Moradia X Propriedade: as normas administrativas prevalecem sobre o direito à moradia

foto: Luiz Damasceno

A noite de quarta-feira, 14 de junho, foi um marco nos processos de luta da cidade de Porto Alegre: ocorreu a reintegração de posse da Ocupação Lanceiros Negros, localizada no centro da cidade, esquina com as Avenidas General Câmara e Andrade Neves.
Eu gostaria de abrir esse espaço no blog (que há tempos está sem publicações, peço perdão pela rotina pesada) para debatermos um pouquinho a história da Ocupação e as questões inconstitucionais que permearam todo o processo de reintegração. Talvez, assim, o senso comum não crucifique tanto as famílias desabrigadas, afinal, é cara a sanção para o crime de ser pobre.
No início do ano de 2015, em uma assembléia do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB – RS) no Morro da Cruz, decidimos que naquele mesmo ano faríamos nossa primeira Ocupação no Rio Grande do Sul. O movimento possuía vasta experiência na área pelo Brasil inteiro, porém, ainda no RS, era relativamente novo. O ano inteiro foi de muito trabalho e muita organização. Noites mal dormidas (ou totalmente em claro) planejando, pesquisando, estudando, conversando com as famílias nos bairros, vilas e favelas da cidade de Porto Alegre e Região Metropolitana. Mulheres, crianças, idosos e deficientes em situação de vulnerabilidade reuniam-se uma vez por semana para iniciarmos um processo de luta por moradia digna e acesso à cidade. Afinal, essas pessoas não tinham acesso à saúde, educação ou cultura, quanto menos segurança.

Na madrugada do dia 24 de novembro nasce a Ocupação Lanceiros Negros, nome escolhido para homenagear o massacre de porongos 150 anos antes. A Ocupação resistiu por quase dois anos (de muito trabalho).
Um prédio do ministério Público que estava vazio e jogado aos ratos virou um centro pulsante de vida. Inúmeras atividades ocorriam todos os dias, as crianças tinham as 4 refeições diárias orientadas por uma nutricionista (importante salientar que maioria das crianças viviam abaixo da linha da pobreza), estavam indo a creche, os adolescentes estavam freqüentando escolas bem melhores no centro, a vida de todos havia melhorado. Abrimos as portas, também, para a população indígena.
Tudo isso gerou e ainda gera indignação por uma boa parcela da sociedade. Parcela, essa, que acredita que o lugar do pobre é nos espaços marginalizados da cidade e não ocupando o seu centro e freqüentando seus cinemas. Apenas isso geraria (e gera ainda) infindáveis discussões. Quero passar para uma análise constitucional de todos os fatos, talvez essa (e não todo o apelo ao coração) convença alguns e algumas do trabalho que era realizado lá (e que continuará sendo em outros espaços).
A moradia digna, a partir da Constituição de 88, configura um “direito inerente à personalidade humana”. Quando este direito é violado, acarreta a violação de uma sequência de outros direitos que visam assegurar a dignidade da pessoa humana. A Constituição de 88 tentou abarcar um leque gigantesco de direitos fundamentais – grande parte destes jogados às favas nos anos de chumbo.
Observemos o Artigo 1°, parágrafo único: todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta constituição.
É um direito constitucional o de lutar por uma vida melhor.
Artigo 3° Objetivos Fundamentais
Inciso III – Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.
É sabido que o Rio Grande do Sul possui um dos maiores déficits habitacionais do país, com um número acima de 250 mil unidades.  A moradia, não sendo um “direito absoluto”, tende a sofrer minimização por parte do Estado, visto que passa por questões de investimento (questão, essa, de extremo cunho político-ideológico).
Já no Artigo 5°, Inciso XXII e XIII: é garantido o direito de propriedade e a propriedade atenderá sua função social.

Percebe-se uma certa contradição entre os dois incisos, quase uma dicotomia entre Moradia X Propriedade. O que diz no “Estatuto das Cidades” é que os imóveis precisam cumprir sua função social, coisa que o prédio abandonado há mais de 12 anos não cumpria. Precisou que o próprio povo, diretamente (como diz ali no Artigo 1°), exercesse o seu poder. Vemos, ainda, que as normas administrativas (vide a sentença esdrúxula da juíza que permitiu a reintegração da Ocupação Lanceiros Negros) ainda se sobrepõe as de cunho social.

“Bandido” é o Estado que não garante sua própria Constituição.

Encerro essa rápida reflexão com uma citação de Friederich Engels, em seu “Sobre a questão da moradia”:
“Está claro como a luz do sol que o Estado atual não pode nem sequer remediar o flagelo da falta de moradias. O Estado nada mais é que a totalidade do poder organizado das classes possuidoras, dos proprietários de terras e dos capitalistas em confronto com as classes espoliadas, os agricultores e os trabalhadores. O que não querem os capitalistas individuais tampouco quer o seu Estado. Portanto, embora individualmente o capitalista lamente a escassez de moradia, dificilmente mexerá um dedo para dissimular mesmo que superficialmente suas conseqüências mais terríveis, e o capitalista global, o Estado, também, não fará mais do que isso. Quando muito, tomará providências para o grau de dissimilação superficial que se tornou usual seja aplicado em toda a parte do mesmo modo. Vimos que é exatamente isso que ocorre.”
Os apoiadores e os moradores das Ocupações não são vagabundos que querem viver à custa do Estado. São lutadores que entendem que o Estado dentro do sistema capitalista de produção não é suficiente em lhes fornecer aquilo que é mais básico, aquilo que é o mínimo para sua dignidade: um teto sobre suas cabeças.

Deep Green Resistence: Liberais vs Radicais

No início da minha militância feminista, não tive acesso a Beauvoir, Keith, Lorde, Davis ou Dworkin (pra citar apenas três mulheres fantásticas que teorizaram sobre uns pilares muito importantes da luta pela liberação das mulheres). Sendo assim, não problematizava muito meus alinhamentos políticos. Os casos que me chegam aos ouvidos são quase sempre os mesmos: “Comecei no liberal.”

Mas no quê, exatamente, se pauta o feminismo liberal e a luta dos liberais?

Lierre Keith, escritora americana, feminista e ambientalista radical, fala pelo vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=YkXrS0NnQM0) da Deep Green Resistence sobre as principais diferenças entre as pautas liberais e as radicais.

Faço aqui, então, uma quase transcrição – com algumas notas pessoais – do material de Keith.

Liberal VS Radical

São posições que tendem a tencionar, já que são paralelos.

O ponto principal do liberal é o individualismo (o que é muito diferente de individualidade); os liberais acreditam que a sociedade é feita de indivíduos. De fato, o individualismo e sua subjetividade são tão sagrados que se dizer e se identificar como parte de um grupo é visto como um insulto, uma afronta.

O que é totalmente diferente do radical: a sociedade não é feita de indivíduos, mas de grupos de pessoas. Na versão original de Marx, isso era visto como classe econômica. Essa é a dívida de todos os radicais com Karl Marx, sendo eles marxistas ou não. Essa sacada foi dele: a sociedade é feita de grupos e alguns desses grupos possuem poder sobre os outros.

Como ocorre a mudança política? Tu te identifica com determinado grupo de pessoas, compartilhando uma causa comum com tua condição.

Outra grande divisão é no que concerne a realidade social. Os liberais são idealistas. A realidade social, para eles, é feita de atitudes, de ideias, é um fenômeno mental.

Do lado dos radicais, o materialismo, em oposição, opera da seguinte maneira: a sociedade é organizada por um sistema concreto de poder; não por ideias ou pensamentos, mas por instituições materiais; e a solução para opressão seria desmantelar esse sistema tijolo por tijolo.

“Então, os liberais vão dizer: “Nós temos que educar, educar. educar.” e os radicais vão dizer: “Na verdade, nós temos que pará-los.”

É claro que os radicais acreditam na educação e na mudança de pensamento, mas isso sozinho não faz revolução, não muda a realidade social.  Porque o mundo não é um estado interno, não é um estado mental. O ponto da educação é construir um movimento que possa derrubar essas estruturas opressivas.

“Se tu remover o poder da equação, a opressão vai parecer ou voluntária, ou natural. Se tu não souber que as pessoas são formadas por essas condições sociais, como explicaria a subordinação?

“Ou essas pessoas não são humanas – então são naturalmente diferente de nós – por isso são subordinadas ou, de alguma maneiras, são voluntárias da subordinação. São essas as opções que ficam. Por exemplo: raça e gênero são vistos como biológicos. Eles deveriam ser fisicamente reais, não é mesmo? Bom, eles não são, eles são politicamente reais, ok? É a subordinação brutal e visceral que cria essas coisas. A ideologia afirma que são biológicos.” L. K.

Claro que há diferenças óbvias entre brasileiros e australianos, mas essas diferenças só são importantes porque o poder precisa que assim o façam, de alguma maneira.

Se tu não analisar pelo ponto de vista da biologia, resta o voluntarismo. E isso é algo que os liberais não entendem.” L.K.

“Não pode haver nenhum sistema generalizado de opressão sem o consentimento do oprimido.”

Florynce Kennedy

Significa que os poderosos – os capitalistas, os masculinistas, os supremacistas brancos, quem quer que seja – não suportariam um vasto número de pessoas armadas 24h. Para sua sorte, eles não precisam.

90% de qualquer opressão é consensual (e consensualismo é algo que radicais discutem com frequência). Isso não significa que é nossa culpa, ou que nós somos responsáveis por isso. As pessoas toleram a opressão usando três mecanismos psicológicos: negação, acomodação e consentimento.

Todos que vivem sob dominação aprendem cedo na vida que precisam viver de acordo com as regras, andar na linha, ou sofrerão as consequências. E essas consequências só precisam ser aplicadas de vez em quando para serem efetivas. A partir desse ponto, a psiqué traumatizada policiará a si mesma.

Há um ditado no Battered Woman’s Movement que diz: “Uma agressão por ano manterá uma mulher calada.” Então, de vez em quando já é o bastante.

Qualquer sinal de resistência gera um continuum que começa com o desprezo social, atravessa todo o espectro da violência, até culminar em assassinato. É assim que opressão funciona, no final das contas, nós acabamos consentindo. Porém, a resistência pode dar um jeito de acontecer, as pessoas vão insistir na sua humanidade.

A diferença final entre liberais e radicais é a abordagem à justiça. Para os liberais, o poder é invisível. Com isso, a justiça é alcançada por meio de adesão a esses princípios morais que são abstratos. Para os radicais, a justiça não pode ser cega. A dominação só será desmantelada tirando os direitos dos poderosos e redistribuindo para o resto de nós. Então, precisamos nomear o mal e pensar numa compensação específica para poder aplicá-la. Deixando a justiça cega, apenas servimos de mantenedores de opressões e poderes já instaurados.

Um exemplo que Kieth traz no segundo vídeo é de um caso de uma denúncia de discriminação sexual. Foi uma ação em massa contra um estabelecimento movida por mulheres que não estavam conseguindo promoções, licença maternidade e etc. Elas perderam, já que a constituição serve aos homens brancos heterossexuais, e uma das alegações do juiz – no caso um juiz federal – foi a seguinte: “Isso não é um caso de discriminação contra as mulheres porque se os homens ficassem grávidos eles também não teriam licença maternidade.” Não há princípio mais abstrato que isso!

Cito, aqui, Marilyn Frye (leitura super recomendada, incrível) em Políticas da Realidade:

“Opressão é um sistema de forças e barreiras inter-relacionadas que reduz, imobiliza e molda pessoas que pertencem a um certo grupo e efetiva sua subordinação a outro grupo.”

Opressão não é uma atitude, é um sistema de poder.

A frase acima é radicalismo puro traduzido numa citação coerente e bem elaborada. Uma analogia interessante é a do pássaro dentro da gaiola: se tu é adepto da ideologia liberal, tu vai ver as barras da gaiola como barras separadas, aleatórias. Se tu é radical, as barras estarão inter-conectadas, elas serão um conjunto.

Espero que essa pequena contribuição possa servir, o texto ainda está em construção :)

O violino na sala

Mesmo no bonito pizzicato do violino que vinha da sala ao lado, a única palavra que ecoa na mente é suicídio. Assim mesmo, a palavra escrita e crua, como um letreiro ou algo cravado com as agulhas para tatuagem. Não é algo que se possa apagar com facilidade. Não é algo que saia dali. Colocar a palavra de lado também não é uma possibilidade, mesmo o dicionário sendo tão grande e tão vasto e tendo tantas línguas na bagagem. Suicide. Suicídio. Suicidio. Francês, Inglês, Português e Espanhol. Praticamente mesma escrita, praticamente a mesma fonética. Mas como os pensamentos chegaram até aqui? Não sabia. Sabia, porém, que a graduação em Letras não a tinha preparado pra escrever bons contos. Sequer conseguia discorrer para a psiquiatra como gostaria de morrer ou porquê. Ela apenas gostaria. É como estar jogada no deserto há dias sem água ou comida e de repente surgir um copo de água com gelo. O desejo da água é tão intenso, tão poderoso, porém a força pra chegar até ela é quase inexistente. É como uma mulher bonita no bar, de acordo com Bukowski – que ela odiava, aliás, mas precisava concordar com aquele velho bêbado. O suicídio é como uma mulher bonita no bar, queremos, porém não conseguimos. Ela se identifica com a dor, cuja companhia foi a única que sobrou depois de tantas recaídas e de tanto isolamento. Só sobrou a dor e a angústia. Vocês já tentaram levantar de manhã com um elefante sentado no peito de vocês? É assim que ela se sentia todos os dias. Abrir os olhos era abrir os olhos pra dentro da alma e ver ali o cinza. As cores já não existiam há muito tempo, ela nem acreditava ser capaz de vê-las novamente. Respira. Coloca os pés no chão. O toque do chão gelado percorria o corpo todo. Os sentidos estavam todos muito aguçados, tudo a incomodava exponencialmente. Ela sentia que ia quebrar, quase quebrava, mas levantava. Havia dois núcleos lutando incessantemente um contra o outro como dois gladiadores. O núcleo que queria o descanso e o núcleo que queria continuar. E a palavra é continuar mesmo, viver é uma exigência que ela não fazia pra si. Ela já não sabia como era isso, viver. Um conceito tão distante da realidade e tão difícil de conceber. Como as pessoas viviam? Ela não entendia. Ela já não entendia muita coisa, tinha apenas aceitado que o cinza ia permanecer e tentava manter o núcleo que queria continuar, vencendo. Ela sabia que quando o núcleo que queria continuar já não tivesse mais força, coragem ou determinação (determinação? É uma palavra aplicável, aqui?) teria problemas. Mesmo com o pizzicato bonito do violino que vinha da sala, lembrando-a os dias em que ela mesma tocava aquele violino e achava difícil puxar as cordas e acertar a afinção, a única palavra que ecoava nela era suicídio. Maldito Bukowski. Malditas cores.

Relatos da depressão – sobre o elefante branco no meio da sala

Esta última recaída foi uma das mais difíceis desde o quadro depressivo agudo que eu tive em 2014.

Como uma forma de manter minha comunicação com o mundo exterior, lancei uma série alguns relatos no Facebook que renderam muitos comentários, amor, compartilhamentos e mensagens inbox de superação e até mesmo pedidos de ajuda.

Falar abertamente sobre o distúrbio que mata 800 mil pessoas todos os anos é falar abertamente sobre o elefante branco que vive no meio da nossa sala mas todos preferem acreditar que ele não existe. Recebi muitos relatos, muitos agradecimentos de pessoas que se identificaram com meus relatos e sequer sabiam que tinham depressão.

Espero, sempre, ajudar <3

Deixo aqui, então, meus relatos:

 

23 de julho · Canoas ·

 Relatos da depressão que ninguém quer saber mas vou falar mesmo assim:

A depressão é uma doença (sim, doença, bem como cálculo renal ou diabetes) incapacitante. A dor e a agonia são insuportáveis, o menor ato – até pisar no chão – se torna um fardo. Teu corpo fica 10× mais pesado, como se tu carregasse sacos de batatas nas costas. Parece que tu vais quebrar a qualquer momento.

Porém, cada quadro depressivo carrega suas pequenas vitórias: hoje, levei o lixo pra fora ♡

 

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17 de agosto · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão, parte II:

O processo de saída de um quadro depressivo é delicado, muito delicado. O prazer sentido nas atividades antes feitas vai retornando aos pouquinhos, o que nos faz querer abraçar o mundo todo (de novo). Assim, é muito fácil termos dias difíceis (de novo) e isso é frustrante pois parece que o quadro nunca, nunca vai melhorar.

O que eu digo? Paciência. Muita paciência. Vai melhorar, sim. Se alguma atividade pesar, não faça. Ou faça com ajuda. E não se culpe por não conseguir.

Além disso, indico muito suco de laranja e chá de laranja com especiarias (cravo e canela).

Não tem nada que um chá e um suco de laranja não resolva  (e nada que uma revolução socialista também não resolva, já que precisamos transformar a dor em luta, mas isso dá outro post ♡)

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23 de agosto às 20:25 · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão, parte III:

Fui pra academia hoje.

Isso já diz o suficiente.

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Relatos da depressão, parte IV:

O quadro depressivo possui três fases: o início da recaída (agressividade, distúrbio no sono – e por vezes na alimentação -, falta de memória, cognição afetada), a queda mesmo (a fase não-consigo-sair-da-cama) e, na fase da melhora, a oscilação.

Estou na fase de oscilações.

Alguns dias são bons, alguns são péssimos e outros são muito ruins. Tive 4 dias ruins seguidos que eu me fechei tanto que nem com a namorada eu conversava (coitada, pagando o pato).

Hoje acordei muito bem, mas com uma sinusite da porra. Se a mente cala, o corpo grita.

 

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12 de setembro às 14:34 · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão (e ansiedade) parte V:

Hoje temos prova de Penal II: teoria do crime.

Estamos tentando não sair por aí correndo gritando STALIN MATOU FOI POUCO. Até agora, com sucesso. Mas são apenas 14h33.

 

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Relatos da depressão (e ansiedade), parte VI:

Não saímos por aí gritando STALIN MATOU FOI POUCO sem roupa e com olhos esbugalhados.

Mas a ansiedade me deixa com o corpo trêmulo, a voz embargada, me falta o ar e me aperta o peito. Não consigo prestar atenção na aula de Civil (e acho que Teoria das Normas é bem importante). Tou aqui, então, comendo o fini tubes que a mozona me deu (valeu, mozao).

Marx está comigo!

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Relatos da depressão, parte VII:

Eu sobrevivi a uma das piores recaídas que eu já tive (tirando aquela fase suicida lá em 2014 em que, também, sobrevivi a duas tentativas).

Sobrevivi a todo o processo das oscilações, toda dor, toda angústia e toda a agressividade (nem menciono as alucinações).

A maré está favorável por aqui. Os ventinhos frescos que anunciam o fim do inverno fazem só pequenas ondinhas, sem grande caos. Já posso brincar de jogar pedrinhas no lago pra vê-lo balançar. Já se aprochega a fase da calmaria.

Já estou bem ♡

Essa foto é dessa manhã, quando a tempestade já se encaminhava pro alto mar.

 

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Agonia 704: um texto sobre depressão*

*Este texto pode conter alguns gatilhos de trauma. Eu, por exemplo, tenho depressão clínica grave (seguida de transtornos alimentares). Não foi fácil escrevê-lo

A depressão é uma doença que afeta anualmente cerca de 17 milhões de pessoas, causando grande sofrimento não apenas aqueles que padecem da doença, como também suas famílias e nós precisamos trazê-la para discussão. Ela é uma doença tal como a diabetes e precisa ser tratada – muitas vezes com medicação – e não menosprezada. Quando não tratada, a doença prejudica a autoestima, promove o consumo de álcool ou drogas, abala relacionamentos e a própria militância, e, às vezes, causa incapacidade e até mesmo a morte. Nota-se que no imperialismo (fase superior do capitalismo) surgem mais e mais casos de pessoas com quadro depressivo. De acordo com Marx, a relação capital, trabalho (e a divisão social do trabalho) e alienação promovem a coisificação ou reificação (que significa, literalmente, “objetificação”) do mundo, tornando-o objetivo, e suas regras devem ser seguidas passivamente pela classe operária. Essa humanização das coisas e coisificação das pessoas é crucial na formação do quadro depressivo: na sociedade de produção excedente, o ser humano é avaliado por sua capacidade quantitativa de produção para o mercado.

O que é a depressão

Uau, muita responsabilidade definir o que é a depressão. Usarei os conceitos da sociedade norte-americana de psiquiatria para que não caia no “achismo”. A depressão é um tipo de distúrbio mental que perturba o humor da pessoa. Os estados de humor podem ser considerados como um arco-íris, e cada pessoa experimenta essas cores cotidianamente. A depressão é comumente tratada como termo para tristezas que são em geral causadas por situações que passamos em algum momento da vida. O que diferencia essa tristeza comum de uma depressão clínica (ou distúrbio depressivo grave) é o sentimento de desânimo devastador, debilitante e duradouro que interfere com a vida da pessoa em casa, no trabalho e socialmente. A tristeza comum, aquela que advém de uma separação ou perda da pessoa amada, geralmente passa em um curto período de tempo (pode demorar um pouco mais, isso é muito subjetivo). O que difere totalmente da depressão clínica; essa, por sua vez, pode interromper gravemente a capacidade da pessoa de pensar e agir. Quando não tratada, a depressão grave pode ser perigosa. O pensamento suicida é uma parte comum desta doença; porém, raramente o paciente tem a força necessária para cometer suicídio quando a depressão atinge seu nível mais baixo e as tentativas geralmente acontecem quando o quadro depressivo diminui. Aqui que precisamos de atenção redobrada. A dor e a agonia são tão grandes que o paciente faz qualquer coisa que ponha fim a situação.

  • Depressão grave

A depressão grave, também conhecida como distúrbio depressivo grave, é o tipo mais comum da doença depressiva. Os efeitos dessa condição nas pessoas é que automaticamente elas deixam de sentir prazer nas atividades que antes significavam muito, sejam coisas pequenas ou grandes. No caso dos militantes, isso os afeta profundamente, deixando um sentimento de culpa e inutilidade. Estas mudanças emocionais são geralmente acompanhadas por alterações mentais e físicas como insônia, falta de memória ou dificuldade de concentração, perda de apetite, vários outros tipos de dores físicas e sofrimento emocional.

  • Sintomas:

– perda de peso significativa

– insônia ou sonolência excessiva

– movimentos físicos mais inquietos ou lentos do que de costume

– fadiga ou perda de energia

– sentimentos inadequados de inutilidade e/ou culpa

– incapacidade de pensar com clareza, se concentrar ou tomar decisões

– pensamentos recorrentes de morte, suicídio sem um plano específico, um plano para cometer suicídio ou uma tentativa de suicídio.

 

  • Depressão bipolar

A depressão bipolar afeta hoje em média mais de três milhões de pessoas ao redor do mundo. O principal sintoma desse quadro é a oscilação de humor em dois extremos: a tristeza profunda (depressão) e a euforia (mais conhecida no meio da psiquiatria como “crise de mania”). Na fase da mania, o humor se torna exageradamente otimista, animado, expansivo, ou, até mesmo, irritável. Estes sintomas podem se tornar perigosos, podendo dar origem a delírios. Na crise de mania, a pessoa apresenta uma autoestima inabalável e uma grande sensação de poder e controle. Esses elementos podem levar a gastos astronômicos no cartão de crédito e ao abuso de substâncias químicas. Neste caso, pode se fazer necessário um tratamento mais efetivo, como psicoterapia e medicamentos.

A depressão exerce um forte poder sobre seus pensamentos e emoções. Se você está deprimido, é provável que seus pensamentos sejam negativos, incoerentes e não coesos. As simples decisões (como escolher que camisa colocar para o trabalho) se torna uma tarefa quase impossível. A ansiedade também cumpre um papel crucial na piora do quadro da pessoa. Ela afeta cerca de 90% das pessoas deprimidas, e, junto com ela, o paciente é reprimido por um medo inexplicável.

As causas da depressão são as mais variadas, sendo necessária uma análise sobre cada caso. Distúrbios hormonais, câncer, distúrbios auto-imunes, doenças do sistema cardiovascular e deficiência de vitaminas (em especial a Vitamina D, de acordo com diversos pesquisadores), abuso de álcool e drogas e alguns medicamentos podem ser as causas físicas da depressão. As causas mais comuns, porém, ainda estão no campo emocional e ambiental.

Observa-se que diagnósticos de depressão e outros distúrbios psicológicos graves ocorrem com mais frequência em mulheres do que homens. Neste ponto, podemos analisar esse fato sob o escopo da opressão que as mulheres sofrem no sistema capitalista-patriarcal, porém isso não significa que nossos camaradas estejam imunes à doença. Vivemos sob violências sistemáticas. Muitas de nós sofremos o que os psiquiatras chamam de “estresse pós-traumático”.

Um dos principais pontos para analisar essa informação é o da propriedade privada: com seu surgimento, foi estabelecido, de vez, os papeis do homem e da mulher. O homem assumia o controle da produção, tornando-a seu domínio. Para a manutenção desse sistema e para que ele fosse passado às próximas gerações, a mulher precisaria ter um forte laço com o homem. É aqui que começa a dominação e o controle sobre nossa sexualidade: o homem precisava garantir que a prole carregasse seus genes. O peso do papel social que recai sobre a mulher é insustentável. Já falei sobre isso aqui.

Como ajudar as/os camaradas com depressão

Não é simples a tarefa de ajudar uma/um camarada com depressão. Por vezes, q pessoa pode se sentir num beco sem saída, sem saber como agir e o que esperar de resposta da(o) companheira(o). Não há necessidade, porém, de se pisar em ovos com os companheiros que apresentam um quadro depressivo. Conversas honestas podem ajudar muito na descoberta da doença (considerando que, às vezes, o próprio militante não vai se dar conta da depressão). Quando o militante já traz o quadro depressivo, também não há necessidade de subestimar o/a camarada, basta perguntar como se sente, de que maneira pode ajudar sem forçar os limites e traçar um plano para o militante cumprir com suas atividades e nunca cumpri-las em seu lugar.

A depressão, com frequência, vem com “auto-boicote”: o militante vai se achar incapaz de cumprir as atividades e, consequentemente, pode não cumpri-las, o que gera um grande sentimento de culpa. É crucial o papel da assistência para traçar um plano, fazer um calendário, pensar junto com o militante e jamais menosprezar suas dificuldades.

Nem todos precisam seguir um tratamento com medicação, às vezes basta o coletivo reunir com a frequência necessária, basta um assistente mais atento, basta dar para os camaradas a carga de tarefas que eles vão conseguir cumprir. Fazer as tarefas junto com o militante não significa que o assistente subestima suas capacidades, ou que não responsabiliza a/o camarada. Se nós não nos preocuparmos com a saúde e o bem-estar dos nossos companheiros, não vai ser a burguesia que vai cumprir esse papel, sendo que ela lucra milhões anualmente com a indústria farmacêutica. Nós, comunistas revolucionários, cuidamos uns dos outros e dedicamos nossa vida a lutar por uma sociedade mais justa, igualitária e livre de opressão: a sociedade socialista.

O fascismo que sempre esteve aí – e agora saiu do esgoto.

No dia 17 de Abril de 2016, num domingo, é aprovada na Câmara dos Deputados a abertura do processo de impeachment da presidenta eleita em 2014 com 51,64% dos votos, Dilma Roussef. Presidenta, essa, que não é citada em nenhuma das investigações de lavagem de dinheiro ou teve seu nome divulgado nas recentes listas de propina.

O propósito desse texto não é, de maneira nenhuma, defender o indefensável: as políticas de direita do governo do Partido dos Trabalhadores. Governo, esse, que com uma guinada à direita conduz o país de acordo com as políticas da grande burguesia nacional e internacional. Agenda política, essa, que faz ajuste fiscal, que aprova lei anti-terrorismo, que cogita a reabertura da CPMF e que governa para os chefões do agronegócio, promovendo um verdadeiro genocídio da população indígena. Veja, aqui, sobre a ilegalidade do impeachment. Sobre as conciliações do governo PT, o veículo socialista A Verdade.

O propósito deste texto é discorrer brevemente sobre a conjuntura que se instaura no dia de hoje e a agenda política dos grupos que estão atualmente liderando os rumos do país: a ideologia fascista. Precisamos, então, colocar aqui as definições dessa tendência política que surge na fase imperialista do capitalismo.

Os conceitos de direita e esquerda têm sido postos em cheque ultimamente. Eu mesma não tenho acordo com essa divisão muito reducionista e, por vezes, reformista. Porém, se observarmos nos grandes grupos, quem nega a validade de uma divisão da agenda política, quem nega a existência de grupos diametralmente opostos, nunca são pessoas da esquerda. Para compreendermos o conceito de fascismo, é imprescindível uma correta compreensão do que é essa direita que tanto falamos.

“A direita é o gênero de que o fascismo é uma espécie.” (KONDER, Leandro. Introdução ao Fascismo, da série: Assim lutam os povos. Editora: Expressão Popular).

Sigo na citação do livro:

“Em sua essência, a ideologia da direita representa sempre a existência (e as exigências) de forças sociais empenhadas em conservar determinados privilégios, isto é, em conservar um determinado sistema socioeconômico que garante o estatuto de propriedade de que tais forças são beneficiárias. Daí o conservadorismo intrínseco à direita.”

Esse teor conservador da direita não significa, em nada, que a resistência à mudança se dê de forma pacífica. A corja conservadora sabe que, para garantir a manutenção do poder, são necessários projetos políticos concretos, privatizações, manobras políticas e golpes. A tática de conservação é repressiva: é mais fácil reprimir do que convencer os demais da excelência da agenda política.

Por mais que a direita pareça estar “organizada” e muito bem articulada, ela encerra uma contradição em si: todos os movimentos são baseados em interesses particularistas, só se unem para os objetivos limites de acumulação de capital, de lucro privado. Além do mais, não há unidade entre teoria e prática que é tão conhecida nos meios revolucionários, marxistas-leninistas. Levando essa tendência, esse sistema imperialista, às constantes crises, estando fadado ao fracasso.

O fascismo é ultranacionalista e autoritário, visa o pregresso do país favorecendo uma maior industrialização e tem discursos inflamados de engrandecimento da nação. O regime fascista na Itália de 1919, por exemplo, foi marcado pelo intervencionismo econômico – promover a intervenção e o controle da economia (sobre o Fascismo Italiano, aqui a AulaDe). É, um capitalismo no estilo intervencionista: o governo tem controle de setores da economia visando à industrialização e uma maior proletarização da população. Hoje, isso significaria o fim de nossas leis trabalhistas. Não podemos esquecer uma parte muito importante da agenda fascista: a superioridade racial.

Os anos de concessões e conciliações do governo PT alimentaram o crocodilo fascista que vivia no esgoto. Hoje, ele saiu às ruas vestido de verde e amarelo com pautas que retomam ao terror daquele dia que durou 21 anos. A principal luta política do momento é o processo do impeachment para que Temer e Cunha possam assumir o poder. Processo, esse, sem base legal alguma, como diz a professora Liane Cirne neste vídeo, reproduzido pelo Jornal A Verdade. Não houve qualquer crime de responsabilidade por parte da presidenta.

O maior exemplo – e até um tanto caricato – da representação do fascismo é o deputado estadual do RJ pelo Partido Progressista, Jair Bolsonaro. Militar de reserva, Bolsonaro é a favor da redução da maioridade penal, disse que só não estupra a deputada Maria do Rosário porque ela não merece, fala contra a comunidade LGBT e é um saudosista dos anos de chumbo. No plenário que votava pela abertura do processo do impeachment, Bolsonaro, ao declarar seu voto, fez uma saudação ao terror de Dilma Roussef, Carlos Alberto Brilhante Ustra, diretor do DOI-CODI de São Paulo, que, na ditadura, torturava mulheres grávidas e enfiava ratos em suas vaginas. (veja, aqui o voto de Bolsonaro). Como resposta, Amélia Teles, sobre Ustra.

Não se enganem: Quem defende Bolsonaro tem um lado, e eu não acredito numa defesa inconsciente do sujeitinho. As pessoas sabem o que ele defende. O projeto de sociedade é muito nítido, bem como a agenda política desse fascismo que está saindo do esgoto e já tem seus representantes, bem como seus seguidores.

Hoje, após assistir todas aquelas declarações de voto da Câmara dos Deputados, paira o sentimento de termos retrocedido algumas décadas – e eu espero que não ao ano de 1964. Porém, o que se sobrepõe à derrota, é a certeza de que as ruas desse país se incendiarão com as lutas da classe trabalhadora, que nada tem a perder a não ser seus grilhões. Para terminar, deixo a postagem de um companheiro de luta, Wanderson Pinheiro:

Votação na Câmara, uma derrota da conciliação de classes!

Não concordo que ontem o Brasil viveu uma derrota da esquerda, mas sim da parcela reformista que não só insiste no caminho da conciliação de classes, na aposta nos acordos de gabinete e na composição com os interesses econômicos de grandes grupos empresariais e políticos, das oligarquias mais conservadoras do Brasil.

Mesmo estando à beira do naufrágio, Lula e o PT mantiveram e mantém firmemente este caminho. Isto se expressou no foco das negociações no congresso, realocação de ministérios com a direita e o pouco peso dado para a resistência Popular, as greves ou qualquer debate que incluísse os verdadeiros anseios do nosso povo.

O apelo ao povo se restringiu a defesa da legalidade, como suporte para o PT ter força para barrar o golpe no congresso e correlação de forças para uma saída negociada.

Poucos minutos depois da derrota esta posição é reafirmada pela esquerda reformista: nossa resistência agora segue no senado. Sendo assim, o povo deve se limitar a dar peso para endossar esta via, sem contudo ser chamado para ser uma força decisiva e defender o que realmente lhe interessa, seus reais interesses de classe.

“É verdade que nosso centro deve continuar sendo atacar o inimigo principal. Cunha, Temer, PMDB e PSDB são protagonistas de um golpe contra o povo. Representam a fração da classe dominante que quer intensificar por todos os meios a retirada de direitos, a ampliação da exploração e da repressão contra os trabalhadores.

A questão é que não avançaremos, nem conquistaremos o povo para lutar contra seus inimigos, sem colocarmos no centro a luta por seus direitos, por terra, moradia, fim do ajuste fiscal e sem nenhuma ilusão com posições que pretendem usar o povo para construir novos pactos e acordos com as elites. É preciso apostar nas ruas, preparar o povo para um novo momento que se abre e se intensifica na luta por justiça social.

Seguir um mês depositando esperança na reversão do quadro no senado é não só uma ilusão, como significa deixar o movimento Popular totalmente à reboque dos conchavos no parlamento, caminho do fracasso que dará a vitória aos exploradores do povo.

Precisamos neste momento gastar o precioso tempo que temos e todas as nossas energias construindo com o povo a verdadeira alternativa para a crise. Hoje é mais urgente é necessário ocupar as ruas com a bandeira por mais direitos e pelas bandeiras históricas da esquerda socialista. Precisamos lutar por um novo caminho de unidade do povo pelo poder Popular e pelo Socialismo!!”

Aqui se Respira Lucha

Latinoamérica

Soy… Soy lo que dejaron
Soy toda la sobra de lo que se robaron
Un pueblo escondido en la cima
Mi piel es de cuero, por eso aguanta cualquier clima
Soy una fábrica de humo
Mano de obra campesina para tu consumo

Frente de frío en el medio del verano
El amor en los tiempos del cólera, mi hermano!
Soy el sol que nace y el día que muere
Con los mejores atardeceres
Soy el desarrollo en carne viva
Un discurso político sin saliva
Las caras más bonitas que he conocido

Soy la fotografía de un desaparecido
La sangre dentro de tus venas
Soy un pedazo de tierra que vale la pena
Una canasta con frijoles, soy Maradona contra Inglaterra
Anotándote dos goles

Soy lo que sostiene mi bandera
La espina dorsal del planeta, es mi cordillera
Soy lo que me enseñó mi padre
El que no quiere a su patría, no quiere a su madre
Soy américa Latina, un pueblo sin piernas, pero que camina
Oye!

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
María Rita:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
Susana Bacca:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Calle 13
Tengo los lagos, tengo los ríos
Tengo mis dientes pa’ cuando me sonrio
La nieve que maquilla mis montañas
Tengo el sol que me seca y la lluvia que me baña
Un desierto embriagado con peyote
Un trago de pulque para cantar con los coyotes
Todo lo que necesito, tengo a mis pulmones respirando azul clarito

La altura que sofoca,
Soy las muelas de mi boca, mascando coca
El otoño con sus hojas desmayadas
Los versos escritos bajo la noches estrellada
Una viña repleta de uvas
Un cañaveral bajo el sol en Cuba
Soy el mar Caribe que vigila las casitas

Haciendo rituales de agua bendita
El viento que peina mi cabellos
Soy, todos los santos que cuelgan de mi cuello
El jugo de mi lucha no es artificial
Porque el abono de mi tierra es natural

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
Susana Bacca:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Não se pode comprar o vento
Não se pode comprar o sol
Não se pode comprar a chuva
Não se pode comprar o calor
Não se pode comprar as nuvens
Não se pode comprar as cores
Não se pode comprar minha’legria
Não se pode comprar minhas dores

No puedes comprar el sol
No puedes comprar la lluvia
(Vamos caminando)
No riso e no amor
(Vamos caminando)
No pranto e na dor
(Vamos dibujando el camino)
No puedes comprar mi vida
(Vamos caminando)
La tierra no se vende

Trabajo bruto, pero con orgullo
Aquí se comparte, lo mío es tuyo
Este pueblo no se ahoga con marullo
Y se derrumba yo lo reconstruyo
Tampoco pestañeo cuando te miro
Para que te recuerde de mi apellido
La operación Condor invadiendo mi nido
Perdono pero nunca olvido
Oye!

Vamos caminando
Aquí se respira lucha
Vamos caminando
Yo canto porque se escucha
Vamos dibujando el camino
(Vozes de um só coração)
Vamos caminando
Aquí estamos de pie
Que viva la américa!
No puedes comprar mi vida

A lei do silêncio

Não consigo esquecer o que aconteceu

mas ninguém mais se lembra.

A partir da discussão da IV Conferência Mundial, a Organização das Nações Unidas passou a considerar a violência de gênero contra as mulheres como uma questão além da manifestação de relações hierárquicas historicamente desiguais entre homens e mulheres: passou a considerar equidade (não gosto do conceito de ‘igualdade’) necessária para o desenvolvimento pleno dos direitos humanos e das liberdades individuais. Não que isso tenha diminuído em algum grau os índices de violência, mas foi a porta para lei Maria da Penha e para criação de Juizados Criminais Especializados em atendimento à mulher. Sabemos, porém, que a instituição serve aos homens, serve à supremacia masculina e à supremacia branca, então qualquer tentativa de reportar o crime será tida com retaliação, com questionamentos e levantamento de dúvidas quando a palavra da vítima.

Vemos que a própria terminologia pra tratar do tema é insuficiente:

* Violência contra mulher nomeia o objeto do fenômeno, aponta contra quem a violência é praticada. Não aponta, porém, o sujeito da ação. Quem está violentando as mulheres?

* Violência doméstica está mais presente no senso comum, designando o que é próprio da esfera privada (lembrando que a dicotomia público x privado serve de sustentação para essa cultura do estupro. O corpo da mulher é público, porém suas violências estão no âmbito do privado) e situa um ambiente que ocorre essa violência.

* Violência intrafamiliar é uma modalidade da violência que se passa dentro da família, que vem de dentro dela. “O Ministério da Saúde define que a violência intrafamiliar […] não se refere apenas ao espaço físico onde essa violência ocorre mas também às relações em que se constrói e efetua.”

* Violência de gênero é o fenômeno dentro de um contexto de relações de poder produzidas por construção social (socialização).

Vocês perceberam que, em nenhum momento, nomeia-se o sujeito da violência? Quem está nos violentando?

No Brasil, os serviços destinados à intervenção desse fenômeno estruturam-se em, basicamente, três eixos: delegacias especializadas no atendimento à mulher, centros e núcleos de atendimento à mulher e casas de abrigo/casas de passagem. Na cidade de Porto Alegre, mais especificamente, sabemos da insuficiência de políticas públicas que atendam as mulheres vítimas de violência doméstica. Quando essas mulheres decidem sair de um ambiente de agressão, estão se encaminhando para uma situação de violência institucional na qual muitas vezes a própria agressão é questionada.

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* NÃO não significa ‘convença-me’

 

A cultura do estupro é um assunto que exige constante vigilância visto que, para sobreviver, esse sistema econômico de produção precisa naturalizar uma série de violências contra a classe trabalhadora e contra – principalmente – as mulheres (fazendo os devidos recortes de raça e classe).

O mais importante é manter o estereótipo de abusador ideal: aquele cara completamente desconhecido que te ataca no beco escuro à noite quando tu estás sozinha.

Nada mais mentiroso e cruel que isso.

48% das mulheres agredidas declaram que a violência aconteceu em sua própria residência; no caso dos homens, apenas 14% foram agredidos no interior de suas casas (PNAD/IBGE, 2009).

77% das mulheres que relatam viver em situação de violência sofrem agressões semanal ou diariamente. Em mais de 80% dos casos, a violência foi cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo: atuais ou ex-companheiros, cônjuges, namorados ou amantes das vítimas. É o que revela o Balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher , da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR). Leia mais no Balanço 2014 do Ligue 180.

Confira as estatísticas completas aqui: aqui

Os casos de violência sexual por desconhecidos representam um número muito pequeno. Os agressores são os nossos amigos que colocam Rohypnol (o famoso boa noite cinderela) na nossa bebida, é o parceiro que nos agride, é o universitária que passa trote opressor nas calouras.

Recentemente, a cantora pop Lady Gaga laçou seu último single como forma de denúncia aos casos de estupro que vêm crescendo exponencialmente dentro do campus universitário. A universidade é um invólucro da sociedade.

[Aviso: gatilho de trauma] 

Apenas as vítimas sabem da luta que precisam travar para levar adiante a denúncia e abrir processo contra seu agressor. Não há política de assistência suficiente, não há sequer centros de referencias bem articulados que operem in full. O clipe mostra o processo inteiro das vítimas para lidar com o estupro.

Precisamos ruir as instituições, precisam queimar toda essa supremacia masculina e toda a cumplicidade que permeia o agressor a continuar agindo com impunidade. Precisamos ajudar umas as outras.

 

Companheira me ajuda, que eu não posso andar só

Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor

Redução não é a solução

O projeto da redução da maioridade penal (que tramitou com caráter de urgência justamente no mesmo ano em que o projeto de privatização das prisões também assumiu caráter de urgência. Curioso, não?) tem como principal argumento, numa campanha rasteira e preconceituosa, que os menores infratores têm papel central no aumento das estatísticas de homicídios a nível nacional.

O que este argumento ignora, no entanto, é que, com estatísticas atualizadas, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que apenas 1% dos homicídios registrados em todo o país são cometidos por jovens entre 16 e 17 anos – inclusive com armas brancas; isso equivaleria apenas a 500 casos de um total de 56.337 homicídios registrados em 2012.

Tendo em vista o cenário de violência urbana, sabemos que suas origens estão intrinsecamente ligadas aos processos de favelização e segregação urbana. As favelas surgiram com a intensificação das contradições sociais e a desigualdade socioeconômica. Sabemos, também, que a redução da maioridade penal tem cor e tem classe. Este projeto é a institucionalização do genocídio da juventude negra.

A culpa não é somente do menor infrator, mas a culpa reside num Estado insuficiente que usa a polícia militar, seu principal braço fascista, como forma de controle e repressão, um Estado que prefere investir em políticas de encarceramento do que em políticas sócio-educativas. A culpa é do sistema de produção capitalista que sobrevive da exploração. Nesta lei, há brechas para legalização do trabalho infantil – e sabemos que a mão de obra infantil é barata e ainda utilizada no campo e algumas áreas urbanas –, para a venda e consumo de bebidas alcoólicas para adolescentes e, também, o caminho para a legalização da prostituição infantil.

Este projeto de lei não vem sozinho, traz consigo um pacote de medidas que visa criminalizar a juventude, cercear seu espaço de luta política e de lazer e impedi-la do acesso à cidade. É um momento crucial para os movimentos sociais, a voz da juventude não será calada.

A vida imita a arte (ou a arte imita a vida?): literatura como forma de dominação e subjugação.

*Foto de uma das intervenções urbanas da artista Jenny Holzer, mostrando que a arte deve ser instrumento de luta política.

É cabível dizer que as produções que consumimos têm forte influência em quem nos tornamos, nas decisões que tomamos e – fazendo um recorte na microestrutura – nos relacionamentos que temos.

A dialética do sexo

As feministas precisam questionar não só toda a cultura ocidental, como a própria organização da cultura, e, mais, até a própria organização da natureza. Porém, para que possamos mudar a situação, precisamos saber como ela surgiu e se desenvolveu, e já falei disso aqui. Marx e Engels foram os primeiros a romper com a linha cartesiana de pensamento e pensar na história como dialética e materialista; isso significa ver o mundo como um processo de ação e reação, mais como um filme do que como um álbum de fotos. Os pensadores antes deles não fizeram se não pensar na história e nas desigualdades como uma questão da moralidade, em que a exploração acabaria pela boa vontade das classes dominantes. Numa sociedade sem classes (econômicas e sexuais), os interesses de todos os indivíduos seriam sinônimos dos da sociedade. Seria um erro tentar explicar a opressão das mulheres a partir duma interpretação estritamente econômica. Podemos perceber isso quando observamos o desenrolar da história.

Crítica feminista e crítica literária

Tanto na vida real como na ficção, os papéis sociais e a condição geral das mulheres têm sido construídos a partir de um conjunto de pressupostos, de valores e de uma moralidade ética determinada previamente por uma perspectiva de dominação patriarcal. Vale ressaltar, também, que para permanência e manutenção desse sistema, o mesmo se escora em instituições artificiais como o casamento, a erotização da subordinação, os ideais de beleza, etc.

Para manter toda uma classe em situação de subordinação – e, de certa forma, porém sem culpa nenhuma, compactuando com isso – essas instituições precisam tornar-se “desejáveis”, precisam ser um ideal. É aí que a arte tem um papel importante na construção da identidade feminina.

O resultado das narrativas ficcionais direcionadas para as mulheres têm sido limitar sua ação social autônoma, criar mitos justificadores, enraizar uma ideologia dominante e, finalmente, atribuir um lugar coadjuvante, secundário e menor, quase sempre irrelevante, às mulheres no desenvolvimento social.

Enfatizo, aqui, a importância da conscientização feminina acerca da necessidade de subvertermos os costumes e os mitos tradicionais, tais como as costumeiras inferioridade e subserviência femininas, a discriminação no estabelecimento de papéis sociais, o eterno feminino e a tradição tão cara aos românticos referente à idealização da mulher.

Dominação e autoritarismo são elementos que permeiam as situações sociais das mulheres e são, frequentemente, incorporadas, propositalmente ou não, em obras da literatura. A análise da situação cultural da mulher é relevante no sentido de verificar como ela é vista pelo Outro, como ela vê o outro e como vê a si mesma. Essa perspectiva está presente na obra ficcional por meio da ação das personagens. Como ocorre com as minorias, a voz da mulher sempre foi silenciada, o que a impediu de desenvolver uma linguagem própria, precisando recorrer à linguagem do gênero dominante. A conquista do nosso espaço acontecerá a medida que assumirmos nosso discurso e, consequentemente, realizarmos uma arte e uma crítica centradas na figura feminina para que, assim, ela adquira visibilidade e voz, saindo do silêncio milenar a qual fomos subjugadas. É aqui que acontece a travessia do invisível para o visível, do silêncio para a fala, e não deve ser uma atividade isolada.

As artes que consumimos quando adultos já servem de para guiarmos nossas ações, definirmos nossa cultura e nos formarmos enquanto sujeitos. Isso tudo pode – e geralmente acontece – operar num nível subconsciente. Vamos nos tornando a arte que consumimos. Precisamos, sempre que consumimos produções artísticas, lê-las com olhares críticos e através da cortina de recortes de opressões (gênero, classe e raça), para que a tradição dominante possa ser desmantelada. A literatura está sob o poder patriarcal e capitalista e dele ela precisa se distanciar.

Beauvoir traz, n’O Segundo Sexo, uma crítica que defende o princípio do conservadorismo masculino, daí a impossibilidade de mulheres serem representadas adequadamente por homens.

“A subjetividade do sujeito é expressa na textualidade: no posicionamento do narrador ante o mundo narrado, na construção do universo ficcional – nas noções de tempo e espaço, nas ações das personagens e na sua construção.”

A constituição do sujeito feminino traz consigo processos históricos que implicaram em transformações relevantes na sociedade – como o surgimento da propriedade privada, por exemplo. Para Marx e Engels, o ser humano não é o sujeito da história, pois pode agir apenas com base nas condições históricas criadas por outros indivíduos e sob as quais nasceu, utilizando os recursos materiais e de cultura já existentes, fornecidos por gerações anteriores.

 

Bibliografia:

 

Gênero e Literatura

Políticas Públicas para Mulheres

A Dialética do Sexo