A vida imita a arte (ou a arte imita a vida?): literatura como forma de dominação e subjugação.

*Foto de uma das intervenções urbanas da artista Jenny Holzer, mostrando que a arte deve ser instrumento de luta política.

É cabível dizer que as produções que consumimos têm forte influência em quem nos tornamos, nas decisões que tomamos e – fazendo um recorte na microestrutura – nos relacionamentos que temos.

A dialética do sexo

As feministas precisam questionar não só toda a cultura ocidental, como a própria organização da cultura, e, mais, até a própria organização da natureza. Porém, para que possamos mudar a situação, precisamos saber como ela surgiu e se desenvolveu, e já falei disso aqui. Marx e Engels foram os primeiros a romper com a linha cartesiana de pensamento e pensar na história como dialética e materialista; isso significa ver o mundo como um processo de ação e reação, mais como um filme do que como um álbum de fotos. Os pensadores antes deles não fizeram se não pensar na história e nas desigualdades como uma questão da moralidade, em que a exploração acabaria pela boa vontade das classes dominantes. Numa sociedade sem classes (econômicas e sexuais), os interesses de todos os indivíduos seriam sinônimos dos da sociedade. Seria um erro tentar explicar a opressão das mulheres a partir duma interpretação estritamente econômica. Podemos perceber isso quando observamos o desenrolar da história.

Crítica feminista e crítica literária

Tanto na vida real como na ficção, os papéis sociais e a condição geral das mulheres têm sido construídos a partir de um conjunto de pressupostos, de valores e de uma moralidade ética determinada previamente por uma perspectiva de dominação patriarcal. Vale ressaltar, também, que para permanência e manutenção desse sistema, o mesmo se escora em instituições artificiais como o casamento, a erotização da subordinação, os ideais de beleza, etc.

Para manter toda uma classe em situação de subordinação – e, de certa forma, porém sem culpa nenhuma, compactuando com isso – essas instituições precisam tornar-se “desejáveis”, precisam ser um ideal. É aí que a arte tem um papel importante na construção da identidade feminina.

O resultado das narrativas ficcionais direcionadas para as mulheres têm sido limitar sua ação social autônoma, criar mitos justificadores, enraizar uma ideologia dominante e, finalmente, atribuir um lugar coadjuvante, secundário e menor, quase sempre irrelevante, às mulheres no desenvolvimento social.

Enfatizo, aqui, a importância da conscientização feminina acerca da necessidade de subvertermos os costumes e os mitos tradicionais, tais como as costumeiras inferioridade e subserviência femininas, a discriminação no estabelecimento de papéis sociais, o eterno feminino e a tradição tão cara aos românticos referente à idealização da mulher.

Dominação e autoritarismo são elementos que permeiam as situações sociais das mulheres e são, frequentemente, incorporadas, propositalmente ou não, em obras da literatura. A análise da situação cultural da mulher é relevante no sentido de verificar como ela é vista pelo Outro, como ela vê o outro e como vê a si mesma. Essa perspectiva está presente na obra ficcional por meio da ação das personagens. Como ocorre com as minorias, a voz da mulher sempre foi silenciada, o que a impediu de desenvolver uma linguagem própria, precisando recorrer à linguagem do gênero dominante. A conquista do nosso espaço acontecerá a medida que assumirmos nosso discurso e, consequentemente, realizarmos uma arte e uma crítica centradas na figura feminina para que, assim, ela adquira visibilidade e voz, saindo do silêncio milenar a qual fomos subjugadas. É aqui que acontece a travessia do invisível para o visível, do silêncio para a fala, e não deve ser uma atividade isolada.

As artes que consumimos quando adultos já servem de para guiarmos nossas ações, definirmos nossa cultura e nos formarmos enquanto sujeitos. Isso tudo pode – e geralmente acontece – operar num nível subconsciente. Vamos nos tornando a arte que consumimos. Precisamos, sempre que consumimos produções artísticas, lê-las com olhares críticos e através da cortina de recortes de opressões (gênero, classe e raça), para que a tradição dominante possa ser desmantelada. A literatura está sob o poder patriarcal e capitalista e dele ela precisa se distanciar.

Beauvoir traz, n’O Segundo Sexo, uma crítica que defende o princípio do conservadorismo masculino, daí a impossibilidade de mulheres serem representadas adequadamente por homens.

“A subjetividade do sujeito é expressa na textualidade: no posicionamento do narrador ante o mundo narrado, na construção do universo ficcional – nas noções de tempo e espaço, nas ações das personagens e na sua construção.”

A constituição do sujeito feminino traz consigo processos históricos que implicaram em transformações relevantes na sociedade – como o surgimento da propriedade privada, por exemplo. Para Marx e Engels, o ser humano não é o sujeito da história, pois pode agir apenas com base nas condições históricas criadas por outros indivíduos e sob as quais nasceu, utilizando os recursos materiais e de cultura já existentes, fornecidos por gerações anteriores.

 

Bibliografia:

 

Gênero e Literatura

Políticas Públicas para Mulheres

A Dialética do Sexo