A lei do silêncio

Não consigo esquecer o que aconteceu

mas ninguém mais se lembra.

A partir da discussão da IV Conferência Mundial, a Organização das Nações Unidas passou a considerar a violência de gênero contra as mulheres como uma questão além da manifestação de relações hierárquicas historicamente desiguais entre homens e mulheres: passou a considerar equidade (não gosto do conceito de ‘igualdade’) necessária para o desenvolvimento pleno dos direitos humanos e das liberdades individuais. Não que isso tenha diminuído em algum grau os índices de violência, mas foi a porta para lei Maria da Penha e para criação de Juizados Criminais Especializados em atendimento à mulher. Sabemos, porém, que a instituição serve aos homens, serve à supremacia masculina e à supremacia branca, então qualquer tentativa de reportar o crime será tida com retaliação, com questionamentos e levantamento de dúvidas quando a palavra da vítima.

Vemos que a própria terminologia pra tratar do tema é insuficiente:

* Violência contra mulher nomeia o objeto do fenômeno, aponta contra quem a violência é praticada. Não aponta, porém, o sujeito da ação. Quem está violentando as mulheres?

* Violência doméstica está mais presente no senso comum, designando o que é próprio da esfera privada (lembrando que a dicotomia público x privado serve de sustentação para essa cultura do estupro. O corpo da mulher é público, porém suas violências estão no âmbito do privado) e situa um ambiente que ocorre essa violência.

* Violência intrafamiliar é uma modalidade da violência que se passa dentro da família, que vem de dentro dela. “O Ministério da Saúde define que a violência intrafamiliar […] não se refere apenas ao espaço físico onde essa violência ocorre mas também às relações em que se constrói e efetua.”

* Violência de gênero é o fenômeno dentro de um contexto de relações de poder produzidas por construção social (socialização).

Vocês perceberam que, em nenhum momento, nomeia-se o sujeito da violência? Quem está nos violentando?

No Brasil, os serviços destinados à intervenção desse fenômeno estruturam-se em, basicamente, três eixos: delegacias especializadas no atendimento à mulher, centros e núcleos de atendimento à mulher e casas de abrigo/casas de passagem. Na cidade de Porto Alegre, mais especificamente, sabemos da insuficiência de políticas públicas que atendam as mulheres vítimas de violência doméstica. Quando essas mulheres decidem sair de um ambiente de agressão, estão se encaminhando para uma situação de violência institucional na qual muitas vezes a própria agressão é questionada.

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* NÃO não significa ‘convença-me’

 

A cultura do estupro é um assunto que exige constante vigilância visto que, para sobreviver, esse sistema econômico de produção precisa naturalizar uma série de violências contra a classe trabalhadora e contra – principalmente – as mulheres (fazendo os devidos recortes de raça e classe).

O mais importante é manter o estereótipo de abusador ideal: aquele cara completamente desconhecido que te ataca no beco escuro à noite quando tu estás sozinha.

Nada mais mentiroso e cruel que isso.

48% das mulheres agredidas declaram que a violência aconteceu em sua própria residência; no caso dos homens, apenas 14% foram agredidos no interior de suas casas (PNAD/IBGE, 2009).

77% das mulheres que relatam viver em situação de violência sofrem agressões semanal ou diariamente. Em mais de 80% dos casos, a violência foi cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo: atuais ou ex-companheiros, cônjuges, namorados ou amantes das vítimas. É o que revela o Balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher , da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR). Leia mais no Balanço 2014 do Ligue 180.

Confira as estatísticas completas aqui: aqui

Os casos de violência sexual por desconhecidos representam um número muito pequeno. Os agressores são os nossos amigos que colocam Rohypnol (o famoso boa noite cinderela) na nossa bebida, é o parceiro que nos agride, é o universitária que passa trote opressor nas calouras.

Recentemente, a cantora pop Lady Gaga laçou seu último single como forma de denúncia aos casos de estupro que vêm crescendo exponencialmente dentro do campus universitário. A universidade é um invólucro da sociedade.

[Aviso: gatilho de trauma] 

Apenas as vítimas sabem da luta que precisam travar para levar adiante a denúncia e abrir processo contra seu agressor. Não há política de assistência suficiente, não há sequer centros de referencias bem articulados que operem in full. O clipe mostra o processo inteiro das vítimas para lidar com o estupro.

Precisamos ruir as instituições, precisam queimar toda essa supremacia masculina e toda a cumplicidade que permeia o agressor a continuar agindo com impunidade. Precisamos ajudar umas as outras.

 

Companheira me ajuda, que eu não posso andar só

Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor