realidade:

“Opressão é um sistema de forças e barreiras inter-relacionadas que reduz, imobiliza e molda pessoas que pertencem a um certo grupo e efetiva sua subordinação a outro grupo.”

Opressão não é uma atitude, é um sistema de poder.

A frase acima é radicalismo puro traduzido numa citação coerente e bem elaborada. Uma analogia interessante é a do pássaro dentro da gaiola: se tu é adepto da ideologia liberal, tu vai ver as barras da gaiola como barras separadas, aleatórias. Se tu é radical, as barras estarão inter-conectadas, elas serão um conjunto.

Espero que essa pequena contribuição possa servir, o texto ainda está em construção :)

O violino na sala

Mesmo no bonito pizzicato do violino que vinha da sala ao lado, a única palavra que ecoa na mente é suicídio. Assim mesmo, a palavra escrita e crua, como um letreiro ou algo cravado com as agulhas para tatuagem. Não é algo que se possa apagar com facilidade. Não é algo que saia dali. Colocar a palavra de lado também não é uma possibilidade, mesmo o dicionário sendo tão grande e tão vasto e tendo tantas línguas na bagagem. Suicide. Suicídio. Suicidio. Francês, Inglês, Português e Espanhol. Praticamente mesma escrita, praticamente a mesma fonética. Mas como os pensamentos chegaram até aqui? Não sabia. Sabia, porém, que a graduação em Letras não a tinha preparado pra escrever bons contos. Sequer conseguia discorrer para a psiquiatra como gostaria de morrer ou porquê. Ela apenas gostaria. É como estar jogada no deserto há dias sem água ou comida e de repente surgir um copo de água com gelo. O desejo da água é tão intenso, tão poderoso, porém a força pra chegar até ela é quase inexistente. É como uma mulher bonita no bar, de acordo com Bukowski – que ela odiava, aliás, mas precisava concordar com aquele velho bêbado. O suicídio é como uma mulher bonita no bar, queremos, porém não conseguimos. Ela se identifica com a dor, cuja companhia foi a única que sobrou depois de tantas recaídas e de tanto isolamento. Só sobrou a dor e a angústia. Vocês já tentaram levantar de manhã com um elefante sentado no peito de vocês? É assim que ela se sentia todos os dias. Abrir os olhos era abrir os olhos pra dentro da alma e ver ali o cinza. As cores já não existiam há muito tempo, ela nem acreditava ser capaz de vê-las novamente. Respira. Coloca os pés no chão. O toque do chão gelado percorria o corpo todo. Os sentidos estavam todos muito aguçados, tudo a incomodava exponencialmente. Ela sentia que ia quebrar, quase quebrava, mas levantava. Havia dois núcleos lutando incessantemente um contra o outro como dois gladiadores. O núcleo que queria o descanso e o núcleo que queria continuar. E a palavra é continuar mesmo, viver é uma exigência que ela não fazia pra si. Ela já não sabia como era isso, viver. Um conceito tão distante da realidade e tão difícil de conceber. Como as pessoas viviam? Ela não entendia. Ela já não entendia muita coisa, tinha apenas aceitado que o cinza ia permanecer e tentava manter o núcleo que queria continuar, vencendo. Ela sabia que quando o núcleo que queria continuar já não tivesse mais força, coragem ou determinação (determinação? É uma palavra aplicável, aqui?) teria problemas. Mesmo com o pizzicato bonito do violino que vinha da sala, lembrando-a os dias em que ela mesma tocava aquele violino e achava difícil puxar as cordas e acertar a afinção, a única palavra que ecoava nela era suicídio. Maldito Bukowski. Malditas cores.

Relatos da depressão – sobre o elefante branco no meio da sala

Esta última recaída foi uma das mais difíceis desde o quadro depressivo agudo que eu tive em 2014.

Como uma forma de manter minha comunicação com o mundo exterior, lancei uma série alguns relatos no Facebook que renderam muitos comentários, amor, compartilhamentos e mensagens inbox de superação e até mesmo pedidos de ajuda.

Falar abertamente sobre o distúrbio que mata 800 mil pessoas todos os anos é falar abertamente sobre o elefante branco que vive no meio da nossa sala mas todos preferem acreditar que ele não existe. Recebi muitos relatos, muitos agradecimentos de pessoas que se identificaram com meus relatos e sequer sabiam que tinham depressão.

Espero, sempre, ajudar <3

Deixo aqui, então, meus relatos:

 

23 de julho · Canoas ·

 Relatos da depressão que ninguém quer saber mas vou falar mesmo assim:

A depressão é uma doença (sim, doença, bem como cálculo renal ou diabetes) incapacitante. A dor e a agonia são insuportáveis, o menor ato – até pisar no chão – se torna um fardo. Teu corpo fica 10× mais pesado, como se tu carregasse sacos de batatas nas costas. Parece que tu vais quebrar a qualquer momento.

Porém, cada quadro depressivo carrega suas pequenas vitórias: hoje, levei o lixo pra fora ♡

 

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17 de agosto · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão, parte II:

O processo de saída de um quadro depressivo é delicado, muito delicado. O prazer sentido nas atividades antes feitas vai retornando aos pouquinhos, o que nos faz querer abraçar o mundo todo (de novo). Assim, é muito fácil termos dias difíceis (de novo) e isso é frustrante pois parece que o quadro nunca, nunca vai melhorar.

O que eu digo? Paciência. Muita paciência. Vai melhorar, sim. Se alguma atividade pesar, não faça. Ou faça com ajuda. E não se culpe por não conseguir.

Além disso, indico muito suco de laranja e chá de laranja com especiarias (cravo e canela).

Não tem nada que um chá e um suco de laranja não resolva  (e nada que uma revolução socialista também não resolva, já que precisamos transformar a dor em luta, mas isso dá outro post ♡)

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23 de agosto às 20:25 · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão, parte III:

Fui pra academia hoje.

Isso já diz o suficiente.

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Relatos da depressão, parte IV:

O quadro depressivo possui três fases: o início da recaída (agressividade, distúrbio no sono – e por vezes na alimentação -, falta de memória, cognição afetada), a queda mesmo (a fase não-consigo-sair-da-cama) e, na fase da melhora, a oscilação.

Estou na fase de oscilações.

Alguns dias são bons, alguns são péssimos e outros são muito ruins. Tive 4 dias ruins seguidos que eu me fechei tanto que nem com a namorada eu conversava (coitada, pagando o pato).

Hoje acordei muito bem, mas com uma sinusite da porra. Se a mente cala, o corpo grita.

 

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12 de setembro às 14:34 · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão (e ansiedade) parte V:

Hoje temos prova de Penal II: teoria do crime.

Estamos tentando não sair por aí correndo gritando STALIN MATOU FOI POUCO. Até agora, com sucesso. Mas são apenas 14h33.

 

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Relatos da depressão (e ansiedade), parte VI:

Não saímos por aí gritando STALIN MATOU FOI POUCO sem roupa e com olhos esbugalhados.

Mas a ansiedade me deixa com o corpo trêmulo, a voz embargada, me falta o ar e me aperta o peito. Não consigo prestar atenção na aula de Civil (e acho que Teoria das Normas é bem importante). Tou aqui, então, comendo o fini tubes que a mozona me deu (valeu, mozao).

Marx está comigo!

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Relatos da depressão, parte VII:

Eu sobrevivi a uma das piores recaídas que eu já tive (tirando aquela fase suicida lá em 2014 em que, também, sobrevivi a duas tentativas).

Sobrevivi a todo o processo das oscilações, toda dor, toda angústia e toda a agressividade (nem menciono as alucinações).

A maré está favorável por aqui. Os ventinhos frescos que anunciam o fim do inverno fazem só pequenas ondinhas, sem grande caos. Já posso brincar de jogar pedrinhas no lago pra vê-lo balançar. Já se aprochega a fase da calmaria.

Já estou bem ♡

Essa foto é dessa manhã, quando a tempestade já se encaminhava pro alto mar.

 

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