O violino na sala

Mesmo no bonito pizzicato do violino que vinha da sala ao lado, a única palavra que ecoa na mente é suicídio. Assim mesmo, a palavra escrita e crua, como um letreiro ou algo cravado com as agulhas para tatuagem. Não é algo que se possa apagar com facilidade. Não é algo que saia dali. Colocar a palavra de lado também não é uma possibilidade, mesmo o dicionário sendo tão grande e tão vasto e tendo tantas línguas na bagagem. Suicide. Suicídio. Suicidio. Francês, Inglês, Português e Espanhol. Praticamente mesma escrita, praticamente a mesma fonética. Mas como os pensamentos chegaram até aqui? Não sabia. Sabia, porém, que a graduação em Letras não a tinha preparado pra escrever bons contos. Sequer conseguia discorrer para a psiquiatra como gostaria de morrer ou porquê. Ela apenas gostaria. É como estar jogada no deserto há dias sem água ou comida e de repente surgir um copo de água com gelo. O desejo da água é tão intenso, tão poderoso, porém a força pra chegar até ela é quase inexistente. É como uma mulher bonita no bar, de acordo com Bukowski – que ela odiava, aliás, mas precisava concordar com aquele velho bêbado. O suicídio é como uma mulher bonita no bar, queremos, porém não conseguimos. Ela se identifica com a dor, cuja companhia foi a única que sobrou depois de tantas recaídas e de tanto isolamento. Só sobrou a dor e a angústia. Vocês já tentaram levantar de manhã com um elefante sentado no peito de vocês? É assim que ela se sentia todos os dias. Abrir os olhos era abrir os olhos pra dentro da alma e ver ali o cinza. As cores já não existiam há muito tempo, ela nem acreditava ser capaz de vê-las novamente. Respira. Coloca os pés no chão. O toque do chão gelado percorria o corpo todo. Os sentidos estavam todos muito aguçados, tudo a incomodava exponencialmente. Ela sentia que ia quebrar, quase quebrava, mas levantava. Havia dois núcleos lutando incessantemente um contra o outro como dois gladiadores. O núcleo que queria o descanso e o núcleo que queria continuar. E a palavra é continuar mesmo, viver é uma exigência que ela não fazia pra si. Ela já não sabia como era isso, viver. Um conceito tão distante da realidade e tão difícil de conceber. Como as pessoas viviam? Ela não entendia. Ela já não entendia muita coisa, tinha apenas aceitado que o cinza ia permanecer e tentava manter o núcleo que queria continuar, vencendo. Ela sabia que quando o núcleo que queria continuar já não tivesse mais força, coragem ou determinação (determinação? É uma palavra aplicável, aqui?) teria problemas. Mesmo com o pizzicato bonito do violino que vinha da sala, lembrando-a os dias em que ela mesma tocava aquele violino e achava difícil puxar as cordas e acertar a afinção, a única palavra que ecoava nela era suicídio. Maldito Bukowski. Malditas cores.

Relatos da depressão – sobre o elefante branco no meio da sala

Esta última recaída foi uma das mais difíceis desde o quadro depressivo agudo que eu tive em 2014.

Como uma forma de manter minha comunicação com o mundo exterior, lancei uma série alguns relatos no Facebook que renderam muitos comentários, amor, compartilhamentos e mensagens inbox de superação e até mesmo pedidos de ajuda.

Falar abertamente sobre o distúrbio que mata 800 mil pessoas todos os anos é falar abertamente sobre o elefante branco que vive no meio da nossa sala mas todos preferem acreditar que ele não existe. Recebi muitos relatos, muitos agradecimentos de pessoas que se identificaram com meus relatos e sequer sabiam que tinham depressão.

Espero, sempre, ajudar <3

Deixo aqui, então, meus relatos:

 

23 de julho · Canoas ·

 Relatos da depressão que ninguém quer saber mas vou falar mesmo assim:

A depressão é uma doença (sim, doença, bem como cálculo renal ou diabetes) incapacitante. A dor e a agonia são insuportáveis, o menor ato – até pisar no chão – se torna um fardo. Teu corpo fica 10× mais pesado, como se tu carregasse sacos de batatas nas costas. Parece que tu vais quebrar a qualquer momento.

Porém, cada quadro depressivo carrega suas pequenas vitórias: hoje, levei o lixo pra fora ♡

 

______________________________________________________________

17 de agosto · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão, parte II:

O processo de saída de um quadro depressivo é delicado, muito delicado. O prazer sentido nas atividades antes feitas vai retornando aos pouquinhos, o que nos faz querer abraçar o mundo todo (de novo). Assim, é muito fácil termos dias difíceis (de novo) e isso é frustrante pois parece que o quadro nunca, nunca vai melhorar.

O que eu digo? Paciência. Muita paciência. Vai melhorar, sim. Se alguma atividade pesar, não faça. Ou faça com ajuda. E não se culpe por não conseguir.

Além disso, indico muito suco de laranja e chá de laranja com especiarias (cravo e canela).

Não tem nada que um chá e um suco de laranja não resolva  (e nada que uma revolução socialista também não resolva, já que precisamos transformar a dor em luta, mas isso dá outro post ♡)

______________________________________________________________

23 de agosto às 20:25 · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão, parte III:

Fui pra academia hoje.

Isso já diz o suficiente.

______________________________________________________________

Relatos da depressão, parte IV:

O quadro depressivo possui três fases: o início da recaída (agressividade, distúrbio no sono – e por vezes na alimentação -, falta de memória, cognição afetada), a queda mesmo (a fase não-consigo-sair-da-cama) e, na fase da melhora, a oscilação.

Estou na fase de oscilações.

Alguns dias são bons, alguns são péssimos e outros são muito ruins. Tive 4 dias ruins seguidos que eu me fechei tanto que nem com a namorada eu conversava (coitada, pagando o pato).

Hoje acordei muito bem, mas com uma sinusite da porra. Se a mente cala, o corpo grita.

 

_______________________________________________________________

12 de setembro às 14:34 · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão (e ansiedade) parte V:

Hoje temos prova de Penal II: teoria do crime.

Estamos tentando não sair por aí correndo gritando STALIN MATOU FOI POUCO. Até agora, com sucesso. Mas são apenas 14h33.

 

_______________________________________________________________

Relatos da depressão (e ansiedade), parte VI:

Não saímos por aí gritando STALIN MATOU FOI POUCO sem roupa e com olhos esbugalhados.

Mas a ansiedade me deixa com o corpo trêmulo, a voz embargada, me falta o ar e me aperta o peito. Não consigo prestar atenção na aula de Civil (e acho que Teoria das Normas é bem importante). Tou aqui, então, comendo o fini tubes que a mozona me deu (valeu, mozao).

Marx está comigo!

_______________________________________________________________

Relatos da depressão, parte VII:

Eu sobrevivi a uma das piores recaídas que eu já tive (tirando aquela fase suicida lá em 2014 em que, também, sobrevivi a duas tentativas).

Sobrevivi a todo o processo das oscilações, toda dor, toda angústia e toda a agressividade (nem menciono as alucinações).

A maré está favorável por aqui. Os ventinhos frescos que anunciam o fim do inverno fazem só pequenas ondinhas, sem grande caos. Já posso brincar de jogar pedrinhas no lago pra vê-lo balançar. Já se aprochega a fase da calmaria.

Já estou bem ♡

Essa foto é dessa manhã, quando a tempestade já se encaminhava pro alto mar.

 

14358643_1221317814556014_4425172521607275551_n

Agonia 704: um texto sobre depressão*

*Este texto pode conter alguns gatilhos de trauma. Eu, por exemplo, tenho depressão clínica grave (seguida de transtornos alimentares). Não foi fácil escrevê-lo

A depressão é uma doença que afeta anualmente cerca de 17 milhões de pessoas, causando grande sofrimento não apenas aqueles que padecem da doença, como também suas famílias e nós precisamos trazê-la para discussão. Ela é uma doença tal como a diabetes e precisa ser tratada – muitas vezes com medicação – e não menosprezada. Quando não tratada, a doença prejudica a autoestima, promove o consumo de álcool ou drogas, abala relacionamentos e a própria militância, e, às vezes, causa incapacidade e até mesmo a morte. Nota-se que no imperialismo (fase superior do capitalismo) surgem mais e mais casos de pessoas com quadro depressivo. De acordo com Marx, a relação capital, trabalho (e a divisão social do trabalho) e alienação promovem a coisificação ou reificação (que significa, literalmente, “objetificação”) do mundo, tornando-o objetivo, e suas regras devem ser seguidas passivamente pela classe operária. Essa humanização das coisas e coisificação das pessoas é crucial na formação do quadro depressivo: na sociedade de produção excedente, o ser humano é avaliado por sua capacidade quantitativa de produção para o mercado.

O que é a depressão

Uau, muita responsabilidade definir o que é a depressão. Usarei os conceitos da sociedade norte-americana de psiquiatria para que não caia no “achismo”. A depressão é um tipo de distúrbio mental que perturba o humor da pessoa. Os estados de humor podem ser considerados como um arco-íris, e cada pessoa experimenta essas cores cotidianamente. A depressão é comumente tratada como termo para tristezas que são em geral causadas por situações que passamos em algum momento da vida. O que diferencia essa tristeza comum de uma depressão clínica (ou distúrbio depressivo grave) é o sentimento de desânimo devastador, debilitante e duradouro que interfere com a vida da pessoa em casa, no trabalho e socialmente. A tristeza comum, aquela que advém de uma separação ou perda da pessoa amada, geralmente passa em um curto período de tempo (pode demorar um pouco mais, isso é muito subjetivo). O que difere totalmente da depressão clínica; essa, por sua vez, pode interromper gravemente a capacidade da pessoa de pensar e agir. Quando não tratada, a depressão grave pode ser perigosa. O pensamento suicida é uma parte comum desta doença; porém, raramente o paciente tem a força necessária para cometer suicídio quando a depressão atinge seu nível mais baixo e as tentativas geralmente acontecem quando o quadro depressivo diminui. Aqui que precisamos de atenção redobrada. A dor e a agonia são tão grandes que o paciente faz qualquer coisa que ponha fim a situação.

  • Depressão grave

A depressão grave, também conhecida como distúrbio depressivo grave, é o tipo mais comum da doença depressiva. Os efeitos dessa condição nas pessoas é que automaticamente elas deixam de sentir prazer nas atividades que antes significavam muito, sejam coisas pequenas ou grandes. No caso dos militantes, isso os afeta profundamente, deixando um sentimento de culpa e inutilidade. Estas mudanças emocionais são geralmente acompanhadas por alterações mentais e físicas como insônia, falta de memória ou dificuldade de concentração, perda de apetite, vários outros tipos de dores físicas e sofrimento emocional.

  • Sintomas:

– perda de peso significativa

– insônia ou sonolência excessiva

– movimentos físicos mais inquietos ou lentos do que de costume

– fadiga ou perda de energia

– sentimentos inadequados de inutilidade e/ou culpa

– incapacidade de pensar com clareza, se concentrar ou tomar decisões

– pensamentos recorrentes de morte, suicídio sem um plano específico, um plano para cometer suicídio ou uma tentativa de suicídio.

 

  • Depressão bipolar

A depressão bipolar afeta hoje em média mais de três milhões de pessoas ao redor do mundo. O principal sintoma desse quadro é a oscilação de humor em dois extremos: a tristeza profunda (depressão) e a euforia (mais conhecida no meio da psiquiatria como “crise de mania”). Na fase da mania, o humor se torna exageradamente otimista, animado, expansivo, ou, até mesmo, irritável. Estes sintomas podem se tornar perigosos, podendo dar origem a delírios. Na crise de mania, a pessoa apresenta uma autoestima inabalável e uma grande sensação de poder e controle. Esses elementos podem levar a gastos astronômicos no cartão de crédito e ao abuso de substâncias químicas. Neste caso, pode se fazer necessário um tratamento mais efetivo, como psicoterapia e medicamentos.

A depressão exerce um forte poder sobre seus pensamentos e emoções. Se você está deprimido, é provável que seus pensamentos sejam negativos, incoerentes e não coesos. As simples decisões (como escolher que camisa colocar para o trabalho) se torna uma tarefa quase impossível. A ansiedade também cumpre um papel crucial na piora do quadro da pessoa. Ela afeta cerca de 90% das pessoas deprimidas, e, junto com ela, o paciente é reprimido por um medo inexplicável.

As causas da depressão são as mais variadas, sendo necessária uma análise sobre cada caso. Distúrbios hormonais, câncer, distúrbios auto-imunes, doenças do sistema cardiovascular e deficiência de vitaminas (em especial a Vitamina D, de acordo com diversos pesquisadores), abuso de álcool e drogas e alguns medicamentos podem ser as causas físicas da depressão. As causas mais comuns, porém, ainda estão no campo emocional e ambiental.

Observa-se que diagnósticos de depressão e outros distúrbios psicológicos graves ocorrem com mais frequência em mulheres do que homens. Neste ponto, podemos analisar esse fato sob o escopo da opressão que as mulheres sofrem no sistema capitalista-patriarcal, porém isso não significa que nossos camaradas estejam imunes à doença. Vivemos sob violências sistemáticas. Muitas de nós sofremos o que os psiquiatras chamam de “estresse pós-traumático”.

Um dos principais pontos para analisar essa informação é o da propriedade privada: com seu surgimento, foi estabelecido, de vez, os papeis do homem e da mulher. O homem assumia o controle da produção, tornando-a seu domínio. Para a manutenção desse sistema e para que ele fosse passado às próximas gerações, a mulher precisaria ter um forte laço com o homem. É aqui que começa a dominação e o controle sobre nossa sexualidade: o homem precisava garantir que a prole carregasse seus genes. O peso do papel social que recai sobre a mulher é insustentável. Já falei sobre isso aqui.

Como ajudar as/os camaradas com depressão

Não é simples a tarefa de ajudar uma/um camarada com depressão. Por vezes, q pessoa pode se sentir num beco sem saída, sem saber como agir e o que esperar de resposta da(o) companheira(o). Não há necessidade, porém, de se pisar em ovos com os companheiros que apresentam um quadro depressivo. Conversas honestas podem ajudar muito na descoberta da doença (considerando que, às vezes, o próprio militante não vai se dar conta da depressão). Quando o militante já traz o quadro depressivo, também não há necessidade de subestimar o/a camarada, basta perguntar como se sente, de que maneira pode ajudar sem forçar os limites e traçar um plano para o militante cumprir com suas atividades e nunca cumpri-las em seu lugar.

A depressão, com frequência, vem com “auto-boicote”: o militante vai se achar incapaz de cumprir as atividades e, consequentemente, pode não cumpri-las, o que gera um grande sentimento de culpa. É crucial o papel da assistência para traçar um plano, fazer um calendário, pensar junto com o militante e jamais menosprezar suas dificuldades.

Nem todos precisam seguir um tratamento com medicação, às vezes basta o coletivo reunir com a frequência necessária, basta um assistente mais atento, basta dar para os camaradas a carga de tarefas que eles vão conseguir cumprir. Fazer as tarefas junto com o militante não significa que o assistente subestima suas capacidades, ou que não responsabiliza a/o camarada. Se nós não nos preocuparmos com a saúde e o bem-estar dos nossos companheiros, não vai ser a burguesia que vai cumprir esse papel, sendo que ela lucra milhões anualmente com a indústria farmacêutica. Nós, comunistas revolucionários, cuidamos uns dos outros e dedicamos nossa vida a lutar por uma sociedade mais justa, igualitária e livre de opressão: a sociedade socialista.

O fascismo que sempre esteve aí – e agora saiu do esgoto.

No dia 17 de Abril de 2016, num domingo, é aprovada na Câmara dos Deputados a abertura do processo de impeachment da presidenta eleita em 2014 com 51,64% dos votos, Dilma Roussef. Presidenta, essa, que não é citada em nenhuma das investigações de lavagem de dinheiro ou teve seu nome divulgado nas recentes listas de propina.

O propósito desse texto não é, de maneira nenhuma, defender o indefensável: as políticas de direita do governo do Partido dos Trabalhadores. Governo, esse, que com uma guinada à direita conduz o país de acordo com as políticas da grande burguesia nacional e internacional. Agenda política, essa, que faz ajuste fiscal, que aprova lei anti-terrorismo, que cogita a reabertura da CPMF e que governa para os chefões do agronegócio, promovendo um verdadeiro genocídio da população indígena. Veja, aqui, sobre a ilegalidade do impeachment. Sobre as conciliações do governo PT, o veículo socialista A Verdade.

O propósito deste texto é discorrer brevemente sobre a conjuntura que se instaura no dia de hoje e a agenda política dos grupos que estão atualmente liderando os rumos do país: a ideologia fascista. Precisamos, então, colocar aqui as definições dessa tendência política que surge na fase imperialista do capitalismo.

Os conceitos de direita e esquerda têm sido postos em cheque ultimamente. Eu mesma não tenho acordo com essa divisão muito reducionista e, por vezes, reformista. Porém, se observarmos nos grandes grupos, quem nega a validade de uma divisão da agenda política, quem nega a existência de grupos diametralmente opostos, nunca são pessoas da esquerda. Para compreendermos o conceito de fascismo, é imprescindível uma correta compreensão do que é essa direita que tanto falamos.

“A direita é o gênero de que o fascismo é uma espécie.” (KONDER, Leandro. Introdução ao Fascismo, da série: Assim lutam os povos. Editora: Expressão Popular).

Sigo na citação do livro:

“Em sua essência, a ideologia da direita representa sempre a existência (e as exigências) de forças sociais empenhadas em conservar determinados privilégios, isto é, em conservar um determinado sistema socioeconômico que garante o estatuto de propriedade de que tais forças são beneficiárias. Daí o conservadorismo intrínseco à direita.”

Esse teor conservador da direita não significa, em nada, que a resistência à mudança se dê de forma pacífica. A corja conservadora sabe que, para garantir a manutenção do poder, são necessários projetos políticos concretos, privatizações, manobras políticas e golpes. A tática de conservação é repressiva: é mais fácil reprimir do que convencer os demais da excelência da agenda política.

Por mais que a direita pareça estar “organizada” e muito bem articulada, ela encerra uma contradição em si: todos os movimentos são baseados em interesses particularistas, só se unem para os objetivos limites de acumulação de capital, de lucro privado. Além do mais, não há unidade entre teoria e prática que é tão conhecida nos meios revolucionários, marxistas-leninistas. Levando essa tendência, esse sistema imperialista, às constantes crises, estando fadado ao fracasso.

O fascismo é ultranacionalista e autoritário, visa o pregresso do país favorecendo uma maior industrialização e tem discursos inflamados de engrandecimento da nação. O regime fascista na Itália de 1919, por exemplo, foi marcado pelo intervencionismo econômico – promover a intervenção e o controle da economia (sobre o Fascismo Italiano, aqui a AulaDe). É, um capitalismo no estilo intervencionista: o governo tem controle de setores da economia visando à industrialização e uma maior proletarização da população. Hoje, isso significaria o fim de nossas leis trabalhistas. Não podemos esquecer uma parte muito importante da agenda fascista: a superioridade racial.

Os anos de concessões e conciliações do governo PT alimentaram o crocodilo fascista que vivia no esgoto. Hoje, ele saiu às ruas vestido de verde e amarelo com pautas que retomam ao terror daquele dia que durou 21 anos. A principal luta política do momento é o processo do impeachment para que Temer e Cunha possam assumir o poder. Processo, esse, sem base legal alguma, como diz a professora Liane Cirne neste vídeo, reproduzido pelo Jornal A Verdade. Não houve qualquer crime de responsabilidade por parte da presidenta.

O maior exemplo – e até um tanto caricato – da representação do fascismo é o deputado estadual do RJ pelo Partido Progressista, Jair Bolsonaro. Militar de reserva, Bolsonaro é a favor da redução da maioridade penal, disse que só não estupra a deputada Maria do Rosário porque ela não merece, fala contra a comunidade LGBT e é um saudosista dos anos de chumbo. No plenário que votava pela abertura do processo do impeachment, Bolsonaro, ao declarar seu voto, fez uma saudação ao terror de Dilma Roussef, Carlos Alberto Brilhante Ustra, diretor do DOI-CODI de São Paulo, que, na ditadura, torturava mulheres grávidas e enfiava ratos em suas vaginas. (veja, aqui o voto de Bolsonaro). Como resposta, Amélia Teles, sobre Ustra.

Não se enganem: Quem defende Bolsonaro tem um lado, e eu não acredito numa defesa inconsciente do sujeitinho. As pessoas sabem o que ele defende. O projeto de sociedade é muito nítido, bem como a agenda política desse fascismo que está saindo do esgoto e já tem seus representantes, bem como seus seguidores.

Hoje, após assistir todas aquelas declarações de voto da Câmara dos Deputados, paira o sentimento de termos retrocedido algumas décadas – e eu espero que não ao ano de 1964. Porém, o que se sobrepõe à derrota, é a certeza de que as ruas desse país se incendiarão com as lutas da classe trabalhadora, que nada tem a perder a não ser seus grilhões. Para terminar, deixo a postagem de um companheiro de luta, Wanderson Pinheiro:

Votação na Câmara, uma derrota da conciliação de classes!

Não concordo que ontem o Brasil viveu uma derrota da esquerda, mas sim da parcela reformista que não só insiste no caminho da conciliação de classes, na aposta nos acordos de gabinete e na composição com os interesses econômicos de grandes grupos empresariais e políticos, das oligarquias mais conservadoras do Brasil.

Mesmo estando à beira do naufrágio, Lula e o PT mantiveram e mantém firmemente este caminho. Isto se expressou no foco das negociações no congresso, realocação de ministérios com a direita e o pouco peso dado para a resistência Popular, as greves ou qualquer debate que incluísse os verdadeiros anseios do nosso povo.

O apelo ao povo se restringiu a defesa da legalidade, como suporte para o PT ter força para barrar o golpe no congresso e correlação de forças para uma saída negociada.

Poucos minutos depois da derrota esta posição é reafirmada pela esquerda reformista: nossa resistência agora segue no senado. Sendo assim, o povo deve se limitar a dar peso para endossar esta via, sem contudo ser chamado para ser uma força decisiva e defender o que realmente lhe interessa, seus reais interesses de classe.

“É verdade que nosso centro deve continuar sendo atacar o inimigo principal. Cunha, Temer, PMDB e PSDB são protagonistas de um golpe contra o povo. Representam a fração da classe dominante que quer intensificar por todos os meios a retirada de direitos, a ampliação da exploração e da repressão contra os trabalhadores.

A questão é que não avançaremos, nem conquistaremos o povo para lutar contra seus inimigos, sem colocarmos no centro a luta por seus direitos, por terra, moradia, fim do ajuste fiscal e sem nenhuma ilusão com posições que pretendem usar o povo para construir novos pactos e acordos com as elites. É preciso apostar nas ruas, preparar o povo para um novo momento que se abre e se intensifica na luta por justiça social.

Seguir um mês depositando esperança na reversão do quadro no senado é não só uma ilusão, como significa deixar o movimento Popular totalmente à reboque dos conchavos no parlamento, caminho do fracasso que dará a vitória aos exploradores do povo.

Precisamos neste momento gastar o precioso tempo que temos e todas as nossas energias construindo com o povo a verdadeira alternativa para a crise. Hoje é mais urgente é necessário ocupar as ruas com a bandeira por mais direitos e pelas bandeiras históricas da esquerda socialista. Precisamos lutar por um novo caminho de unidade do povo pelo poder Popular e pelo Socialismo!!”

Aqui se Respira Lucha

Latinoamérica

Soy… Soy lo que dejaron
Soy toda la sobra de lo que se robaron
Un pueblo escondido en la cima
Mi piel es de cuero, por eso aguanta cualquier clima
Soy una fábrica de humo
Mano de obra campesina para tu consumo

Frente de frío en el medio del verano
El amor en los tiempos del cólera, mi hermano!
Soy el sol que nace y el día que muere
Con los mejores atardeceres
Soy el desarrollo en carne viva
Un discurso político sin saliva
Las caras más bonitas que he conocido

Soy la fotografía de un desaparecido
La sangre dentro de tus venas
Soy un pedazo de tierra que vale la pena
Una canasta con frijoles, soy Maradona contra Inglaterra
Anotándote dos goles

Soy lo que sostiene mi bandera
La espina dorsal del planeta, es mi cordillera
Soy lo que me enseñó mi padre
El que no quiere a su patría, no quiere a su madre
Soy américa Latina, un pueblo sin piernas, pero que camina
Oye!

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
María Rita:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
Susana Bacca:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Calle 13
Tengo los lagos, tengo los ríos
Tengo mis dientes pa’ cuando me sonrio
La nieve que maquilla mis montañas
Tengo el sol que me seca y la lluvia que me baña
Un desierto embriagado con peyote
Un trago de pulque para cantar con los coyotes
Todo lo que necesito, tengo a mis pulmones respirando azul clarito

La altura que sofoca,
Soy las muelas de mi boca, mascando coca
El otoño con sus hojas desmayadas
Los versos escritos bajo la noches estrellada
Una viña repleta de uvas
Un cañaveral bajo el sol en Cuba
Soy el mar Caribe que vigila las casitas

Haciendo rituales de agua bendita
El viento que peina mi cabellos
Soy, todos los santos que cuelgan de mi cuello
El jugo de mi lucha no es artificial
Porque el abono de mi tierra es natural

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
Susana Bacca:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Não se pode comprar o vento
Não se pode comprar o sol
Não se pode comprar a chuva
Não se pode comprar o calor
Não se pode comprar as nuvens
Não se pode comprar as cores
Não se pode comprar minha’legria
Não se pode comprar minhas dores

No puedes comprar el sol
No puedes comprar la lluvia
(Vamos caminando)
No riso e no amor
(Vamos caminando)
No pranto e na dor
(Vamos dibujando el camino)
No puedes comprar mi vida
(Vamos caminando)
La tierra no se vende

Trabajo bruto, pero con orgullo
Aquí se comparte, lo mío es tuyo
Este pueblo no se ahoga con marullo
Y se derrumba yo lo reconstruyo
Tampoco pestañeo cuando te miro
Para que te recuerde de mi apellido
La operación Condor invadiendo mi nido
Perdono pero nunca olvido
Oye!

Vamos caminando
Aquí se respira lucha
Vamos caminando
Yo canto porque se escucha
Vamos dibujando el camino
(Vozes de um só coração)
Vamos caminando
Aquí estamos de pie
Que viva la américa!
No puedes comprar mi vida

A lei do silêncio

Não consigo esquecer o que aconteceu

mas ninguém mais se lembra.

A partir da discussão da IV Conferência Mundial, a Organização das Nações Unidas passou a considerar a violência de gênero contra as mulheres como uma questão além da manifestação de relações hierárquicas historicamente desiguais entre homens e mulheres: passou a considerar equidade (não gosto do conceito de ‘igualdade’) necessária para o desenvolvimento pleno dos direitos humanos e das liberdades individuais. Não que isso tenha diminuído em algum grau os índices de violência, mas foi a porta para lei Maria da Penha e para criação de Juizados Criminais Especializados em atendimento à mulher. Sabemos, porém, que a instituição serve aos homens, serve à supremacia masculina e à supremacia branca, então qualquer tentativa de reportar o crime será tida com retaliação, com questionamentos e levantamento de dúvidas quando a palavra da vítima.

Vemos que a própria terminologia pra tratar do tema é insuficiente:

* Violência contra mulher nomeia o objeto do fenômeno, aponta contra quem a violência é praticada. Não aponta, porém, o sujeito da ação. Quem está violentando as mulheres?

* Violência doméstica está mais presente no senso comum, designando o que é próprio da esfera privada (lembrando que a dicotomia público x privado serve de sustentação para essa cultura do estupro. O corpo da mulher é público, porém suas violências estão no âmbito do privado) e situa um ambiente que ocorre essa violência.

* Violência intrafamiliar é uma modalidade da violência que se passa dentro da família, que vem de dentro dela. “O Ministério da Saúde define que a violência intrafamiliar […] não se refere apenas ao espaço físico onde essa violência ocorre mas também às relações em que se constrói e efetua.”

* Violência de gênero é o fenômeno dentro de um contexto de relações de poder produzidas por construção social (socialização).

Vocês perceberam que, em nenhum momento, nomeia-se o sujeito da violência? Quem está nos violentando?

No Brasil, os serviços destinados à intervenção desse fenômeno estruturam-se em, basicamente, três eixos: delegacias especializadas no atendimento à mulher, centros e núcleos de atendimento à mulher e casas de abrigo/casas de passagem. Na cidade de Porto Alegre, mais especificamente, sabemos da insuficiência de políticas públicas que atendam as mulheres vítimas de violência doméstica. Quando essas mulheres decidem sair de um ambiente de agressão, estão se encaminhando para uma situação de violência institucional na qual muitas vezes a própria agressão é questionada.

tumblr_n4142h3ngz1s8q7y6o1_400

 

 

 

 

 

 

 

* NÃO não significa ‘convença-me’

 

A cultura do estupro é um assunto que exige constante vigilância visto que, para sobreviver, esse sistema econômico de produção precisa naturalizar uma série de violências contra a classe trabalhadora e contra – principalmente – as mulheres (fazendo os devidos recortes de raça e classe).

O mais importante é manter o estereótipo de abusador ideal: aquele cara completamente desconhecido que te ataca no beco escuro à noite quando tu estás sozinha.

Nada mais mentiroso e cruel que isso.

48% das mulheres agredidas declaram que a violência aconteceu em sua própria residência; no caso dos homens, apenas 14% foram agredidos no interior de suas casas (PNAD/IBGE, 2009).

77% das mulheres que relatam viver em situação de violência sofrem agressões semanal ou diariamente. Em mais de 80% dos casos, a violência foi cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo: atuais ou ex-companheiros, cônjuges, namorados ou amantes das vítimas. É o que revela o Balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher , da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR). Leia mais no Balanço 2014 do Ligue 180.

Confira as estatísticas completas aqui: aqui

Os casos de violência sexual por desconhecidos representam um número muito pequeno. Os agressores são os nossos amigos que colocam Rohypnol (o famoso boa noite cinderela) na nossa bebida, é o parceiro que nos agride, é o universitária que passa trote opressor nas calouras.

Recentemente, a cantora pop Lady Gaga laçou seu último single como forma de denúncia aos casos de estupro que vêm crescendo exponencialmente dentro do campus universitário. A universidade é um invólucro da sociedade.

[Aviso: gatilho de trauma] 

Apenas as vítimas sabem da luta que precisam travar para levar adiante a denúncia e abrir processo contra seu agressor. Não há política de assistência suficiente, não há sequer centros de referencias bem articulados que operem in full. O clipe mostra o processo inteiro das vítimas para lidar com o estupro.

Precisamos ruir as instituições, precisam queimar toda essa supremacia masculina e toda a cumplicidade que permeia o agressor a continuar agindo com impunidade. Precisamos ajudar umas as outras.

 

Companheira me ajuda, que eu não posso andar só

Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor

Redução não é a solução

O projeto da redução da maioridade penal (que tramitou com caráter de urgência justamente no mesmo ano em que o projeto de privatização das prisões também assumiu caráter de urgência. Curioso, não?) tem como principal argumento, numa campanha rasteira e preconceituosa, que os menores infratores têm papel central no aumento das estatísticas de homicídios a nível nacional.

O que este argumento ignora, no entanto, é que, com estatísticas atualizadas, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que apenas 1% dos homicídios registrados em todo o país são cometidos por jovens entre 16 e 17 anos – inclusive com armas brancas; isso equivaleria apenas a 500 casos de um total de 56.337 homicídios registrados em 2012.

Tendo em vista o cenário de violência urbana, sabemos que suas origens estão intrinsecamente ligadas aos processos de favelização e segregação urbana. As favelas surgiram com a intensificação das contradições sociais e a desigualdade socioeconômica. Sabemos, também, que a redução da maioridade penal tem cor e tem classe. Este projeto é a institucionalização do genocídio da juventude negra.

A culpa não é somente do menor infrator, mas a culpa reside num Estado insuficiente que usa a polícia militar, seu principal braço fascista, como forma de controle e repressão, um Estado que prefere investir em políticas de encarceramento do que em políticas sócio-educativas. A culpa é do sistema de produção capitalista que sobrevive da exploração. Nesta lei, há brechas para legalização do trabalho infantil – e sabemos que a mão de obra infantil é barata e ainda utilizada no campo e algumas áreas urbanas –, para a venda e consumo de bebidas alcoólicas para adolescentes e, também, o caminho para a legalização da prostituição infantil.

Este projeto de lei não vem sozinho, traz consigo um pacote de medidas que visa criminalizar a juventude, cercear seu espaço de luta política e de lazer e impedi-la do acesso à cidade. É um momento crucial para os movimentos sociais, a voz da juventude não será calada.

A vida imita a arte (ou a arte imita a vida?): literatura como forma de dominação e subjugação.

*Foto de uma das intervenções urbanas da artista Jenny Holzer, mostrando que a arte deve ser instrumento de luta política.

É cabível dizer que as produções que consumimos têm forte influência em quem nos tornamos, nas decisões que tomamos e – fazendo um recorte na microestrutura – nos relacionamentos que temos.

A dialética do sexo

As feministas precisam questionar não só toda a cultura ocidental, como a própria organização da cultura, e, mais, até a própria organização da natureza. Porém, para que possamos mudar a situação, precisamos saber como ela surgiu e se desenvolveu, e já falei disso aqui. Marx e Engels foram os primeiros a romper com a linha cartesiana de pensamento e pensar na história como dialética e materialista; isso significa ver o mundo como um processo de ação e reação, mais como um filme do que como um álbum de fotos. Os pensadores antes deles não fizeram se não pensar na história e nas desigualdades como uma questão da moralidade, em que a exploração acabaria pela boa vontade das classes dominantes. Numa sociedade sem classes (econômicas e sexuais), os interesses de todos os indivíduos seriam sinônimos dos da sociedade. Seria um erro tentar explicar a opressão das mulheres a partir duma interpretação estritamente econômica. Podemos perceber isso quando observamos o desenrolar da história.

Crítica feminista e crítica literária

Tanto na vida real como na ficção, os papéis sociais e a condição geral das mulheres têm sido construídos a partir de um conjunto de pressupostos, de valores e de uma moralidade ética determinada previamente por uma perspectiva de dominação patriarcal. Vale ressaltar, também, que para permanência e manutenção desse sistema, o mesmo se escora em instituições artificiais como o casamento, a erotização da subordinação, os ideais de beleza, etc.

Para manter toda uma classe em situação de subordinação – e, de certa forma, porém sem culpa nenhuma, compactuando com isso – essas instituições precisam tornar-se “desejáveis”, precisam ser um ideal. É aí que a arte tem um papel importante na construção da identidade feminina.

O resultado das narrativas ficcionais direcionadas para as mulheres têm sido limitar sua ação social autônoma, criar mitos justificadores, enraizar uma ideologia dominante e, finalmente, atribuir um lugar coadjuvante, secundário e menor, quase sempre irrelevante, às mulheres no desenvolvimento social.

Enfatizo, aqui, a importância da conscientização feminina acerca da necessidade de subvertermos os costumes e os mitos tradicionais, tais como as costumeiras inferioridade e subserviência femininas, a discriminação no estabelecimento de papéis sociais, o eterno feminino e a tradição tão cara aos românticos referente à idealização da mulher.

Dominação e autoritarismo são elementos que permeiam as situações sociais das mulheres e são, frequentemente, incorporadas, propositalmente ou não, em obras da literatura. A análise da situação cultural da mulher é relevante no sentido de verificar como ela é vista pelo Outro, como ela vê o outro e como vê a si mesma. Essa perspectiva está presente na obra ficcional por meio da ação das personagens. Como ocorre com as minorias, a voz da mulher sempre foi silenciada, o que a impediu de desenvolver uma linguagem própria, precisando recorrer à linguagem do gênero dominante. A conquista do nosso espaço acontecerá a medida que assumirmos nosso discurso e, consequentemente, realizarmos uma arte e uma crítica centradas na figura feminina para que, assim, ela adquira visibilidade e voz, saindo do silêncio milenar a qual fomos subjugadas. É aqui que acontece a travessia do invisível para o visível, do silêncio para a fala, e não deve ser uma atividade isolada.

As artes que consumimos quando adultos já servem de para guiarmos nossas ações, definirmos nossa cultura e nos formarmos enquanto sujeitos. Isso tudo pode – e geralmente acontece – operar num nível subconsciente. Vamos nos tornando a arte que consumimos. Precisamos, sempre que consumimos produções artísticas, lê-las com olhares críticos e através da cortina de recortes de opressões (gênero, classe e raça), para que a tradição dominante possa ser desmantelada. A literatura está sob o poder patriarcal e capitalista e dele ela precisa se distanciar.

Beauvoir traz, n’O Segundo Sexo, uma crítica que defende o princípio do conservadorismo masculino, daí a impossibilidade de mulheres serem representadas adequadamente por homens.

“A subjetividade do sujeito é expressa na textualidade: no posicionamento do narrador ante o mundo narrado, na construção do universo ficcional – nas noções de tempo e espaço, nas ações das personagens e na sua construção.”

A constituição do sujeito feminino traz consigo processos históricos que implicaram em transformações relevantes na sociedade – como o surgimento da propriedade privada, por exemplo. Para Marx e Engels, o ser humano não é o sujeito da história, pois pode agir apenas com base nas condições históricas criadas por outros indivíduos e sob as quais nasceu, utilizando os recursos materiais e de cultura já existentes, fornecidos por gerações anteriores.

 

Bibliografia:

 

Gênero e Literatura

Políticas Públicas para Mulheres

A Dialética do Sexo

Trabalhadoras de todo o mundo: uni-vos!

Durante nosso árduo caminho como militante, encontramos pessoas que tornam o trabalho de lutar pela revolução mais amorzinho. Bruna Fraga é uma dessas pessoas. Além de ser companheira de militância feminista e comunista, é uma grande amiga com quem aprendo todo dia uma coisa nova.

Ontem, ela produziu o seguinte texto que, com muito orgulho, compartilho aqui no blog.

“Foi comemorado, com muita luta por todo o Brasil, nessa semana, o 1º de maio, Dia do Trabalho. E é comum que se fale na exploração pela qual todos os trabalhadores do mundo sofrem. E, de fato, são explorados. No entanto, quase nada se fala sobre as condições precárias que vivem as mulheres no mundo do trabalho e os diversos problemas que são enfrentados num espaço de convívio social (assim como a escola e a universidade, o “chão da fábrica” também é um espaço de socialização), onde mulheres e homens ocupam funções de acordo com a leitura que a sociedade faz de seus corpos: uma suposta ~diferença biológica determina as habilidades e competências de cada um, que resulta na existência de divisões de trabalho – trabalhos de mulheres e de homens – e na consequente diferenciação dos salários.

Se partirmos do princípio de que não existe um cérebro feminino e outro masculino e de que possuímos uma estrutura biológica idêntica e potencialidades iguais para desenvolvermos resistência física, salvo a capacidade de amamentação e genitálias diferentes (combinados com órgãos internos, de função reprodutora) – o que não é determinante para absolutamente nada -, então sabemos que essa divisão do trabalho é artificial e não passa de uma reutilização do patriarcado pelo capitalismo, com o objetivo de produzir mais capital. Ou seja, lançam mão do sexismo para justificar uma maior extração de mais-valia absoluta (intensificação do ritmo de trabalho, por meio da vigilância, cronometragem do tempo, reorganização espacial para melhor aproveitamento dos movimentos necessários para a realização de determinada tarefa, etc.). E essa exploração não cabe somente à produção de bens, mas à produção de serviços também, principalmente quando falamos sobre terceirização do trabalho.

A linha tênue que separa a exploração da mulher e a terceirização dos serviços

No setor terciário, a partir da década de 1990, se instala a terceirização dos serviços, que, segundo o Enunciado nº 331, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), torna legal essa prática, “desde que não atinja a atividade-fim da empresa”¹. Em 2005, a porcentagem de trabalhadores terceirizados no total de força de trabalho brasileira cresceu para 16%. “Para as empresas privadas, isso significa menor gasto com as folhas de pagamento e com encargos trabalhistas. Além disso, a contratação de trabalhadores por empresas terceirizadas contribui decididamente para elevar o nível de rotatividade no emprego, mecanismo que as empresas utilizam para demitir e contratar com salários mais baixos”². Nesse sentido, as mulheres, com o advento da terceirização, adentram um pouco mais no mercado de trabalho, mas ainda sob condições insalubres, assédio moral (dos supervisores) e direitos trabalhistas flexibilizados.

No Brasil, a terceirização do trabalho tem como maior alvo mulheres negras e da periferia. Boa parte dos serviços terceirizados é composta pela limpeza e telemarketing, atividades ocupadas majoritariamente por mulheres. E são os dois dos serviços mais precarizados da terceirização.

Segundo Marx, o aproveitamento de determinados setores da sociedade, como forma de diminuição dos custos empresariais e consequente aumento dos lucros, se chama cheap labour, que significa “trabalho barato”. Mulheres são mais exploradas no mundo do trabalho, uma vez que são consideradas mão de obra barata, em decorrência de um acúmulo histórico de opressões. E essas opressões são renovadas, precisam dançar conforme a música, por isso atualizam o seu discurso (os meios de comunicação de massa exercem a função de renovação desse discurso), mas sua essência, no entanto, não mudou. O capitalismo, por sua vez, lança mão dessas opressões para justificar uma maior exploração de força de trabalho, principalmente quando se trata do barateamento dos custos do empregador com o empregado (mulheres brancas, mulheres negras – que são mais exploradas que as brancas -, homens negros e homossexuais são os principais alvos dessa superexploração).

A mulher é explorada gratuitamente

Recaem sobre as costas da mulher todos os serviços domésticos que, historicamente, foram desempenhados por mulheres. E são serviços sem remuneração – o serviço doméstico não é considerado trabalho. O capitalismo ignora conscientemente essa atividade. Silvia Federici, professora e pensadora feminista, afirma que, por vivermos numa sociedade conformada para as relações monetárias, um trabalho que não possui remuneração é sinônimo de exploração alusiva ao trabalho escravo e, assim, para que o capitalismo possa ignorar o trabalho doméstico (que é imprescindível para a reprodução de força de trabalho humana) sem que haja resistência, naturaliza sua exploração.

Os serviços desempenhados em casa, depois de uma cansativa e longa jornada de trabalho, não são reconhecidos como trabalho. E isso é estratégico, é uma forma de que inutilizemos nosso tempo fora do local de trabalho “formal”, de que não nos especializemos nem tenhamos tempo para refletirmos sobre nossas condições de vida. Mas caso isso seja possível, estaremos sempre em desvantagem daqueles que possuem esse privilégio, se conseguirmos conciliar trabalho formal, doméstico e estudos. E os privilegiados, em sua maioria, são os homens – que possuem mais tempo para o aproveitamento do ócio, seja para entretenimento ou formação cultural e intelectual.

Concordo que a classe trabalhadora, de maneira geral, possui pouco tempo para aquilo que foge da esfera do trabalho, mas não podemos colocar trabalhadora e trabalhador em pé de igualdade, em virtude da existência da opressão intraclasse (do homem e sobre a mulher ). Isso não significa dizer que estamos setorizando a luta contra o capitalismo, colocando mulheres contra homens. Isso é concreto, não é nada abstrato. Portanto, para que consigamos conciliar nossos objetivos em comum (a coletivização da propriedade, desde uma perspectiva socialista), precisamos reconhecer que existem demandas diferenciadas e que elas precisam ser ouvidas e respeitadas dentro do movimento socialista, o que quase nunca acontece. Segundo Elisabeth Souza-Lobo, no movimento do ABC paulista da década de 1970, houve uma tentativa de inserção das mulheres nesse movimento, no entanto, “reconhecidas as especificidades da trabalhadora na indústria, as reivindicações das mulheres não foram incluídas na pauta do sindicato, temendo ser confundido com os movimentos feministas que emergiam na época. Assim, o reconhecimento da diferença da mão-de-obra feminina não resultou na sua incorporação às reivindicações do movimento sindical”³.

Nós, mulheres trabalhadoras, não queremos somente o fim da exploração de nossa força de trabalho, mas também o fim daquilo que nos confere uma exploração mais acentuada: nossa configuração enquanto classe política, de acordo com a leitura que fazem de nossa genitália e as marcações sociais que nos são impostas (para que sejamos identificadas como o ser que pode ser subordinado a tudo o que os homens desejarem). Por isso, eu defendo não somente o fim das classes burguesa e trabalhadora, mas também o fim das classes homem e mulher, para além do modo de produção capitalista.”

¹ – ASSUNÇÃO, Diana. A precarização tem rosto de mulher.
² – Idem
³ – http://osocialemquestao.ser.puc-rio.br/…/17_OSQ_25_26_Danie…
Outras fontes:
– http://www.eldiario.es/…/engano-trabajo-asalariado-liberar-…
– SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade.

O feminicídio em Juárez e o pacto de silêncio*

Matéria originalmente publicada no veículo socialista A Verdade

Pela falta de dados, informações e artigos, Juárez não teve o destaque no texto que eu gostaria de ter dado.

 

Ciudad Juárez, Chihuahua, México.

Feminicidios.

Mujeres de entre 18 y 35 años.

El recuento empieza en 1993 con la muerte de la niña Alma Chavira Farel.

Las muertas de Juárez siguen vivas; esperan en la morgue que las bauticen, les pongan nombre para adornar sus cruces.

 

O silêncio ensurdecedor: violências encobertas contra mulheres e crianças *

Tradução/versão do primeiro capítulo do trabalho da escritora e pesquisadora Patrizia Romito

Hoje, a violência contra a mulher já não é um mistério, um segredo. Já não é mais uma questão a ser escondida – ou pelo menos não deveria ser. Estamos cientes da frequência e das consequências da violência doméstica, estupro, assédio moral no trabalho, abuso infantil. Fenômenos, esses, que sequer tinham nome até os anos 70. O movimento de mulheres teve avanços nos últimos 30 anos, produzindo conhecimento, consciência e resistência. Revelou a teia de cumplicidade – com frequência institucional – que permeia o agressor a continuar agindo com impunidade. Porém, ainda há muito a ser feito.

Em 1981, na Itália, foi derrubado o conceito de “crime de honra” da legislação. Tal conceito reduzia drasticamente a pena de quem assassinou a filha, esposa ou irmã se fosse considerado que a “honra” do agressor havia sido ferida. Em outros países da Europa, caiu a chamada “imunidade conjugal”, que não considerava agressão quando havia estupro marital.

Porém, no que concerne comportamento, a sociedade patriarcal ainda nega o sujeito da violência e se volta para a culpabilização das vítimas.

Consideremos, aqui, a violência sexual. Levantamentos de dados para estudos – resultados de pesquisas realizadas com um considerável número da população relacionando com relatórios, julgamentos e condenações – mostra que a chance do agressor ser posto em situação em que não poderá mais cometer outro ato de violência é mínima. De fato, poucos casos de violência contra mulher são reportados.

Ao contrário do que prega o senso comum, muitas das mulheres vítimas de violência doméstica falam, sim, sobre os abusos sofridos. Muitas delas romperam com silêncio e buscaram ajuda, mesmo sob o risco da violência subsequente. Muitos dos casos de estupro parental contêm elementos em comum. A criança conta algo para os avós, para os amigos, para a escola e ela é, então, levada ao hospital por hematomas ou ossos quebrados, mas nada acontece. Na adolescência, ela sofre de problemas comportamentais, pesadelos e ataques de pânico e tenta suicídio, mas ninguém – nem psiquiatras, psicólogos ou assistentes sociais – pergunta a ela o porquê; dão drogas para acalmá-la e, se ela tenta contar, é tratada como uma mentirosa compulsiva. Se ela vai à polícia, é ridicularizada e acusada, novamente, de mentir. Nem todas as mulheres e crianças enfrentam os muros da indiferença e cumplicidade. Isso acontecer ainda nos dias de hoje nos mostra que o coração do problema não se encontra no silêncio das vítimas. Elas gritam. Pesquisas com mulheres vítimas de violência doméstica mostram que apenas uma minoria mantém segredo. Muitas já relataram os casos para amigas, médicos, pais e figuras institucionais, porém raramente são ouvidas, acreditadas ou ajudadas. São, por vezes, insultadas e ameaçadas pelas pessoas a quem elas recorreram.

A imprensa também desenvolve um papel importante na cultura do silêncio. Casos de violência doméstica são cada vez mais noticiados nos telejornais. Mas de que modo isso é feito? Ouvimos os tais “crimes passionais”: homens que não suportavam serem deixados e matam as ex companheiras e/ou cometem suicídio, tudo por “amar demais” ou por “sofrerem demais”. Não se fala em violência masculina, não se fala no sujeito da ação, criando a ideia de que a violência é perpetrada por algum espectro nebuloso chamado misoginia.

Como que, em apenas duas décadas, fomos do total silêncio – do segredo coagido, a supressão das experiências infantis, de tal forma que nem sequer eram ouvidas – a um nível de cacofonia tal que as vozes das crianças, das mulheres não estão, mais uma vez, sendo ouvidas? (Armstrong, 2000a, p 3)

Identificar as várias formas de violência é necessário para traçar um estudo da frequência e da forma que a sociedade patriarcal mantém as mulheres nos seus lugares de submissão. De que forma, também, o pacto de silêncio é útil para que a estrutura não seja ameaçada.

Cidade de Juárez

Ciudad de Juárez é uma cidade mexicana próxima na fronteira com os Estados Unidos. Conhecida por ser um conglomerado de parques industriais é, também, notória por conter a sede de um dos maiores cartéis de drogas do México. Porém, acima de tudo, Juárez é conhecida pelos brutais assassinatos contra mulheres. Desde 1993, quando se começou a contar as mortes, estima-se que mais de 1.100 mulheres perderam suas vidas, e este número é apenas das desaparecidas: não podemos esquecer que grande parte dos crimes contra a mulher não são reportados, logo, não entram para as estatísticas.

A violência contra mulher é sistêmica, nunca um ato isolado. São complexas questões estruturais que datam desde o surgimento dos primeiros espectros da sociedade capitalista-patriarcal. Aqui, eu faço um panorama história de como se deu a formação dessa sociedade.

O pacto de silêncio – a violência contra a mulher

O poder, sabemos, tem duas faces: da dominação e da subordinação, e as mulheres conhecem muito bem a segunda, já que nossa socialização se dá através dela. É isso que a supremacia masculina significa: esse acesso ao corpo da mulher. Os homens “estão permanentemente autorizados a realizar seu projeto de dominação/exploração das mulheres, mesmo que, para isso, precisem utilizar-se da força física” (SAFFIOTI, 2002, p. 203). A culpa é inerente ao gênero mulher, como disse a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, e faz parte da nossa criação enquanto indivíduos. Para a manutenção do status quo, foi importante que as mulheres aprendessem que, qualquer que seja a violência sofrida, elas têm uma parcela dessa culpa.

Assim, surgiu uma cultura do silêncio, de crimes não reportados, de vítimas silenciadas quando tentam reportar. E, por ser privilegiada por isso, a sociedade patriarcal compactua com esse silêncio e o faz um importante fator da manutenção desse sistema que se escora em instituições artificiais. Analisá-las e denunciá-las é colocá-lo em risco.

Em Juárez, os casos de feminicídio têm um tom execução – os assassinatos são o rito de passagem de homens ao ingressarem no mundo do cartel, como forma de dar recado para grupos inimigos. Faltam políticas públicas, e, claro, falta atenção às mulheres que são maioria dentro das fábricas.  A maior fonte de emprego de Juárez são as maquiladoras – empresas situadas na zona de comércio livre que empregam mão de obra barata e exportam materiais para produção estrangeira. A jornada de trabalho é intensa e, a volta para casa, sempre arriscada: o perfil das vítimas são as jovens trabalhadoras de origem humilde.

 

010ni-una-mas11

 

No dia 05 de janeiro de 2011, Susana Chávez, poeta e ativista contra os feminicídios de Juárez – e idealizadora da campanha Ni uma más – fora brutalmente assassinada. Ao total, 13 ativistas defensores dos direitos humanos perderam suas vidas. Susana, como tantos outros casos brutais de feminicídio, fora encontrada com um saco plástico em volta da cabeça e a mão esquerda decepada. Os assassinos, segundo a polícia local – conhecida por ser uma instituição corrupta – eram menores de idade que teriam se desentendido com Chávez. Mais uma vez, vemos que a violência é mascarada.

No velório de Susana, um de seus poemas foi deixado em cima do caixão. A frase que mais me chamou atenção foi:

Sangre mía, sangre de alba, sangre de luna partida, sangre del silencio

Juárez não é um caso isolado, pelo contrário. É uma amostra da macroestrutura operando na microestrutura. Perguntaram-me por que me preocupar com uma cidade tão distante geograficamente. Minha resposta é que, sendo a violência sistêmica, ela é parte da nossa estrutura, das nossas vidas e das ruas da nossa cidade também. Nada disso está longe: temos uma Juárez em cada esquina. E todas nós sangramos.