O feminicídio em Juárez e o pacto de silêncio*

Matéria originalmente publicada no veículo socialista A Verdade

Pela falta de dados, informações e artigos, Juárez não teve o destaque no texto que eu gostaria de ter dado.

 

Ciudad Juárez, Chihuahua, México.

Feminicidios.

Mujeres de entre 18 y 35 años.

El recuento empieza en 1993 con la muerte de la niña Alma Chavira Farel.

Las muertas de Juárez siguen vivas; esperan en la morgue que las bauticen, les pongan nombre para adornar sus cruces.

 

O silêncio ensurdecedor: violências encobertas contra mulheres e crianças *

Tradução/versão do primeiro capítulo do trabalho da escritora e pesquisadora Patrizia Romito

Hoje, a violência contra a mulher já não é um mistério, um segredo. Já não é mais uma questão a ser escondida – ou pelo menos não deveria ser. Estamos cientes da frequência e das consequências da violência doméstica, estupro, assédio moral no trabalho, abuso infantil. Fenômenos, esses, que sequer tinham nome até os anos 70. O movimento de mulheres teve avanços nos últimos 30 anos, produzindo conhecimento, consciência e resistência. Revelou a teia de cumplicidade – com frequência institucional – que permeia o agressor a continuar agindo com impunidade. Porém, ainda há muito a ser feito.

Em 1981, na Itália, foi derrubado o conceito de “crime de honra” da legislação. Tal conceito reduzia drasticamente a pena de quem assassinou a filha, esposa ou irmã se fosse considerado que a “honra” do agressor havia sido ferida. Em outros países da Europa, caiu a chamada “imunidade conjugal”, que não considerava agressão quando havia estupro marital.

Porém, no que concerne comportamento, a sociedade patriarcal ainda nega o sujeito da violência e se volta para a culpabilização das vítimas.

Consideremos, aqui, a violência sexual. Levantamentos de dados para estudos – resultados de pesquisas realizadas com um considerável número da população relacionando com relatórios, julgamentos e condenações – mostra que a chance do agressor ser posto em situação em que não poderá mais cometer outro ato de violência é mínima. De fato, poucos casos de violência contra mulher são reportados.

Ao contrário do que prega o senso comum, muitas das mulheres vítimas de violência doméstica falam, sim, sobre os abusos sofridos. Muitas delas romperam com silêncio e buscaram ajuda, mesmo sob o risco da violência subsequente. Muitos dos casos de estupro parental contêm elementos em comum. A criança conta algo para os avós, para os amigos, para a escola e ela é, então, levada ao hospital por hematomas ou ossos quebrados, mas nada acontece. Na adolescência, ela sofre de problemas comportamentais, pesadelos e ataques de pânico e tenta suicídio, mas ninguém – nem psiquiatras, psicólogos ou assistentes sociais – pergunta a ela o porquê; dão drogas para acalmá-la e, se ela tenta contar, é tratada como uma mentirosa compulsiva. Se ela vai à polícia, é ridicularizada e acusada, novamente, de mentir. Nem todas as mulheres e crianças enfrentam os muros da indiferença e cumplicidade. Isso acontecer ainda nos dias de hoje nos mostra que o coração do problema não se encontra no silêncio das vítimas. Elas gritam. Pesquisas com mulheres vítimas de violência doméstica mostram que apenas uma minoria mantém segredo. Muitas já relataram os casos para amigas, médicos, pais e figuras institucionais, porém raramente são ouvidas, acreditadas ou ajudadas. São, por vezes, insultadas e ameaçadas pelas pessoas a quem elas recorreram.

A imprensa também desenvolve um papel importante na cultura do silêncio. Casos de violência doméstica são cada vez mais noticiados nos telejornais. Mas de que modo isso é feito? Ouvimos os tais “crimes passionais”: homens que não suportavam serem deixados e matam as ex companheiras e/ou cometem suicídio, tudo por “amar demais” ou por “sofrerem demais”. Não se fala em violência masculina, não se fala no sujeito da ação, criando a ideia de que a violência é perpetrada por algum espectro nebuloso chamado misoginia.

Como que, em apenas duas décadas, fomos do total silêncio – do segredo coagido, a supressão das experiências infantis, de tal forma que nem sequer eram ouvidas – a um nível de cacofonia tal que as vozes das crianças, das mulheres não estão, mais uma vez, sendo ouvidas? (Armstrong, 2000a, p 3)

Identificar as várias formas de violência é necessário para traçar um estudo da frequência e da forma que a sociedade patriarcal mantém as mulheres nos seus lugares de submissão. De que forma, também, o pacto de silêncio é útil para que a estrutura não seja ameaçada.

Cidade de Juárez

Ciudad de Juárez é uma cidade mexicana próxima na fronteira com os Estados Unidos. Conhecida por ser um conglomerado de parques industriais é, também, notória por conter a sede de um dos maiores cartéis de drogas do México. Porém, acima de tudo, Juárez é conhecida pelos brutais assassinatos contra mulheres. Desde 1993, quando se começou a contar as mortes, estima-se que mais de 1.100 mulheres perderam suas vidas, e este número é apenas das desaparecidas: não podemos esquecer que grande parte dos crimes contra a mulher não são reportados, logo, não entram para as estatísticas.

A violência contra mulher é sistêmica, nunca um ato isolado. São complexas questões estruturais que datam desde o surgimento dos primeiros espectros da sociedade capitalista-patriarcal. Aqui, eu faço um panorama história de como se deu a formação dessa sociedade.

O pacto de silêncio – a violência contra a mulher

O poder, sabemos, tem duas faces: da dominação e da subordinação, e as mulheres conhecem muito bem a segunda, já que nossa socialização se dá através dela. É isso que a supremacia masculina significa: esse acesso ao corpo da mulher. Os homens “estão permanentemente autorizados a realizar seu projeto de dominação/exploração das mulheres, mesmo que, para isso, precisem utilizar-se da força física” (SAFFIOTI, 2002, p. 203). A culpa é inerente ao gênero mulher, como disse a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, e faz parte da nossa criação enquanto indivíduos. Para a manutenção do status quo, foi importante que as mulheres aprendessem que, qualquer que seja a violência sofrida, elas têm uma parcela dessa culpa.

Assim, surgiu uma cultura do silêncio, de crimes não reportados, de vítimas silenciadas quando tentam reportar. E, por ser privilegiada por isso, a sociedade patriarcal compactua com esse silêncio e o faz um importante fator da manutenção desse sistema que se escora em instituições artificiais. Analisá-las e denunciá-las é colocá-lo em risco.

Em Juárez, os casos de feminicídio têm um tom execução – os assassinatos são o rito de passagem de homens ao ingressarem no mundo do cartel, como forma de dar recado para grupos inimigos. Faltam políticas públicas, e, claro, falta atenção às mulheres que são maioria dentro das fábricas.  A maior fonte de emprego de Juárez são as maquiladoras – empresas situadas na zona de comércio livre que empregam mão de obra barata e exportam materiais para produção estrangeira. A jornada de trabalho é intensa e, a volta para casa, sempre arriscada: o perfil das vítimas são as jovens trabalhadoras de origem humilde.

 

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No dia 05 de janeiro de 2011, Susana Chávez, poeta e ativista contra os feminicídios de Juárez – e idealizadora da campanha Ni uma más – fora brutalmente assassinada. Ao total, 13 ativistas defensores dos direitos humanos perderam suas vidas. Susana, como tantos outros casos brutais de feminicídio, fora encontrada com um saco plástico em volta da cabeça e a mão esquerda decepada. Os assassinos, segundo a polícia local – conhecida por ser uma instituição corrupta – eram menores de idade que teriam se desentendido com Chávez. Mais uma vez, vemos que a violência é mascarada.

No velório de Susana, um de seus poemas foi deixado em cima do caixão. A frase que mais me chamou atenção foi:

Sangre mía, sangre de alba, sangre de luna partida, sangre del silencio

Juárez não é um caso isolado, pelo contrário. É uma amostra da macroestrutura operando na microestrutura. Perguntaram-me por que me preocupar com uma cidade tão distante geograficamente. Minha resposta é que, sendo a violência sistêmica, ela é parte da nossa estrutura, das nossas vidas e das ruas da nossa cidade também. Nada disso está longe: temos uma Juárez em cada esquina. E todas nós sangramos.