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O Perdão que nunca chega

O perdão é sobre muitas coisas. A primeira face do perdão é o esquecimento. Se eu morresse hoje, talvez eu encontraria uma face do perdão. Pois eu não me lembraria mais, nem de quem eu fui, nem da minha história, nem de quem ele foi pra mim. Eu só sentiria alguma coisa, mas eu não me lembraria. Então acho que essa primeira face do perdão tem a ver com a morte. Quando a gente pensa em pessoas que adoecem, pais, mães que a gente tem um rancor muito forte, a gente pensa no perdão. É bem mais fácil perdoar pessoas mortas ou que estão morrendo, porque elas não estão vivas fazendo coisas que podem te machucar de novo. Então perdoar em vida é algo difícil. Talvez a primeira coisa que eu aprendi tentando lembrar da  história do meu namoro abusivo é que de certa forma não adianta nada contar sobre ele. Eu posso escrever tudo que eu lembro. A partir daí, as pessoas podem lembrar das próprias dores e se identificar, ou podem negar e dizer que não aconteceu. Vale mesmo a pena? – eu me pergunto. Talvez não. Todas as vezes que eu achei que tinha perdoado se basearam no esquecimento. Esqueci como se eu tivesse morrido e a pessoa que vive hoje é outra. Mas eu não sou outra pessoa, eu sou a mesma. E se no meu relacionamento atual eu ainda tenho medo de que as coisas do relacionamento abusivo voltem a acontecer, então eu não perdoei.

 

Se eu ainda me sinto mal quando eu olho aquela pessoa se dar bem, ou quando eu olho o quanto aquele grupo de amigos antigo ainda defendem ele, eu sei que eu ainda não perdoei. Acho que a segunda face do perdão é a morte do ego. E eu fico pensando… eu estar certa nesta história, ou ter sido vítima… tudo isso sou eu? Realmente sou eu? Se eu morresse, essa história seria minha? Eu seria aquela pessoa, aquela mulher que foi a vítima? Ou talvez, se ninguém nunca soubesse que isso aconteceu, então… isso ainda faria parte da minha história? Eu, minha adolescência, sem ela eu não seria quem eu sou, sem ter tido esse relacionamento, eu poderia não entender outras mulheres como eu entendo agora, faz parte de mim, ao mesmo tempo minha alma continua intacta. E meu corpo…

 

O esquecimento e o ego estão todos na cabeça, mas chega num ponto em que o perdão está só no corpo. A gente sente que não perdoou totalmente quando nosso corpo fala. Pesa. E nosso corpo mostra que a gente ainda está grudado nas ações daquela pessoa. O perdão nunca chega pois nosso corpo foi uma das principais coisas que sofreram. Se eu pensar nas humilhações, bom, minha mente já consegue se esquecer de como elas foram, mas meu corpo não. O corpo que apanhou, que tomou cusparadas, que foi machucado, invadido, ele é o mesmo. Não tem como mudar o meu corpo. Tem como mudar minha mente, tem como mudar de ideia… Mas o corpo continua o mesmo. Pensando nisso, o perdão vem pelo corpo. E o corpo é só seu, não da outra pessoa que fez o que fez contigo. Se o perdão no corpo só acontece em ti, então é você que tem que perdoar as coisas que você deixou que acontecesse com seu corpo. Por qualquer motivo que seja. Se for pensar, foi sua mente que lhe condicionou a estar em um lugar em que seu corpo era maltratado. Por isso, a terceira face do perdão e talvez a mais importante é o autoperdão.

 

O perdão nunca chega porque é algo constante. Chega, de chegar e acabar. Ele nunca chega, nem acaba.

Graduanda em Letras. Estudante das diferentes religiões e doutrinas. Sou uma pessoa bem netuniana então eu acho difícil falar sobre mim.

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