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A casa e a água: considerações sobre sonhos e análise de sonhos

“Nenhum símbolo onírico pode ser separado da pessoa que o sonhou, assim como não existem interpretações definidas e específicas para qualquer sonho.”
C. G. Jung

“A questão da dimensão histórica e cultural do sujeito psicológico aparece de forma não sistemática no pensamento junguiano. Ela implica a formulação de que o sujeito é constituído historicamente e, consequentemente, moldado em uma relação dialética com um universo simbólico marcado por características histórico-culturais.”.

Para Freud, os sonhos eram apenas uma fachada do inconsciente. Já Jung os via muito além, como veículos de comunicação do inconsciente e via a necessidade de interpretá-los simbólica e imageticamente.

Jung, em suas palestras e escritos sobre análise de sonhos, deixa muito claro que se deve levar em conta uma série de características do paciente para gerar uma interpretação, sendo a idade uma delas, já que na segunda metade da vida tende-se a negligenciar muitas questões – pendentes ou não – da primeira metade. Porém, a postura de Jung é fenomenológica, ou seja, a postulação varia grandemente em termos individuais.

Obviamente, a interpretação só atinge um determinado grau de segurança após uma série de sonhos e interpretações menores. Tem-se que ter, também, consciência de que tudo que se sabe sobre o paciente (e estendo isso para todas as pessoas que cruzam nosso caminho, inclusive nós mesmos) é projeção e preconceito (no sentido de pré-conceito). Para Jung, sonhos têm interpretações objetivas, pois eles não se propõem a esconder características, mas revelá-las. A relação entre consciente e inconsciente é de compensação e complementaridade.

A primeira etapa da vida é a de expansão do self (do eu), procurando atingir um grau de solidez, fixar um lugar dentro de si e em relação ao Outro. Eu já estou na segunda metade dessa análise. Trazendo a análise para a “micropolítica”, eu sempre tenho sonhos muito significativos, mas esse superou as expectativas. Passei a semana jogando Tarot (e isso também foi objeto de estudo do Jung), o que influenciou bastante na circulação de energia. A interpretação que dei para esse sonho tem mais fundamento na linha de Jung do que de qualquer outra forma de terapia. Lembrar do sonho e arriscar uma interpretação, mesmo que seja apenas dos símbolos isoladamente, é entrar em contato com a própria profundeza, é correr o risco de chegar no território de Hades.

O sonho:

Estava eu numa belíssima casa de vidro. Lindos tapetes na cor bege, daqueles fofinhos. Mármore, pias lindas. Porém essa casa estava sendo inundada e eu não tinha como consertá-la. Água cristalina caía do teto. Chamei, então, meu pai (aqui não sei se o pai biológico ou o pai de santo) que a consertou prontamente. Sequei a casa, cuidei dos móveis, estava linda. Porém, não havia animais. “Pai, não tem um bichinho aqui. Não pode. Casa tem que ter bicho.”. Pois ele me trouxe um gato preto enorme. “Agora sim é um lar”.

O primeiro elemento mais marcante desse sonho (porém o segundo mais significativo) é a casa. O elemento casa é amplamente interpretado (desde filosofias orientais e de povos originários) como sendo nossa mente. Na linha Feng-Shui, cada uma das divisões da casa possui símbolos próprios. A primeira zona é a entrada da casa. Aqui, é nossa sensação de acolhimento, de proteção e segurança. Também, de uma perspectiva mais de fora, é como os outros vêem a nossa fachada, nossas máscaras, sem necessariamente perceber como é no interior. A sala de estar, que é onde se passa a maior parte do sonho, é um ambiente de convergência entre todos os membros dessa casa. É aqui que acontece a harmonia entre todas as nossas configurações e funcionamentos. É onde nos acolhemos e acolhemos aos outros. A cozinha tem uma simbologia de autocura, de nutrição. Primeiro, nós temos, depois, nós damos. A simbologia do banheiro, para Feng-Shui, é que a porta sempre deve estar fechada por ser um ambiente que muita “sujeira”, o que não é uma interpretação linear. A interpretação que mais encontra eco em mim é que o banheiro é o espaço de limpeza, de livramento de tudo aquilo, toda a carga, que trouxemos para dentro de casa. Isso tudo vai embora com a água, tanto a limpeza externa quanto a limpeza interna. Um bom banho pode ser muito terapêutico.

O que nos traz ao nosso segundo elemento e, pra mim, o principal deles: a água. O livro “Curso de Tarot”, de Veet Pramad, traz um texto chinês do século XII que diz o seguinte: “De todos os elementos, o sábio tomará a Água como sua preceptora. A Água é submissa, mas conquista tudo. Apaga o Fogo e, vendo que pode ser derrotada, foge como vapor, tomando nova forma. Carrega a Terra macia e, quando é desafiada pelas rochas, procura um caminho a seu redor… Satura a atmosfera de modo que o Vento morre. A Água cede passagem para os obstáculos com uma humildade enganadora, pois nenhum poder pode impedi-la de seguir seu caminho traçado rumo ao mar.” A Água é o primeiro princípio, a geradora de toda a vida. E a destruidora dela, também. É na água do útero que nos desenvolvemos para depois, apenas, encontrarmos os outros elementos. Pramad segue: “A Água representa as emoções profundas e a reações sentimentais num grande leque, que vai dos medos e as paixões compulsivas até o amor livre de apegos e o Amor Universal ou devocional.”. A Água está diretamente ligada aos processos mais profundos da psique. Ela também possui aspectos de outros elementos, fogosa quando é mar, terra quando é fértil. É um elemento feminino e passivo, o que não significa que não possa ser devastador. Simboliza, também, o espírito, muito considerado na psicologia Junguiana, entrar e sair da água é entrar e sair da consciência e da inconsciência, coisa que fazemos muito nos sonhos. O mais antigo deus egípcio, “Num”, simbolizava a água: turbulência, escuridão e falta de limites. Cristo andando sobre a água é a representação do espírito sobre a matéria.

No meu sonho, água cristalina são emoções tranquilas, livres de dor, mas que acarretam preocupação: se elas tomarem conta, a casa inunda. Assim mesmo, atribuo um sentido bem literal: ela assume qualquer forma que você der para ela, porém sem jamais controla-la.

A figura paterna no sonho é o porto seguro, é a ajuda que precisamos quando estamos afundando. Essa ajuda pode vir de qualquer lugar, de qualquer referência.

Jung afirmou que para analisar o sonho, não podemos separá-lo do sujeito e precisamos compreender esse sujeito inserido no seu contexto histórico e cultural. Então, nada mais junto que uma análise mais espiritual desse sonho.

Os gatos possuem uma forte ligação com o mundo espiritual, são frequentemente usados como portais do que vem e do que vai. Limpam a casa, renovam as energias, levam as cargas. Uma casa sem animais não é uma casa, por isso “agora sim é um lar”.

Que tipo de sentimento estou evitando que me inunde e seria isso uma coisa ruim?

 

Bibliografia:

https://www.youtube.com/watch?v=5Z1CshvxPZ4

https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/76533

https://www.redalyc.org/pdf/1150/115013460010.pdf

https://www.youtube.com/watch?v=fJrO5OnsE0k

Sou a Camila Souza. Estudante de Direito, ex estudante de Letras, professora de inglês e literatura, sagitariana e tomo chá mesmo no verão.

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