BEGIN TYPING YOUR SEARCH ABOVE AND PRESS RETURN TO SEARCH. PRESS ESC TO CANCEL

Deep Green Resistence: Liberais vs Radicais

No início da minha militância feminista, não tive acesso a Beauvoir, Keith, Lorde, Davis ou Dworkin (pra citar apenas três mulheres fantásticas que teorizaram sobre uns pilares muito importantes da luta pela liberação das mulheres). Sendo assim, não problematizava muito meus alinhamentos políticos. Os casos que me chegam aos ouvidos são quase sempre os mesmos: “Comecei no liberal.”

Mas no quê, exatamente, se pauta o feminismo liberal e a luta dos liberais?

Lierre Keith, escritora americana, feminista e ambientalista radical, fala pelo vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=YkXrS0NnQM0) da Deep Green Resistence sobre as principais diferenças entre as pautas liberais e as radicais.

Faço aqui, então, uma quase transcrição – com algumas notas pessoais – do material de Keith.

Liberal VS Radical

São posições que tendem a tencionar, já que são paralelos.

O ponto principal do liberal é o individualismo (o que é muito diferente de individualidade); os liberais acreditam que a sociedade é feita de indivíduos. De fato, o individualismo e sua subjetividade são tão sagrados que se dizer e se identificar como parte de um grupo é visto como um insulto, uma afronta.

O que é totalmente diferente do radical: a sociedade não é feita de indivíduos, mas de grupos de pessoas. Na versão original de Marx, isso era visto como classe econômica. Essa é a dívida de todos os radicais com Karl Marx, sendo eles marxistas ou não. Essa sacada foi dele: a sociedade é feita de grupos e alguns desses grupos possuem poder sobre os outros.

Como ocorre a mudança política? Tu te identifica com determinado grupo de pessoas, compartilhando uma causa comum com tua condição.

Outra grande divisão é no que concerne a realidade social. Os liberais são idealistas. A realidade social, para eles, é feita de atitudes, de ideias, é um fenômeno mental.

Do lado dos radicais, o materialismo, em oposição, opera da seguinte maneira: a sociedade é organizada por um sistema concreto de poder; não por ideias ou pensamentos, mas por instituições materiais; e a solução para opressão seria desmantelar esse sistema tijolo por tijolo.

“Então, os liberais vão dizer: “Nós temos que educar, educar. educar.” e os radicais vão dizer: “Na verdade, nós temos que pará-los.”

É claro que os radicais acreditam na educação e na mudança de pensamento, mas isso sozinho não faz revolução, não muda a realidade social.  Porque o mundo não é um estado interno, não é um estado mental. O ponto da educação é construir um movimento que possa derrubar essas estruturas opressivas.

“Se tu remover o poder da equação, a opressão vai parecer ou voluntária, ou natural. Se tu não souber que as pessoas são formadas por essas condições sociais, como explicaria a subordinação?

“Ou essas pessoas não são humanas – então são naturalmente diferente de nós – por isso são subordinadas ou, de alguma maneiras, são voluntárias da subordinação. São essas as opções que ficam. Por exemplo: raça e gênero são vistos como biológicos. Eles deveriam ser fisicamente reais, não é mesmo? Bom, eles não são, eles são politicamente reais, ok? É a subordinação brutal e visceral que cria essas coisas. A ideologia afirma que são biológicos.” L. K.

Claro que há diferenças óbvias entre brasileiros e australianos, mas essas diferenças só são importantes porque o poder precisa que assim o façam, de alguma maneira.

Se tu não analisar pelo ponto de vista da biologia, resta o voluntarismo. E isso é algo que os liberais não entendem.” L.K.

“Não pode haver nenhum sistema generalizado de opressão sem o consentimento do oprimido.”

Florynce Kennedy

Significa que os poderosos – os capitalistas, os masculinistas, os supremacistas brancos, quem quer que seja – não suportariam um vasto número de pessoas armadas 24h. Para sua sorte, eles não precisam.

90% de qualquer opressão é consensual (e consensualismo é algo que radicais discutem com frequência). Isso não significa que é nossa culpa, ou que nós somos responsáveis por isso. As pessoas toleram a opressão usando três mecanismos psicológicos: negação, acomodação e consentimento.

Todos que vivem sob dominação aprendem cedo na vida que precisam viver de acordo com as regras, andar na linha, ou sofrerão as consequências. E essas consequências só precisam ser aplicadas de vez em quando para serem efetivas. A partir desse ponto, a psiqué traumatizada policiará a si mesma.

Há um ditado no Battered Woman’s Movement que diz: “Uma agressão por ano manterá uma mulher calada.” Então, de vez em quando já é o bastante.

Qualquer sinal de resistência gera um continuum que começa com o desprezo social, atravessa todo o espectro da violência, até culminar em assassinato. É assim que opressão funciona, no final das contas, nós acabamos consentindo. Porém, a resistência pode dar um jeito de acontecer, as pessoas vão insistir na sua humanidade.

A diferença final entre liberais e radicais é a abordagem à justiça. Para os liberais, o poder é invisível. Com isso, a justiça é alcançada por meio de adesão a esses princípios morais que são abstratos. Para os radicais, a justiça não pode ser cega. A dominação só será desmantelada tirando os direitos dos poderosos e redistribuindo para o resto de nós. Então, precisamos nomear o mal e pensar numa compensação específica para poder aplicá-la. Deixando a justiça cega, apenas servimos de mantenedores de opressões e poderes já instaurados.

Um exemplo que Kieth traz no segundo vídeo é de um caso de uma denúncia de discriminação sexual. Foi uma ação em massa contra um estabelecimento movida por mulheres que não estavam conseguindo promoções, licença maternidade e etc. Elas perderam, já que a constituição serve aos homens brancos heterossexuais, e uma das alegações do juiz – no caso um juiz federal – foi a seguinte: “Isso não é um caso de discriminação contra as mulheres porque se os homens ficassem grávidos eles também não teriam licença maternidade.” Não há princípio mais abstrato que isso!

Cito, aqui, Marilyn Frye (leitura super recomendada, incrível) em Políticas da Realidade:

“Opressão é um sistema de forças e barreiras inter-relacionadas que reduz, imobiliza e molda pessoas que pertencem a um certo grupo e efetiva sua subordinação a outro grupo.”

Opressão não é uma atitude, é um sistema de poder.

A frase acima é radicalismo puro traduzido numa citação coerente e bem elaborada. Uma analogia interessante é a do pássaro dentro da gaiola: se tu é adepto da ideologia liberal, tu vai ver as barras da gaiola como barras separadas, aleatórias. Se tu é radical, as barras estarão inter-conectadas, elas serão um conjunto.

Espero que essa pequena contribuição possa servir, o texto ainda está em construção :)

Sou a Camila Souza. Estudante de Direito, ex estudante de Letras, professora de inglês e literatura, sagitariana e tomo chá mesmo no verão.

Leave a comment

Please be polite. We appreciate that. Your email address will not be published and required fields are marked