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O violino na sala

Mesmo no bonito pizzicato do violino que vinha da sala ao lado, a única palavra que ecoa na mente é suicídio. Assim mesmo, a palavra escrita e crua, como um letreiro ou algo cravado com as agulhas para tatuagem. Não é algo que se possa apagar com facilidade. Não é algo que saia dali. Colocar a palavra de lado também não é uma possibilidade, mesmo o dicionário sendo tão grande e tão vasto e tendo tantas línguas na bagagem. Suicide. Suicídio. Suicidio. Francês, Inglês, Português e Espanhol. Praticamente mesma escrita, praticamente a mesma fonética. Mas como os pensamentos chegaram até aqui? Não sabia. Sabia, porém, que a graduação em Letras não a tinha preparado pra escrever bons contos. Sequer conseguia discorrer para a psiquiatra como gostaria de morrer ou porquê. Ela apenas gostaria. É como estar jogada no deserto há dias sem água ou comida e de repente surgir um copo de água com gelo. O desejo da água é tão intenso, tão poderoso, porém a força pra chegar até ela é quase inexistente. É como uma mulher bonita no bar, de acordo com Bukowski – que ela odiava, aliás, mas precisava concordar com aquele velho bêbado. O suicídio é como uma mulher bonita no bar, queremos, porém não conseguimos. Ela se identifica com a dor, cuja companhia foi a única que sobrou depois de tantas recaídas e de tanto isolamento. Só sobrou a dor e a angústia. Vocês já tentaram levantar de manhã com um elefante sentado no peito de vocês? É assim que ela se sentia todos os dias. Abrir os olhos era abrir os olhos pra dentro da alma e ver ali o cinza. As cores já não existiam há muito tempo, ela nem acreditava ser capaz de vê-las novamente. Respira. Coloca os pés no chão. O toque do chão gelado percorria o corpo todo. Os sentidos estavam todos muito aguçados, tudo a incomodava exponencialmente. Ela sentia que ia quebrar, quase quebrava, mas levantava. Havia dois núcleos lutando incessantemente um contra o outro como dois gladiadores. O núcleo que queria o descanso e o núcleo que queria continuar. E a palavra é continuar mesmo, viver é uma exigência que ela não fazia pra si. Ela já não sabia como era isso, viver. Um conceito tão distante da realidade e tão difícil de conceber. Como as pessoas viviam? Ela não entendia. Ela já não entendia muita coisa, tinha apenas aceitado que o cinza ia permanecer e tentava manter o núcleo que queria continuar, vencendo. Ela sabia que quando o núcleo que queria continuar já não tivesse mais força, coragem ou determinação (determinação? É uma palavra aplicável, aqui?) teria problemas. Mesmo com o pizzicato bonito do violino que vinha da sala, lembrando-a os dias em que ela mesma tocava aquele violino e achava difícil puxar as cordas e acertar a afinção, a única palavra que ecoava nela era suicídio. Maldito Bukowski. Malditas cores.

Sou a Camila Souza. Estudante de Direito, ex estudante de Letras, professora de inglês e literatura, sagitariana e tomo chá mesmo no verão.

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