Trabalhadoras de todo o mundo: uni-vos!

Durante nosso árduo caminho como militante, encontramos pessoas que tornam o trabalho de lutar pela revolução mais amorzinho. Bruna Fraga é uma dessas pessoas. Além de ser companheira de militância feminista e comunista, é uma grande amiga com quem aprendo todo dia uma coisa nova.

Ontem, ela produziu o seguinte texto que, com muito orgulho, compartilho aqui no blog.

“Foi comemorado, com muita luta por todo o Brasil, nessa semana, o 1º de maio, Dia do Trabalho. E é comum que se fale na exploração pela qual todos os trabalhadores do mundo sofrem. E, de fato, são explorados. No entanto, quase nada se fala sobre as condições precárias que vivem as mulheres no mundo do trabalho e os diversos problemas que são enfrentados num espaço de convívio social (assim como a escola e a universidade, o “chão da fábrica” também é um espaço de socialização), onde mulheres e homens ocupam funções de acordo com a leitura que a sociedade faz de seus corpos: uma suposta ~diferença biológica determina as habilidades e competências de cada um, que resulta na existência de divisões de trabalho – trabalhos de mulheres e de homens – e na consequente diferenciação dos salários.

Se partirmos do princípio de que não existe um cérebro feminino e outro masculino e de que possuímos uma estrutura biológica idêntica e potencialidades iguais para desenvolvermos resistência física, salvo a capacidade de amamentação e genitálias diferentes (combinados com órgãos internos, de função reprodutora) – o que não é determinante para absolutamente nada -, então sabemos que essa divisão do trabalho é artificial e não passa de uma reutilização do patriarcado pelo capitalismo, com o objetivo de produzir mais capital. Ou seja, lançam mão do sexismo para justificar uma maior extração de mais-valia absoluta (intensificação do ritmo de trabalho, por meio da vigilância, cronometragem do tempo, reorganização espacial para melhor aproveitamento dos movimentos necessários para a realização de determinada tarefa, etc.). E essa exploração não cabe somente à produção de bens, mas à produção de serviços também, principalmente quando falamos sobre terceirização do trabalho.

A linha tênue que separa a exploração da mulher e a terceirização dos serviços

No setor terciário, a partir da década de 1990, se instala a terceirização dos serviços, que, segundo o Enunciado nº 331, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), torna legal essa prática, “desde que não atinja a atividade-fim da empresa”¹. Em 2005, a porcentagem de trabalhadores terceirizados no total de força de trabalho brasileira cresceu para 16%. “Para as empresas privadas, isso significa menor gasto com as folhas de pagamento e com encargos trabalhistas. Além disso, a contratação de trabalhadores por empresas terceirizadas contribui decididamente para elevar o nível de rotatividade no emprego, mecanismo que as empresas utilizam para demitir e contratar com salários mais baixos”². Nesse sentido, as mulheres, com o advento da terceirização, adentram um pouco mais no mercado de trabalho, mas ainda sob condições insalubres, assédio moral (dos supervisores) e direitos trabalhistas flexibilizados.

No Brasil, a terceirização do trabalho tem como maior alvo mulheres negras e da periferia. Boa parte dos serviços terceirizados é composta pela limpeza e telemarketing, atividades ocupadas majoritariamente por mulheres. E são os dois dos serviços mais precarizados da terceirização.

Segundo Marx, o aproveitamento de determinados setores da sociedade, como forma de diminuição dos custos empresariais e consequente aumento dos lucros, se chama cheap labour, que significa “trabalho barato”. Mulheres são mais exploradas no mundo do trabalho, uma vez que são consideradas mão de obra barata, em decorrência de um acúmulo histórico de opressões. E essas opressões são renovadas, precisam dançar conforme a música, por isso atualizam o seu discurso (os meios de comunicação de massa exercem a função de renovação desse discurso), mas sua essência, no entanto, não mudou. O capitalismo, por sua vez, lança mão dessas opressões para justificar uma maior exploração de força de trabalho, principalmente quando se trata do barateamento dos custos do empregador com o empregado (mulheres brancas, mulheres negras – que são mais exploradas que as brancas -, homens negros e homossexuais são os principais alvos dessa superexploração).

A mulher é explorada gratuitamente

Recaem sobre as costas da mulher todos os serviços domésticos que, historicamente, foram desempenhados por mulheres. E são serviços sem remuneração – o serviço doméstico não é considerado trabalho. O capitalismo ignora conscientemente essa atividade. Silvia Federici, professora e pensadora feminista, afirma que, por vivermos numa sociedade conformada para as relações monetárias, um trabalho que não possui remuneração é sinônimo de exploração alusiva ao trabalho escravo e, assim, para que o capitalismo possa ignorar o trabalho doméstico (que é imprescindível para a reprodução de força de trabalho humana) sem que haja resistência, naturaliza sua exploração.

Os serviços desempenhados em casa, depois de uma cansativa e longa jornada de trabalho, não são reconhecidos como trabalho. E isso é estratégico, é uma forma de que inutilizemos nosso tempo fora do local de trabalho “formal”, de que não nos especializemos nem tenhamos tempo para refletirmos sobre nossas condições de vida. Mas caso isso seja possível, estaremos sempre em desvantagem daqueles que possuem esse privilégio, se conseguirmos conciliar trabalho formal, doméstico e estudos. E os privilegiados, em sua maioria, são os homens – que possuem mais tempo para o aproveitamento do ócio, seja para entretenimento ou formação cultural e intelectual.

Concordo que a classe trabalhadora, de maneira geral, possui pouco tempo para aquilo que foge da esfera do trabalho, mas não podemos colocar trabalhadora e trabalhador em pé de igualdade, em virtude da existência da opressão intraclasse (do homem e sobre a mulher ). Isso não significa dizer que estamos setorizando a luta contra o capitalismo, colocando mulheres contra homens. Isso é concreto, não é nada abstrato. Portanto, para que consigamos conciliar nossos objetivos em comum (a coletivização da propriedade, desde uma perspectiva socialista), precisamos reconhecer que existem demandas diferenciadas e que elas precisam ser ouvidas e respeitadas dentro do movimento socialista, o que quase nunca acontece. Segundo Elisabeth Souza-Lobo, no movimento do ABC paulista da década de 1970, houve uma tentativa de inserção das mulheres nesse movimento, no entanto, “reconhecidas as especificidades da trabalhadora na indústria, as reivindicações das mulheres não foram incluídas na pauta do sindicato, temendo ser confundido com os movimentos feministas que emergiam na época. Assim, o reconhecimento da diferença da mão-de-obra feminina não resultou na sua incorporação às reivindicações do movimento sindical”³.

Nós, mulheres trabalhadoras, não queremos somente o fim da exploração de nossa força de trabalho, mas também o fim daquilo que nos confere uma exploração mais acentuada: nossa configuração enquanto classe política, de acordo com a leitura que fazem de nossa genitália e as marcações sociais que nos são impostas (para que sejamos identificadas como o ser que pode ser subordinado a tudo o que os homens desejarem). Por isso, eu defendo não somente o fim das classes burguesa e trabalhadora, mas também o fim das classes homem e mulher, para além do modo de produção capitalista.”

¹ – ASSUNÇÃO, Diana. A precarização tem rosto de mulher.
² – Idem
³ – http://osocialemquestao.ser.puc-rio.br/…/17_OSQ_25_26_Danie…
Outras fontes:
– http://www.eldiario.es/…/engano-trabajo-asalariado-liberar-…
– SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade.