Agonia 704: um texto sobre depressão*

*Este texto pode conter alguns gatilhos de trauma. Eu, por exemplo, tenho depressão clínica grave (seguida de transtornos alimentares). Não foi fácil escrevê-lo

A depressão é uma doença que afeta anualmente cerca de 17 milhões de pessoas, causando grande sofrimento não apenas aqueles que padecem da doença, como também suas famílias e nós precisamos trazê-la para discussão. Ela é uma doença tal como a diabetes e precisa ser tratada – muitas vezes com medicação – e não menosprezada. Quando não tratada, a doença prejudica a autoestima, promove o consumo de álcool ou drogas, abala relacionamentos e a própria militância, e, às vezes, causa incapacidade e até mesmo a morte. Nota-se que no imperialismo (fase superior do capitalismo) surgem mais e mais casos de pessoas com quadro depressivo. De acordo com Marx, a relação capital, trabalho (e a divisão social do trabalho) e alienação promovem a coisificação ou reificação (que significa, literalmente, “objetificação”) do mundo, tornando-o objetivo, e suas regras devem ser seguidas passivamente pela classe operária. Essa humanização das coisas e coisificação das pessoas é crucial na formação do quadro depressivo: na sociedade de produção excedente, o ser humano é avaliado por sua capacidade quantitativa de produção para o mercado.

O que é a depressão

Uau, muita responsabilidade definir o que é a depressão. Usarei os conceitos da sociedade norte-americana de psiquiatria para que não caia no “achismo”. A depressão é um tipo de distúrbio mental que perturba o humor da pessoa. Os estados de humor podem ser considerados como um arco-íris, e cada pessoa experimenta essas cores cotidianamente. A depressão é comumente tratada como termo para tristezas que são em geral causadas por situações que passamos em algum momento da vida. O que diferencia essa tristeza comum de uma depressão clínica (ou distúrbio depressivo grave) é o sentimento de desânimo devastador, debilitante e duradouro que interfere com a vida da pessoa em casa, no trabalho e socialmente. A tristeza comum, aquela que advém de uma separação ou perda da pessoa amada, geralmente passa em um curto período de tempo (pode demorar um pouco mais, isso é muito subjetivo). O que difere totalmente da depressão clínica; essa, por sua vez, pode interromper gravemente a capacidade da pessoa de pensar e agir. Quando não tratada, a depressão grave pode ser perigosa. O pensamento suicida é uma parte comum desta doença; porém, raramente o paciente tem a força necessária para cometer suicídio quando a depressão atinge seu nível mais baixo e as tentativas geralmente acontecem quando o quadro depressivo diminui. Aqui que precisamos de atenção redobrada. A dor e a agonia são tão grandes que o paciente faz qualquer coisa que ponha fim a situação.

  • Depressão grave

A depressão grave, também conhecida como distúrbio depressivo grave, é o tipo mais comum da doença depressiva. Os efeitos dessa condição nas pessoas é que automaticamente elas deixam de sentir prazer nas atividades que antes significavam muito, sejam coisas pequenas ou grandes. No caso dos militantes, isso os afeta profundamente, deixando um sentimento de culpa e inutilidade. Estas mudanças emocionais são geralmente acompanhadas por alterações mentais e físicas como insônia, falta de memória ou dificuldade de concentração, perda de apetite, vários outros tipos de dores físicas e sofrimento emocional.

  • Sintomas:

– perda de peso significativa

– insônia ou sonolência excessiva

– movimentos físicos mais inquietos ou lentos do que de costume

– fadiga ou perda de energia

– sentimentos inadequados de inutilidade e/ou culpa

– incapacidade de pensar com clareza, se concentrar ou tomar decisões

– pensamentos recorrentes de morte, suicídio sem um plano específico, um plano para cometer suicídio ou uma tentativa de suicídio.

 

  • Depressão bipolar

A depressão bipolar afeta hoje em média mais de três milhões de pessoas ao redor do mundo. O principal sintoma desse quadro é a oscilação de humor em dois extremos: a tristeza profunda (depressão) e a euforia (mais conhecida no meio da psiquiatria como “crise de mania”). Na fase da mania, o humor se torna exageradamente otimista, animado, expansivo, ou, até mesmo, irritável. Estes sintomas podem se tornar perigosos, podendo dar origem a delírios. Na crise de mania, a pessoa apresenta uma autoestima inabalável e uma grande sensação de poder e controle. Esses elementos podem levar a gastos astronômicos no cartão de crédito e ao abuso de substâncias químicas. Neste caso, pode se fazer necessário um tratamento mais efetivo, como psicoterapia e medicamentos.

A depressão exerce um forte poder sobre seus pensamentos e emoções. Se você está deprimido, é provável que seus pensamentos sejam negativos, incoerentes e não coesos. As simples decisões (como escolher que camisa colocar para o trabalho) se torna uma tarefa quase impossível. A ansiedade também cumpre um papel crucial na piora do quadro da pessoa. Ela afeta cerca de 90% das pessoas deprimidas, e, junto com ela, o paciente é reprimido por um medo inexplicável.

As causas da depressão são as mais variadas, sendo necessária uma análise sobre cada caso. Distúrbios hormonais, câncer, distúrbios auto-imunes, doenças do sistema cardiovascular e deficiência de vitaminas (em especial a Vitamina D, de acordo com diversos pesquisadores), abuso de álcool e drogas e alguns medicamentos podem ser as causas físicas da depressão. As causas mais comuns, porém, ainda estão no campo emocional e ambiental.

Observa-se que diagnósticos de depressão e outros distúrbios psicológicos graves ocorrem com mais frequência em mulheres do que homens. Neste ponto, podemos analisar esse fato sob o escopo da opressão que as mulheres sofrem no sistema capitalista-patriarcal, porém isso não significa que nossos camaradas estejam imunes à doença. Vivemos sob violências sistemáticas. Muitas de nós sofremos o que os psiquiatras chamam de “estresse pós-traumático”.

Um dos principais pontos para analisar essa informação é o da propriedade privada: com seu surgimento, foi estabelecido, de vez, os papeis do homem e da mulher. O homem assumia o controle da produção, tornando-a seu domínio. Para a manutenção desse sistema e para que ele fosse passado às próximas gerações, a mulher precisaria ter um forte laço com o homem. É aqui que começa a dominação e o controle sobre nossa sexualidade: o homem precisava garantir que a prole carregasse seus genes. O peso do papel social que recai sobre a mulher é insustentável. Já falei sobre isso aqui.

Como ajudar as/os camaradas com depressão

Não é simples a tarefa de ajudar uma/um camarada com depressão. Por vezes, q pessoa pode se sentir num beco sem saída, sem saber como agir e o que esperar de resposta da(o) companheira(o). Não há necessidade, porém, de se pisar em ovos com os companheiros que apresentam um quadro depressivo. Conversas honestas podem ajudar muito na descoberta da doença (considerando que, às vezes, o próprio militante não vai se dar conta da depressão). Quando o militante já traz o quadro depressivo, também não há necessidade de subestimar o/a camarada, basta perguntar como se sente, de que maneira pode ajudar sem forçar os limites e traçar um plano para o militante cumprir com suas atividades e nunca cumpri-las em seu lugar.

A depressão, com frequência, vem com “auto-boicote”: o militante vai se achar incapaz de cumprir as atividades e, consequentemente, pode não cumpri-las, o que gera um grande sentimento de culpa. É crucial o papel da assistência para traçar um plano, fazer um calendário, pensar junto com o militante e jamais menosprezar suas dificuldades.

Nem todos precisam seguir um tratamento com medicação, às vezes basta o coletivo reunir com a frequência necessária, basta um assistente mais atento, basta dar para os camaradas a carga de tarefas que eles vão conseguir cumprir. Fazer as tarefas junto com o militante não significa que o assistente subestima suas capacidades, ou que não responsabiliza a/o camarada. Se nós não nos preocuparmos com a saúde e o bem-estar dos nossos companheiros, não vai ser a burguesia que vai cumprir esse papel, sendo que ela lucra milhões anualmente com a indústria farmacêutica. Nós, comunistas revolucionários, cuidamos uns dos outros e dedicamos nossa vida a lutar por uma sociedade mais justa, igualitária e livre de opressão: a sociedade socialista.