Relatos da depressão – sobre o elefante branco no meio da sala

Esta última recaída foi uma das mais difíceis desde o quadro depressivo agudo que eu tive em 2014.

Como uma forma de manter minha comunicação com o mundo exterior, lancei uma série alguns relatos no Facebook que renderam muitos comentários, amor, compartilhamentos e mensagens inbox de superação e até mesmo pedidos de ajuda.

Falar abertamente sobre o distúrbio que mata 800 mil pessoas todos os anos é falar abertamente sobre o elefante branco que vive no meio da nossa sala mas todos preferem acreditar que ele não existe. Recebi muitos relatos, muitos agradecimentos de pessoas que se identificaram com meus relatos e sequer sabiam que tinham depressão.

Espero, sempre, ajudar <3

Deixo aqui, então, meus relatos:

 

23 de julho · Canoas ·

 Relatos da depressão que ninguém quer saber mas vou falar mesmo assim:

A depressão é uma doença (sim, doença, bem como cálculo renal ou diabetes) incapacitante. A dor e a agonia são insuportáveis, o menor ato – até pisar no chão – se torna um fardo. Teu corpo fica 10× mais pesado, como se tu carregasse sacos de batatas nas costas. Parece que tu vais quebrar a qualquer momento.

Porém, cada quadro depressivo carrega suas pequenas vitórias: hoje, levei o lixo pra fora ♡

 

______________________________________________________________

17 de agosto · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão, parte II:

O processo de saída de um quadro depressivo é delicado, muito delicado. O prazer sentido nas atividades antes feitas vai retornando aos pouquinhos, o que nos faz querer abraçar o mundo todo (de novo). Assim, é muito fácil termos dias difíceis (de novo) e isso é frustrante pois parece que o quadro nunca, nunca vai melhorar.

O que eu digo? Paciência. Muita paciência. Vai melhorar, sim. Se alguma atividade pesar, não faça. Ou faça com ajuda. E não se culpe por não conseguir.

Além disso, indico muito suco de laranja e chá de laranja com especiarias (cravo e canela).

Não tem nada que um chá e um suco de laranja não resolva  (e nada que uma revolução socialista também não resolva, já que precisamos transformar a dor em luta, mas isso dá outro post ♡)

______________________________________________________________

23 de agosto às 20:25 · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão, parte III:

Fui pra academia hoje.

Isso já diz o suficiente.

______________________________________________________________

Relatos da depressão, parte IV:

O quadro depressivo possui três fases: o início da recaída (agressividade, distúrbio no sono – e por vezes na alimentação -, falta de memória, cognição afetada), a queda mesmo (a fase não-consigo-sair-da-cama) e, na fase da melhora, a oscilação.

Estou na fase de oscilações.

Alguns dias são bons, alguns são péssimos e outros são muito ruins. Tive 4 dias ruins seguidos que eu me fechei tanto que nem com a namorada eu conversava (coitada, pagando o pato).

Hoje acordei muito bem, mas com uma sinusite da porra. Se a mente cala, o corpo grita.

 

_______________________________________________________________

12 de setembro às 14:34 · Porto Alegre ·

 Relatos da depressão (e ansiedade) parte V:

Hoje temos prova de Penal II: teoria do crime.

Estamos tentando não sair por aí correndo gritando STALIN MATOU FOI POUCO. Até agora, com sucesso. Mas são apenas 14h33.

 

_______________________________________________________________

Relatos da depressão (e ansiedade), parte VI:

Não saímos por aí gritando STALIN MATOU FOI POUCO sem roupa e com olhos esbugalhados.

Mas a ansiedade me deixa com o corpo trêmulo, a voz embargada, me falta o ar e me aperta o peito. Não consigo prestar atenção na aula de Civil (e acho que Teoria das Normas é bem importante). Tou aqui, então, comendo o fini tubes que a mozona me deu (valeu, mozao).

Marx está comigo!

_______________________________________________________________

Relatos da depressão, parte VII:

Eu sobrevivi a uma das piores recaídas que eu já tive (tirando aquela fase suicida lá em 2014 em que, também, sobrevivi a duas tentativas).

Sobrevivi a todo o processo das oscilações, toda dor, toda angústia e toda a agressividade (nem menciono as alucinações).

A maré está favorável por aqui. Os ventinhos frescos que anunciam o fim do inverno fazem só pequenas ondinhas, sem grande caos. Já posso brincar de jogar pedrinhas no lago pra vê-lo balançar. Já se aprochega a fase da calmaria.

Já estou bem ♡

Essa foto é dessa manhã, quando a tempestade já se encaminhava pro alto mar.

 

14358643_1221317814556014_4425172521607275551_n

Agonia 704: um texto sobre depressão*

*Este texto pode conter alguns gatilhos de trauma. Eu, por exemplo, tenho depressão clínica grave (seguida de transtornos alimentares). Não foi fácil escrevê-lo

A depressão é uma doença que afeta anualmente cerca de 17 milhões de pessoas, causando grande sofrimento não apenas aqueles que padecem da doença, como também suas famílias e nós precisamos trazê-la para discussão. Ela é uma doença tal como a diabetes e precisa ser tratada – muitas vezes com medicação – e não menosprezada. Quando não tratada, a doença prejudica a autoestima, promove o consumo de álcool ou drogas, abala relacionamentos e a própria militância, e, às vezes, causa incapacidade e até mesmo a morte. Nota-se que no imperialismo (fase superior do capitalismo) surgem mais e mais casos de pessoas com quadro depressivo. De acordo com Marx, a relação capital, trabalho (e a divisão social do trabalho) e alienação promovem a coisificação ou reificação (que significa, literalmente, “objetificação”) do mundo, tornando-o objetivo, e suas regras devem ser seguidas passivamente pela classe operária. Essa humanização das coisas e coisificação das pessoas é crucial na formação do quadro depressivo: na sociedade de produção excedente, o ser humano é avaliado por sua capacidade quantitativa de produção para o mercado.

O que é a depressão

Uau, muita responsabilidade definir o que é a depressão. Usarei os conceitos da sociedade norte-americana de psiquiatria para que não caia no “achismo”. A depressão é um tipo de distúrbio mental que perturba o humor da pessoa. Os estados de humor podem ser considerados como um arco-íris, e cada pessoa experimenta essas cores cotidianamente. A depressão é comumente tratada como termo para tristezas que são em geral causadas por situações que passamos em algum momento da vida. O que diferencia essa tristeza comum de uma depressão clínica (ou distúrbio depressivo grave) é o sentimento de desânimo devastador, debilitante e duradouro que interfere com a vida da pessoa em casa, no trabalho e socialmente. A tristeza comum, aquela que advém de uma separação ou perda da pessoa amada, geralmente passa em um curto período de tempo (pode demorar um pouco mais, isso é muito subjetivo). O que difere totalmente da depressão clínica; essa, por sua vez, pode interromper gravemente a capacidade da pessoa de pensar e agir. Quando não tratada, a depressão grave pode ser perigosa. O pensamento suicida é uma parte comum desta doença; porém, raramente o paciente tem a força necessária para cometer suicídio quando a depressão atinge seu nível mais baixo e as tentativas geralmente acontecem quando o quadro depressivo diminui. Aqui que precisamos de atenção redobrada. A dor e a agonia são tão grandes que o paciente faz qualquer coisa que ponha fim a situação.

  • Depressão grave

A depressão grave, também conhecida como distúrbio depressivo grave, é o tipo mais comum da doença depressiva. Os efeitos dessa condição nas pessoas é que automaticamente elas deixam de sentir prazer nas atividades que antes significavam muito, sejam coisas pequenas ou grandes. No caso dos militantes, isso os afeta profundamente, deixando um sentimento de culpa e inutilidade. Estas mudanças emocionais são geralmente acompanhadas por alterações mentais e físicas como insônia, falta de memória ou dificuldade de concentração, perda de apetite, vários outros tipos de dores físicas e sofrimento emocional.

  • Sintomas:

– perda de peso significativa

– insônia ou sonolência excessiva

– movimentos físicos mais inquietos ou lentos do que de costume

– fadiga ou perda de energia

– sentimentos inadequados de inutilidade e/ou culpa

– incapacidade de pensar com clareza, se concentrar ou tomar decisões

– pensamentos recorrentes de morte, suicídio sem um plano específico, um plano para cometer suicídio ou uma tentativa de suicídio.

 

  • Depressão bipolar

A depressão bipolar afeta hoje em média mais de três milhões de pessoas ao redor do mundo. O principal sintoma desse quadro é a oscilação de humor em dois extremos: a tristeza profunda (depressão) e a euforia (mais conhecida no meio da psiquiatria como “crise de mania”). Na fase da mania, o humor se torna exageradamente otimista, animado, expansivo, ou, até mesmo, irritável. Estes sintomas podem se tornar perigosos, podendo dar origem a delírios. Na crise de mania, a pessoa apresenta uma autoestima inabalável e uma grande sensação de poder e controle. Esses elementos podem levar a gastos astronômicos no cartão de crédito e ao abuso de substâncias químicas. Neste caso, pode se fazer necessário um tratamento mais efetivo, como psicoterapia e medicamentos.

A depressão exerce um forte poder sobre seus pensamentos e emoções. Se você está deprimido, é provável que seus pensamentos sejam negativos, incoerentes e não coesos. As simples decisões (como escolher que camisa colocar para o trabalho) se torna uma tarefa quase impossível. A ansiedade também cumpre um papel crucial na piora do quadro da pessoa. Ela afeta cerca de 90% das pessoas deprimidas, e, junto com ela, o paciente é reprimido por um medo inexplicável.

As causas da depressão são as mais variadas, sendo necessária uma análise sobre cada caso. Distúrbios hormonais, câncer, distúrbios auto-imunes, doenças do sistema cardiovascular e deficiência de vitaminas (em especial a Vitamina D, de acordo com diversos pesquisadores), abuso de álcool e drogas e alguns medicamentos podem ser as causas físicas da depressão. As causas mais comuns, porém, ainda estão no campo emocional e ambiental.

Observa-se que diagnósticos de depressão e outros distúrbios psicológicos graves ocorrem com mais frequência em mulheres do que homens. Neste ponto, podemos analisar esse fato sob o escopo da opressão que as mulheres sofrem no sistema capitalista-patriarcal, porém isso não significa que nossos camaradas estejam imunes à doença. Vivemos sob violências sistemáticas. Muitas de nós sofremos o que os psiquiatras chamam de “estresse pós-traumático”.

Um dos principais pontos para analisar essa informação é o da propriedade privada: com seu surgimento, foi estabelecido, de vez, os papeis do homem e da mulher. O homem assumia o controle da produção, tornando-a seu domínio. Para a manutenção desse sistema e para que ele fosse passado às próximas gerações, a mulher precisaria ter um forte laço com o homem. É aqui que começa a dominação e o controle sobre nossa sexualidade: o homem precisava garantir que a prole carregasse seus genes. O peso do papel social que recai sobre a mulher é insustentável. Já falei sobre isso aqui.

Como ajudar as/os camaradas com depressão

Não é simples a tarefa de ajudar uma/um camarada com depressão. Por vezes, q pessoa pode se sentir num beco sem saída, sem saber como agir e o que esperar de resposta da(o) companheira(o). Não há necessidade, porém, de se pisar em ovos com os companheiros que apresentam um quadro depressivo. Conversas honestas podem ajudar muito na descoberta da doença (considerando que, às vezes, o próprio militante não vai se dar conta da depressão). Quando o militante já traz o quadro depressivo, também não há necessidade de subestimar o/a camarada, basta perguntar como se sente, de que maneira pode ajudar sem forçar os limites e traçar um plano para o militante cumprir com suas atividades e nunca cumpri-las em seu lugar.

A depressão, com frequência, vem com “auto-boicote”: o militante vai se achar incapaz de cumprir as atividades e, consequentemente, pode não cumpri-las, o que gera um grande sentimento de culpa. É crucial o papel da assistência para traçar um plano, fazer um calendário, pensar junto com o militante e jamais menosprezar suas dificuldades.

Nem todos precisam seguir um tratamento com medicação, às vezes basta o coletivo reunir com a frequência necessária, basta um assistente mais atento, basta dar para os camaradas a carga de tarefas que eles vão conseguir cumprir. Fazer as tarefas junto com o militante não significa que o assistente subestima suas capacidades, ou que não responsabiliza a/o camarada. Se nós não nos preocuparmos com a saúde e o bem-estar dos nossos companheiros, não vai ser a burguesia que vai cumprir esse papel, sendo que ela lucra milhões anualmente com a indústria farmacêutica. Nós, comunistas revolucionários, cuidamos uns dos outros e dedicamos nossa vida a lutar por uma sociedade mais justa, igualitária e livre de opressão: a sociedade socialista.

O fascismo que sempre esteve aí – e agora saiu do esgoto.

No dia 17 de Abril de 2016, num domingo, é aprovada na Câmara dos Deputados a abertura do processo de impeachment da presidenta eleita em 2014 com 51,64% dos votos, Dilma Roussef. Presidenta, essa, que não é citada em nenhuma das investigações de lavagem de dinheiro ou teve seu nome divulgado nas recentes listas de propina.

O propósito desse texto não é, de maneira nenhuma, defender o indefensável: as políticas de direita do governo do Partido dos Trabalhadores. Governo, esse, que com uma guinada à direita conduz o país de acordo com as políticas da grande burguesia nacional e internacional. Agenda política, essa, que faz ajuste fiscal, que aprova lei anti-terrorismo, que cogita a reabertura da CPMF e que governa para os chefões do agronegócio, promovendo um verdadeiro genocídio da população indígena. Veja, aqui, sobre a ilegalidade do impeachment. Sobre as conciliações do governo PT, o veículo socialista A Verdade.

O propósito deste texto é discorrer brevemente sobre a conjuntura que se instaura no dia de hoje e a agenda política dos grupos que estão atualmente liderando os rumos do país: a ideologia fascista. Precisamos, então, colocar aqui as definições dessa tendência política que surge na fase imperialista do capitalismo.

Os conceitos de direita e esquerda têm sido postos em cheque ultimamente. Eu mesma não tenho acordo com essa divisão muito reducionista e, por vezes, reformista. Porém, se observarmos nos grandes grupos, quem nega a validade de uma divisão da agenda política, quem nega a existência de grupos diametralmente opostos, nunca são pessoas da esquerda. Para compreendermos o conceito de fascismo, é imprescindível uma correta compreensão do que é essa direita que tanto falamos.

“A direita é o gênero de que o fascismo é uma espécie.” (KONDER, Leandro. Introdução ao Fascismo, da série: Assim lutam os povos. Editora: Expressão Popular).

Sigo na citação do livro:

“Em sua essência, a ideologia da direita representa sempre a existência (e as exigências) de forças sociais empenhadas em conservar determinados privilégios, isto é, em conservar um determinado sistema socioeconômico que garante o estatuto de propriedade de que tais forças são beneficiárias. Daí o conservadorismo intrínseco à direita.”

Esse teor conservador da direita não significa, em nada, que a resistência à mudança se dê de forma pacífica. A corja conservadora sabe que, para garantir a manutenção do poder, são necessários projetos políticos concretos, privatizações, manobras políticas e golpes. A tática de conservação é repressiva: é mais fácil reprimir do que convencer os demais da excelência da agenda política.

Por mais que a direita pareça estar “organizada” e muito bem articulada, ela encerra uma contradição em si: todos os movimentos são baseados em interesses particularistas, só se unem para os objetivos limites de acumulação de capital, de lucro privado. Além do mais, não há unidade entre teoria e prática que é tão conhecida nos meios revolucionários, marxistas-leninistas. Levando essa tendência, esse sistema imperialista, às constantes crises, estando fadado ao fracasso.

O fascismo é ultranacionalista e autoritário, visa o pregresso do país favorecendo uma maior industrialização e tem discursos inflamados de engrandecimento da nação. O regime fascista na Itália de 1919, por exemplo, foi marcado pelo intervencionismo econômico – promover a intervenção e o controle da economia (sobre o Fascismo Italiano, aqui a AulaDe). É, um capitalismo no estilo intervencionista: o governo tem controle de setores da economia visando à industrialização e uma maior proletarização da população. Hoje, isso significaria o fim de nossas leis trabalhistas. Não podemos esquecer uma parte muito importante da agenda fascista: a superioridade racial.

Os anos de concessões e conciliações do governo PT alimentaram o crocodilo fascista que vivia no esgoto. Hoje, ele saiu às ruas vestido de verde e amarelo com pautas que retomam ao terror daquele dia que durou 21 anos. A principal luta política do momento é o processo do impeachment para que Temer e Cunha possam assumir o poder. Processo, esse, sem base legal alguma, como diz a professora Liane Cirne neste vídeo, reproduzido pelo Jornal A Verdade. Não houve qualquer crime de responsabilidade por parte da presidenta.

O maior exemplo – e até um tanto caricato – da representação do fascismo é o deputado estadual do RJ pelo Partido Progressista, Jair Bolsonaro. Militar de reserva, Bolsonaro é a favor da redução da maioridade penal, disse que só não estupra a deputada Maria do Rosário porque ela não merece, fala contra a comunidade LGBT e é um saudosista dos anos de chumbo. No plenário que votava pela abertura do processo do impeachment, Bolsonaro, ao declarar seu voto, fez uma saudação ao terror de Dilma Roussef, Carlos Alberto Brilhante Ustra, diretor do DOI-CODI de São Paulo, que, na ditadura, torturava mulheres grávidas e enfiava ratos em suas vaginas. (veja, aqui o voto de Bolsonaro). Como resposta, Amélia Teles, sobre Ustra.

Não se enganem: Quem defende Bolsonaro tem um lado, e eu não acredito numa defesa inconsciente do sujeitinho. As pessoas sabem o que ele defende. O projeto de sociedade é muito nítido, bem como a agenda política desse fascismo que está saindo do esgoto e já tem seus representantes, bem como seus seguidores.

Hoje, após assistir todas aquelas declarações de voto da Câmara dos Deputados, paira o sentimento de termos retrocedido algumas décadas – e eu espero que não ao ano de 1964. Porém, o que se sobrepõe à derrota, é a certeza de que as ruas desse país se incendiarão com as lutas da classe trabalhadora, que nada tem a perder a não ser seus grilhões. Para terminar, deixo a postagem de um companheiro de luta, Wanderson Pinheiro:

Votação na Câmara, uma derrota da conciliação de classes!

Não concordo que ontem o Brasil viveu uma derrota da esquerda, mas sim da parcela reformista que não só insiste no caminho da conciliação de classes, na aposta nos acordos de gabinete e na composição com os interesses econômicos de grandes grupos empresariais e políticos, das oligarquias mais conservadoras do Brasil.

Mesmo estando à beira do naufrágio, Lula e o PT mantiveram e mantém firmemente este caminho. Isto se expressou no foco das negociações no congresso, realocação de ministérios com a direita e o pouco peso dado para a resistência Popular, as greves ou qualquer debate que incluísse os verdadeiros anseios do nosso povo.

O apelo ao povo se restringiu a defesa da legalidade, como suporte para o PT ter força para barrar o golpe no congresso e correlação de forças para uma saída negociada.

Poucos minutos depois da derrota esta posição é reafirmada pela esquerda reformista: nossa resistência agora segue no senado. Sendo assim, o povo deve se limitar a dar peso para endossar esta via, sem contudo ser chamado para ser uma força decisiva e defender o que realmente lhe interessa, seus reais interesses de classe.

“É verdade que nosso centro deve continuar sendo atacar o inimigo principal. Cunha, Temer, PMDB e PSDB são protagonistas de um golpe contra o povo. Representam a fração da classe dominante que quer intensificar por todos os meios a retirada de direitos, a ampliação da exploração e da repressão contra os trabalhadores.

A questão é que não avançaremos, nem conquistaremos o povo para lutar contra seus inimigos, sem colocarmos no centro a luta por seus direitos, por terra, moradia, fim do ajuste fiscal e sem nenhuma ilusão com posições que pretendem usar o povo para construir novos pactos e acordos com as elites. É preciso apostar nas ruas, preparar o povo para um novo momento que se abre e se intensifica na luta por justiça social.

Seguir um mês depositando esperança na reversão do quadro no senado é não só uma ilusão, como significa deixar o movimento Popular totalmente à reboque dos conchavos no parlamento, caminho do fracasso que dará a vitória aos exploradores do povo.

Precisamos neste momento gastar o precioso tempo que temos e todas as nossas energias construindo com o povo a verdadeira alternativa para a crise. Hoje é mais urgente é necessário ocupar as ruas com a bandeira por mais direitos e pelas bandeiras históricas da esquerda socialista. Precisamos lutar por um novo caminho de unidade do povo pelo poder Popular e pelo Socialismo!!”

Aqui se Respira Lucha

Latinoamérica

Soy… Soy lo que dejaron
Soy toda la sobra de lo que se robaron
Un pueblo escondido en la cima
Mi piel es de cuero, por eso aguanta cualquier clima
Soy una fábrica de humo
Mano de obra campesina para tu consumo

Frente de frío en el medio del verano
El amor en los tiempos del cólera, mi hermano!
Soy el sol que nace y el día que muere
Con los mejores atardeceres
Soy el desarrollo en carne viva
Un discurso político sin saliva
Las caras más bonitas que he conocido

Soy la fotografía de un desaparecido
La sangre dentro de tus venas
Soy un pedazo de tierra que vale la pena
Una canasta con frijoles, soy Maradona contra Inglaterra
Anotándote dos goles

Soy lo que sostiene mi bandera
La espina dorsal del planeta, es mi cordillera
Soy lo que me enseñó mi padre
El que no quiere a su patría, no quiere a su madre
Soy américa Latina, un pueblo sin piernas, pero que camina
Oye!

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
María Rita:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
Susana Bacca:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Calle 13
Tengo los lagos, tengo los ríos
Tengo mis dientes pa’ cuando me sonrio
La nieve que maquilla mis montañas
Tengo el sol que me seca y la lluvia que me baña
Un desierto embriagado con peyote
Un trago de pulque para cantar con los coyotes
Todo lo que necesito, tengo a mis pulmones respirando azul clarito

La altura que sofoca,
Soy las muelas de mi boca, mascando coca
El otoño con sus hojas desmayadas
Los versos escritos bajo la noches estrellada
Una viña repleta de uvas
Un cañaveral bajo el sol en Cuba
Soy el mar Caribe que vigila las casitas

Haciendo rituales de agua bendita
El viento que peina mi cabellos
Soy, todos los santos que cuelgan de mi cuello
El jugo de mi lucha no es artificial
Porque el abono de mi tierra es natural

Totó La Momposina:
Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor
Susana Bacca:
Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Não se pode comprar o vento
Não se pode comprar o sol
Não se pode comprar a chuva
Não se pode comprar o calor
Não se pode comprar as nuvens
Não se pode comprar as cores
Não se pode comprar minha’legria
Não se pode comprar minhas dores

No puedes comprar el sol
No puedes comprar la lluvia
(Vamos caminando)
No riso e no amor
(Vamos caminando)
No pranto e na dor
(Vamos dibujando el camino)
No puedes comprar mi vida
(Vamos caminando)
La tierra no se vende

Trabajo bruto, pero con orgullo
Aquí se comparte, lo mío es tuyo
Este pueblo no se ahoga con marullo
Y se derrumba yo lo reconstruyo
Tampoco pestañeo cuando te miro
Para que te recuerde de mi apellido
La operación Condor invadiendo mi nido
Perdono pero nunca olvido
Oye!

Vamos caminando
Aquí se respira lucha
Vamos caminando
Yo canto porque se escucha
Vamos dibujando el camino
(Vozes de um só coração)
Vamos caminando
Aquí estamos de pie
Que viva la américa!
No puedes comprar mi vida

A lei do silêncio

Não consigo esquecer o que aconteceu

mas ninguém mais se lembra.

A partir da discussão da IV Conferência Mundial, a Organização das Nações Unidas passou a considerar a violência de gênero contra as mulheres como uma questão além da manifestação de relações hierárquicas historicamente desiguais entre homens e mulheres: passou a considerar equidade (não gosto do conceito de ‘igualdade’) necessária para o desenvolvimento pleno dos direitos humanos e das liberdades individuais. Não que isso tenha diminuído em algum grau os índices de violência, mas foi a porta para lei Maria da Penha e para criação de Juizados Criminais Especializados em atendimento à mulher. Sabemos, porém, que a instituição serve aos homens, serve à supremacia masculina e à supremacia branca, então qualquer tentativa de reportar o crime será tida com retaliação, com questionamentos e levantamento de dúvidas quando a palavra da vítima.

Vemos que a própria terminologia pra tratar do tema é insuficiente:

* Violência contra mulher nomeia o objeto do fenômeno, aponta contra quem a violência é praticada. Não aponta, porém, o sujeito da ação. Quem está violentando as mulheres?

* Violência doméstica está mais presente no senso comum, designando o que é próprio da esfera privada (lembrando que a dicotomia público x privado serve de sustentação para essa cultura do estupro. O corpo da mulher é público, porém suas violências estão no âmbito do privado) e situa um ambiente que ocorre essa violência.

* Violência intrafamiliar é uma modalidade da violência que se passa dentro da família, que vem de dentro dela. “O Ministério da Saúde define que a violência intrafamiliar […] não se refere apenas ao espaço físico onde essa violência ocorre mas também às relações em que se constrói e efetua.”

* Violência de gênero é o fenômeno dentro de um contexto de relações de poder produzidas por construção social (socialização).

Vocês perceberam que, em nenhum momento, nomeia-se o sujeito da violência? Quem está nos violentando?

No Brasil, os serviços destinados à intervenção desse fenômeno estruturam-se em, basicamente, três eixos: delegacias especializadas no atendimento à mulher, centros e núcleos de atendimento à mulher e casas de abrigo/casas de passagem. Na cidade de Porto Alegre, mais especificamente, sabemos da insuficiência de políticas públicas que atendam as mulheres vítimas de violência doméstica. Quando essas mulheres decidem sair de um ambiente de agressão, estão se encaminhando para uma situação de violência institucional na qual muitas vezes a própria agressão é questionada.

tumblr_n4142h3ngz1s8q7y6o1_400

 

 

 

 

 

 

 

* NÃO não significa ‘convença-me’

 

A cultura do estupro é um assunto que exige constante vigilância visto que, para sobreviver, esse sistema econômico de produção precisa naturalizar uma série de violências contra a classe trabalhadora e contra – principalmente – as mulheres (fazendo os devidos recortes de raça e classe).

O mais importante é manter o estereótipo de abusador ideal: aquele cara completamente desconhecido que te ataca no beco escuro à noite quando tu estás sozinha.

Nada mais mentiroso e cruel que isso.

48% das mulheres agredidas declaram que a violência aconteceu em sua própria residência; no caso dos homens, apenas 14% foram agredidos no interior de suas casas (PNAD/IBGE, 2009).

77% das mulheres que relatam viver em situação de violência sofrem agressões semanal ou diariamente. Em mais de 80% dos casos, a violência foi cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo: atuais ou ex-companheiros, cônjuges, namorados ou amantes das vítimas. É o que revela o Balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher , da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR). Leia mais no Balanço 2014 do Ligue 180.

Confira as estatísticas completas aqui: aqui

Os casos de violência sexual por desconhecidos representam um número muito pequeno. Os agressores são os nossos amigos que colocam Rohypnol (o famoso boa noite cinderela) na nossa bebida, é o parceiro que nos agride, é o universitária que passa trote opressor nas calouras.

Recentemente, a cantora pop Lady Gaga laçou seu último single como forma de denúncia aos casos de estupro que vêm crescendo exponencialmente dentro do campus universitário. A universidade é um invólucro da sociedade.

[Aviso: gatilho de trauma] 

Apenas as vítimas sabem da luta que precisam travar para levar adiante a denúncia e abrir processo contra seu agressor. Não há política de assistência suficiente, não há sequer centros de referencias bem articulados que operem in full. O clipe mostra o processo inteiro das vítimas para lidar com o estupro.

Precisamos ruir as instituições, precisam queimar toda essa supremacia masculina e toda a cumplicidade que permeia o agressor a continuar agindo com impunidade. Precisamos ajudar umas as outras.

 

Companheira me ajuda, que eu não posso andar só

Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor

Redução não é a solução

O projeto da redução da maioridade penal (que tramitou com caráter de urgência justamente no mesmo ano em que o projeto de privatização das prisões também assumiu caráter de urgência. Curioso, não?) tem como principal argumento, numa campanha rasteira e preconceituosa, que os menores infratores têm papel central no aumento das estatísticas de homicídios a nível nacional.

O que este argumento ignora, no entanto, é que, com estatísticas atualizadas, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que apenas 1% dos homicídios registrados em todo o país são cometidos por jovens entre 16 e 17 anos – inclusive com armas brancas; isso equivaleria apenas a 500 casos de um total de 56.337 homicídios registrados em 2012.

Tendo em vista o cenário de violência urbana, sabemos que suas origens estão intrinsecamente ligadas aos processos de favelização e segregação urbana. As favelas surgiram com a intensificação das contradições sociais e a desigualdade socioeconômica. Sabemos, também, que a redução da maioridade penal tem cor e tem classe. Este projeto é a institucionalização do genocídio da juventude negra.

A culpa não é somente do menor infrator, mas a culpa reside num Estado insuficiente que usa a polícia militar, seu principal braço fascista, como forma de controle e repressão, um Estado que prefere investir em políticas de encarceramento do que em políticas sócio-educativas. A culpa é do sistema de produção capitalista que sobrevive da exploração. Nesta lei, há brechas para legalização do trabalho infantil – e sabemos que a mão de obra infantil é barata e ainda utilizada no campo e algumas áreas urbanas –, para a venda e consumo de bebidas alcoólicas para adolescentes e, também, o caminho para a legalização da prostituição infantil.

Este projeto de lei não vem sozinho, traz consigo um pacote de medidas que visa criminalizar a juventude, cercear seu espaço de luta política e de lazer e impedi-la do acesso à cidade. É um momento crucial para os movimentos sociais, a voz da juventude não será calada.

A vida imita a arte (ou a arte imita a vida?): literatura como forma de dominação e subjugação.

*Foto de uma das intervenções urbanas da artista Jenny Holzer, mostrando que a arte deve ser instrumento de luta política.

É cabível dizer que as produções que consumimos têm forte influência em quem nos tornamos, nas decisões que tomamos e – fazendo um recorte na microestrutura – nos relacionamentos que temos.

A dialética do sexo

As feministas precisam questionar não só toda a cultura ocidental, como a própria organização da cultura, e, mais, até a própria organização da natureza. Porém, para que possamos mudar a situação, precisamos saber como ela surgiu e se desenvolveu, e já falei disso aqui. Marx e Engels foram os primeiros a romper com a linha cartesiana de pensamento e pensar na história como dialética e materialista; isso significa ver o mundo como um processo de ação e reação, mais como um filme do que como um álbum de fotos. Os pensadores antes deles não fizeram se não pensar na história e nas desigualdades como uma questão da moralidade, em que a exploração acabaria pela boa vontade das classes dominantes. Numa sociedade sem classes (econômicas e sexuais), os interesses de todos os indivíduos seriam sinônimos dos da sociedade. Seria um erro tentar explicar a opressão das mulheres a partir duma interpretação estritamente econômica. Podemos perceber isso quando observamos o desenrolar da história.

Crítica feminista e crítica literária

Tanto na vida real como na ficção, os papéis sociais e a condição geral das mulheres têm sido construídos a partir de um conjunto de pressupostos, de valores e de uma moralidade ética determinada previamente por uma perspectiva de dominação patriarcal. Vale ressaltar, também, que para permanência e manutenção desse sistema, o mesmo se escora em instituições artificiais como o casamento, a erotização da subordinação, os ideais de beleza, etc.

Para manter toda uma classe em situação de subordinação – e, de certa forma, porém sem culpa nenhuma, compactuando com isso – essas instituições precisam tornar-se “desejáveis”, precisam ser um ideal. É aí que a arte tem um papel importante na construção da identidade feminina.

O resultado das narrativas ficcionais direcionadas para as mulheres têm sido limitar sua ação social autônoma, criar mitos justificadores, enraizar uma ideologia dominante e, finalmente, atribuir um lugar coadjuvante, secundário e menor, quase sempre irrelevante, às mulheres no desenvolvimento social.

Enfatizo, aqui, a importância da conscientização feminina acerca da necessidade de subvertermos os costumes e os mitos tradicionais, tais como as costumeiras inferioridade e subserviência femininas, a discriminação no estabelecimento de papéis sociais, o eterno feminino e a tradição tão cara aos românticos referente à idealização da mulher.

Dominação e autoritarismo são elementos que permeiam as situações sociais das mulheres e são, frequentemente, incorporadas, propositalmente ou não, em obras da literatura. A análise da situação cultural da mulher é relevante no sentido de verificar como ela é vista pelo Outro, como ela vê o outro e como vê a si mesma. Essa perspectiva está presente na obra ficcional por meio da ação das personagens. Como ocorre com as minorias, a voz da mulher sempre foi silenciada, o que a impediu de desenvolver uma linguagem própria, precisando recorrer à linguagem do gênero dominante. A conquista do nosso espaço acontecerá a medida que assumirmos nosso discurso e, consequentemente, realizarmos uma arte e uma crítica centradas na figura feminina para que, assim, ela adquira visibilidade e voz, saindo do silêncio milenar a qual fomos subjugadas. É aqui que acontece a travessia do invisível para o visível, do silêncio para a fala, e não deve ser uma atividade isolada.

As artes que consumimos quando adultos já servem de para guiarmos nossas ações, definirmos nossa cultura e nos formarmos enquanto sujeitos. Isso tudo pode – e geralmente acontece – operar num nível subconsciente. Vamos nos tornando a arte que consumimos. Precisamos, sempre que consumimos produções artísticas, lê-las com olhares críticos e através da cortina de recortes de opressões (gênero, classe e raça), para que a tradição dominante possa ser desmantelada. A literatura está sob o poder patriarcal e capitalista e dele ela precisa se distanciar.

Beauvoir traz, n’O Segundo Sexo, uma crítica que defende o princípio do conservadorismo masculino, daí a impossibilidade de mulheres serem representadas adequadamente por homens.

“A subjetividade do sujeito é expressa na textualidade: no posicionamento do narrador ante o mundo narrado, na construção do universo ficcional – nas noções de tempo e espaço, nas ações das personagens e na sua construção.”

A constituição do sujeito feminino traz consigo processos históricos que implicaram em transformações relevantes na sociedade – como o surgimento da propriedade privada, por exemplo. Para Marx e Engels, o ser humano não é o sujeito da história, pois pode agir apenas com base nas condições históricas criadas por outros indivíduos e sob as quais nasceu, utilizando os recursos materiais e de cultura já existentes, fornecidos por gerações anteriores.

 

Bibliografia:

 

Gênero e Literatura

Políticas Públicas para Mulheres

A Dialética do Sexo

Trabalhadoras de todo o mundo: uni-vos!

Durante nosso árduo caminho como militante, encontramos pessoas que tornam o trabalho de lutar pela revolução mais amorzinho. Bruna Fraga é uma dessas pessoas. Além de ser companheira de militância feminista e comunista, é uma grande amiga com quem aprendo todo dia uma coisa nova.

Ontem, ela produziu o seguinte texto que, com muito orgulho, compartilho aqui no blog.

“Foi comemorado, com muita luta por todo o Brasil, nessa semana, o 1º de maio, Dia do Trabalho. E é comum que se fale na exploração pela qual todos os trabalhadores do mundo sofrem. E, de fato, são explorados. No entanto, quase nada se fala sobre as condições precárias que vivem as mulheres no mundo do trabalho e os diversos problemas que são enfrentados num espaço de convívio social (assim como a escola e a universidade, o “chão da fábrica” também é um espaço de socialização), onde mulheres e homens ocupam funções de acordo com a leitura que a sociedade faz de seus corpos: uma suposta ~diferença biológica determina as habilidades e competências de cada um, que resulta na existência de divisões de trabalho – trabalhos de mulheres e de homens – e na consequente diferenciação dos salários.

Se partirmos do princípio de que não existe um cérebro feminino e outro masculino e de que possuímos uma estrutura biológica idêntica e potencialidades iguais para desenvolvermos resistência física, salvo a capacidade de amamentação e genitálias diferentes (combinados com órgãos internos, de função reprodutora) – o que não é determinante para absolutamente nada -, então sabemos que essa divisão do trabalho é artificial e não passa de uma reutilização do patriarcado pelo capitalismo, com o objetivo de produzir mais capital. Ou seja, lançam mão do sexismo para justificar uma maior extração de mais-valia absoluta (intensificação do ritmo de trabalho, por meio da vigilância, cronometragem do tempo, reorganização espacial para melhor aproveitamento dos movimentos necessários para a realização de determinada tarefa, etc.). E essa exploração não cabe somente à produção de bens, mas à produção de serviços também, principalmente quando falamos sobre terceirização do trabalho.

A linha tênue que separa a exploração da mulher e a terceirização dos serviços

No setor terciário, a partir da década de 1990, se instala a terceirização dos serviços, que, segundo o Enunciado nº 331, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), torna legal essa prática, “desde que não atinja a atividade-fim da empresa”¹. Em 2005, a porcentagem de trabalhadores terceirizados no total de força de trabalho brasileira cresceu para 16%. “Para as empresas privadas, isso significa menor gasto com as folhas de pagamento e com encargos trabalhistas. Além disso, a contratação de trabalhadores por empresas terceirizadas contribui decididamente para elevar o nível de rotatividade no emprego, mecanismo que as empresas utilizam para demitir e contratar com salários mais baixos”². Nesse sentido, as mulheres, com o advento da terceirização, adentram um pouco mais no mercado de trabalho, mas ainda sob condições insalubres, assédio moral (dos supervisores) e direitos trabalhistas flexibilizados.

No Brasil, a terceirização do trabalho tem como maior alvo mulheres negras e da periferia. Boa parte dos serviços terceirizados é composta pela limpeza e telemarketing, atividades ocupadas majoritariamente por mulheres. E são os dois dos serviços mais precarizados da terceirização.

Segundo Marx, o aproveitamento de determinados setores da sociedade, como forma de diminuição dos custos empresariais e consequente aumento dos lucros, se chama cheap labour, que significa “trabalho barato”. Mulheres são mais exploradas no mundo do trabalho, uma vez que são consideradas mão de obra barata, em decorrência de um acúmulo histórico de opressões. E essas opressões são renovadas, precisam dançar conforme a música, por isso atualizam o seu discurso (os meios de comunicação de massa exercem a função de renovação desse discurso), mas sua essência, no entanto, não mudou. O capitalismo, por sua vez, lança mão dessas opressões para justificar uma maior exploração de força de trabalho, principalmente quando se trata do barateamento dos custos do empregador com o empregado (mulheres brancas, mulheres negras – que são mais exploradas que as brancas -, homens negros e homossexuais são os principais alvos dessa superexploração).

A mulher é explorada gratuitamente

Recaem sobre as costas da mulher todos os serviços domésticos que, historicamente, foram desempenhados por mulheres. E são serviços sem remuneração – o serviço doméstico não é considerado trabalho. O capitalismo ignora conscientemente essa atividade. Silvia Federici, professora e pensadora feminista, afirma que, por vivermos numa sociedade conformada para as relações monetárias, um trabalho que não possui remuneração é sinônimo de exploração alusiva ao trabalho escravo e, assim, para que o capitalismo possa ignorar o trabalho doméstico (que é imprescindível para a reprodução de força de trabalho humana) sem que haja resistência, naturaliza sua exploração.

Os serviços desempenhados em casa, depois de uma cansativa e longa jornada de trabalho, não são reconhecidos como trabalho. E isso é estratégico, é uma forma de que inutilizemos nosso tempo fora do local de trabalho “formal”, de que não nos especializemos nem tenhamos tempo para refletirmos sobre nossas condições de vida. Mas caso isso seja possível, estaremos sempre em desvantagem daqueles que possuem esse privilégio, se conseguirmos conciliar trabalho formal, doméstico e estudos. E os privilegiados, em sua maioria, são os homens – que possuem mais tempo para o aproveitamento do ócio, seja para entretenimento ou formação cultural e intelectual.

Concordo que a classe trabalhadora, de maneira geral, possui pouco tempo para aquilo que foge da esfera do trabalho, mas não podemos colocar trabalhadora e trabalhador em pé de igualdade, em virtude da existência da opressão intraclasse (do homem e sobre a mulher ). Isso não significa dizer que estamos setorizando a luta contra o capitalismo, colocando mulheres contra homens. Isso é concreto, não é nada abstrato. Portanto, para que consigamos conciliar nossos objetivos em comum (a coletivização da propriedade, desde uma perspectiva socialista), precisamos reconhecer que existem demandas diferenciadas e que elas precisam ser ouvidas e respeitadas dentro do movimento socialista, o que quase nunca acontece. Segundo Elisabeth Souza-Lobo, no movimento do ABC paulista da década de 1970, houve uma tentativa de inserção das mulheres nesse movimento, no entanto, “reconhecidas as especificidades da trabalhadora na indústria, as reivindicações das mulheres não foram incluídas na pauta do sindicato, temendo ser confundido com os movimentos feministas que emergiam na época. Assim, o reconhecimento da diferença da mão-de-obra feminina não resultou na sua incorporação às reivindicações do movimento sindical”³.

Nós, mulheres trabalhadoras, não queremos somente o fim da exploração de nossa força de trabalho, mas também o fim daquilo que nos confere uma exploração mais acentuada: nossa configuração enquanto classe política, de acordo com a leitura que fazem de nossa genitália e as marcações sociais que nos são impostas (para que sejamos identificadas como o ser que pode ser subordinado a tudo o que os homens desejarem). Por isso, eu defendo não somente o fim das classes burguesa e trabalhadora, mas também o fim das classes homem e mulher, para além do modo de produção capitalista.”

¹ – ASSUNÇÃO, Diana. A precarização tem rosto de mulher.
² – Idem
³ – http://osocialemquestao.ser.puc-rio.br/…/17_OSQ_25_26_Danie…
Outras fontes:
– http://www.eldiario.es/…/engano-trabajo-asalariado-liberar-…
– SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade.

O feminicídio em Juárez e o pacto de silêncio*

Matéria originalmente publicada no veículo socialista A Verdade

Pela falta de dados, informações e artigos, Juárez não teve o destaque no texto que eu gostaria de ter dado.

 

Ciudad Juárez, Chihuahua, México.

Feminicidios.

Mujeres de entre 18 y 35 años.

El recuento empieza en 1993 con la muerte de la niña Alma Chavira Farel.

Las muertas de Juárez siguen vivas; esperan en la morgue que las bauticen, les pongan nombre para adornar sus cruces.

 

O silêncio ensurdecedor: violências encobertas contra mulheres e crianças *

Tradução/versão do primeiro capítulo do trabalho da escritora e pesquisadora Patrizia Romito

Hoje, a violência contra a mulher já não é um mistério, um segredo. Já não é mais uma questão a ser escondida – ou pelo menos não deveria ser. Estamos cientes da frequência e das consequências da violência doméstica, estupro, assédio moral no trabalho, abuso infantil. Fenômenos, esses, que sequer tinham nome até os anos 70. O movimento de mulheres teve avanços nos últimos 30 anos, produzindo conhecimento, consciência e resistência. Revelou a teia de cumplicidade – com frequência institucional – que permeia o agressor a continuar agindo com impunidade. Porém, ainda há muito a ser feito.

Em 1981, na Itália, foi derrubado o conceito de “crime de honra” da legislação. Tal conceito reduzia drasticamente a pena de quem assassinou a filha, esposa ou irmã se fosse considerado que a “honra” do agressor havia sido ferida. Em outros países da Europa, caiu a chamada “imunidade conjugal”, que não considerava agressão quando havia estupro marital.

Porém, no que concerne comportamento, a sociedade patriarcal ainda nega o sujeito da violência e se volta para a culpabilização das vítimas.

Consideremos, aqui, a violência sexual. Levantamentos de dados para estudos – resultados de pesquisas realizadas com um considerável número da população relacionando com relatórios, julgamentos e condenações – mostra que a chance do agressor ser posto em situação em que não poderá mais cometer outro ato de violência é mínima. De fato, poucos casos de violência contra mulher são reportados.

Ao contrário do que prega o senso comum, muitas das mulheres vítimas de violência doméstica falam, sim, sobre os abusos sofridos. Muitas delas romperam com silêncio e buscaram ajuda, mesmo sob o risco da violência subsequente. Muitos dos casos de estupro parental contêm elementos em comum. A criança conta algo para os avós, para os amigos, para a escola e ela é, então, levada ao hospital por hematomas ou ossos quebrados, mas nada acontece. Na adolescência, ela sofre de problemas comportamentais, pesadelos e ataques de pânico e tenta suicídio, mas ninguém – nem psiquiatras, psicólogos ou assistentes sociais – pergunta a ela o porquê; dão drogas para acalmá-la e, se ela tenta contar, é tratada como uma mentirosa compulsiva. Se ela vai à polícia, é ridicularizada e acusada, novamente, de mentir. Nem todas as mulheres e crianças enfrentam os muros da indiferença e cumplicidade. Isso acontecer ainda nos dias de hoje nos mostra que o coração do problema não se encontra no silêncio das vítimas. Elas gritam. Pesquisas com mulheres vítimas de violência doméstica mostram que apenas uma minoria mantém segredo. Muitas já relataram os casos para amigas, médicos, pais e figuras institucionais, porém raramente são ouvidas, acreditadas ou ajudadas. São, por vezes, insultadas e ameaçadas pelas pessoas a quem elas recorreram.

A imprensa também desenvolve um papel importante na cultura do silêncio. Casos de violência doméstica são cada vez mais noticiados nos telejornais. Mas de que modo isso é feito? Ouvimos os tais “crimes passionais”: homens que não suportavam serem deixados e matam as ex companheiras e/ou cometem suicídio, tudo por “amar demais” ou por “sofrerem demais”. Não se fala em violência masculina, não se fala no sujeito da ação, criando a ideia de que a violência é perpetrada por algum espectro nebuloso chamado misoginia.

Como que, em apenas duas décadas, fomos do total silêncio – do segredo coagido, a supressão das experiências infantis, de tal forma que nem sequer eram ouvidas – a um nível de cacofonia tal que as vozes das crianças, das mulheres não estão, mais uma vez, sendo ouvidas? (Armstrong, 2000a, p 3)

Identificar as várias formas de violência é necessário para traçar um estudo da frequência e da forma que a sociedade patriarcal mantém as mulheres nos seus lugares de submissão. De que forma, também, o pacto de silêncio é útil para que a estrutura não seja ameaçada.

Cidade de Juárez

Ciudad de Juárez é uma cidade mexicana próxima na fronteira com os Estados Unidos. Conhecida por ser um conglomerado de parques industriais é, também, notória por conter a sede de um dos maiores cartéis de drogas do México. Porém, acima de tudo, Juárez é conhecida pelos brutais assassinatos contra mulheres. Desde 1993, quando se começou a contar as mortes, estima-se que mais de 1.100 mulheres perderam suas vidas, e este número é apenas das desaparecidas: não podemos esquecer que grande parte dos crimes contra a mulher não são reportados, logo, não entram para as estatísticas.

A violência contra mulher é sistêmica, nunca um ato isolado. São complexas questões estruturais que datam desde o surgimento dos primeiros espectros da sociedade capitalista-patriarcal. Aqui, eu faço um panorama história de como se deu a formação dessa sociedade.

O pacto de silêncio – a violência contra a mulher

O poder, sabemos, tem duas faces: da dominação e da subordinação, e as mulheres conhecem muito bem a segunda, já que nossa socialização se dá através dela. É isso que a supremacia masculina significa: esse acesso ao corpo da mulher. Os homens “estão permanentemente autorizados a realizar seu projeto de dominação/exploração das mulheres, mesmo que, para isso, precisem utilizar-se da força física” (SAFFIOTI, 2002, p. 203). A culpa é inerente ao gênero mulher, como disse a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, e faz parte da nossa criação enquanto indivíduos. Para a manutenção do status quo, foi importante que as mulheres aprendessem que, qualquer que seja a violência sofrida, elas têm uma parcela dessa culpa.

Assim, surgiu uma cultura do silêncio, de crimes não reportados, de vítimas silenciadas quando tentam reportar. E, por ser privilegiada por isso, a sociedade patriarcal compactua com esse silêncio e o faz um importante fator da manutenção desse sistema que se escora em instituições artificiais. Analisá-las e denunciá-las é colocá-lo em risco.

Em Juárez, os casos de feminicídio têm um tom execução – os assassinatos são o rito de passagem de homens ao ingressarem no mundo do cartel, como forma de dar recado para grupos inimigos. Faltam políticas públicas, e, claro, falta atenção às mulheres que são maioria dentro das fábricas.  A maior fonte de emprego de Juárez são as maquiladoras – empresas situadas na zona de comércio livre que empregam mão de obra barata e exportam materiais para produção estrangeira. A jornada de trabalho é intensa e, a volta para casa, sempre arriscada: o perfil das vítimas são as jovens trabalhadoras de origem humilde.

 

010ni-una-mas11

 

No dia 05 de janeiro de 2011, Susana Chávez, poeta e ativista contra os feminicídios de Juárez – e idealizadora da campanha Ni uma más – fora brutalmente assassinada. Ao total, 13 ativistas defensores dos direitos humanos perderam suas vidas. Susana, como tantos outros casos brutais de feminicídio, fora encontrada com um saco plástico em volta da cabeça e a mão esquerda decepada. Os assassinos, segundo a polícia local – conhecida por ser uma instituição corrupta – eram menores de idade que teriam se desentendido com Chávez. Mais uma vez, vemos que a violência é mascarada.

No velório de Susana, um de seus poemas foi deixado em cima do caixão. A frase que mais me chamou atenção foi:

Sangre mía, sangre de alba, sangre de luna partida, sangre del silencio

Juárez não é um caso isolado, pelo contrário. É uma amostra da macroestrutura operando na microestrutura. Perguntaram-me por que me preocupar com uma cidade tão distante geograficamente. Minha resposta é que, sendo a violência sistêmica, ela é parte da nossa estrutura, das nossas vidas e das ruas da nossa cidade também. Nada disso está longe: temos uma Juárez em cada esquina. E todas nós sangramos.

 

“Opressão”, por Marilyn Frye

Tradução do capítulo “Opression”, da Marilyn Frye, do livro “Politics of Reality: Essays on Feminist Theory”.

Retirado do site: Material Feminista Traduzido =)

 

É reivindicação fundamental do feminismo que mulheres são oprimidas. A palavra “opressão” é uma palavra forte. Ela repele e atrai. É perigosa e perigosamente ameaçada de extinção por estar na “moda”. E constantemente usada erroneamente, por vezes não por inocência.

A afirmação de que mulheres são oprimidas frequentemente bate de frente com a de que homens são oprimidos também. Nós ouvimos que a opressão é opressiva para aqueles que oprimem tanto quanto para aqueles que são oprimidos. Alguns homens citam como evidencia de sua opressão sua inabilidade para chorar. “Somos ensinados”, eles nos dizem, “a sermos masculinos”. Quando os estresses e frustrações de ser um homem são citados como evidencia que os opressores estão sendo oprimidos pela opressão, a palavra “opressão” está sendo então completamente esvaziada e perdendo seu sentido; é tratada como se fosse aplicável a toda e qualquer experiência humana de limitação ou sofrimento, não importa a causa, grau ou conseqüência. Uma vez que esse tipo de uso da palavra nos é imposto, parece que, se negamos que alguma pessoa ou grupo é oprimido, então pensamos que essa pessoa ou grupo nunca sofre ou não tem sentimentos. Nós somos acusadas de insensibilidade, até mesmo de fanatismo. Para mulheres essas acusações são especialmente intimidadoras, já que sensibilidade é uma das poucas virtudes tidas como femininas. Se nós somos taxadas de insensíveis, temos medo de não termos mais salvação, e de que talvez não sejamos mais mulheres de verdade. Somos silenciadas antes mesmo de começar: o nome de nossa situação é esvaziada de sentido e nossos mecanismos de culpa são ativados.

Mas isso não faz sentido. Seres humanos podem ser miseráveis sem serem oprimidos, e é perfeitamente consistente negar que uma pessoa ou grupo é oprimido sem negar que eles têm sentimentos e que eles sofrem. Nós precisamos pensar claramente sobre essa palavra “opressão”, e há muito mais atenuantes que vão contra esse tipo de uso arbitrário. Eu não quero ter que me ocupar de provar que mulheres são oprimidas (e que homens não são), mas eu quero deixar claro o que está sendo dito quando nós usamos essa palavra. Nós precisamos dessa palavra, desse conceito, e necessitamos que ele esteja bem afiado e definido.

I

A origem da palavra “opressão” é o elemento “pressão”. “A pressão da multidão; pressionado a entrar para o serviço militar; pressionar um par de calças; máquina impressora; pressionar o botão.” Pressões são usadas para moldar coisas, compactá-las ou reduzi-las a granel, por vezes espremendo para fora os gases ou líquidos dessa coisa. Algumas vezes pressão é o que está compreendido entre forças e barreiras que estão ligadas umas as outras e conjuntamente contem, restrigem ou impedem o movimento ou a mobilidade de alguma coisa. Molde. Imobilizar. Reduzir.

A experiência mundana dos oprimidos nos dá outra pista. Um dos mais característicos e ubíquos aspectos do mundo que é experimentado por pessoas oprimidas é o chamado “nó duplo”: situações nas quais nossas opções são reduzidas a muito poucas e todas elas vem com penas, censuras e depravações. Por exemplo, é constantemente demandado de nós, pessoas oprimidas, que sorriamos e sejamos simpáticas. Se nós concordamos, sinalizamos doçura e aquiescência. Então, obviamente, parece que está tudo bem e não há nada de errado com a situação na qual nos encontramos. Nós concordamos em sermos invisibilizadas, em não ocuparmos nosso espaço. Nós participamos de nosso próprio apagamento. Por outro lado, se escolhermos não obedecer, o menor sinal de descontentamento nos expõe a sermos percebidas como pessoas más, amarguradas, raivosas ou perigosas. Isso significa, pelo menos, que nós seremos tidas como “difíceis” ou “desagradáveis de se conviver com”, o que é o suficiente para custar nossas vidas; na pior das hipóteses ser vista como má, amargurada, raivosa ou perigosa resulta em estupro, prisão, espancamento e assassinato. Concluo que só nos resta escolher como preferimos ser aniquiladas.

Outro exemplo: é comum nos Estados Unidos que mulheres, especialmente mulheres mais novas, se encontrem num nó duplo no qual nem ser sexualmente ativa nem ser sexualmente inativa é ok. Se ela é heterossexualmente ativa, essa mulher está exposta a censura e punição por ser “sem princípios” ou uma “vadia”. A punição geralmente vem na forma de criticas ou falsos rótulos como “mulher fácil”, além de desprezo por parte de suas amigas mais contidas. Ela talvez tenha que mentir para esconder seu comportamento dos pais. Também terá que escolher entre os riscos de uma gravidez indesejada ou de perigosos contraceptivos. Por outro lado, se ela se refreia perante a atividade heterossexual, ela é constantemente assediada por homens que tentaram persuadi-la e pressiona-la a fazer sexo, mandando-a a “relaxar” e “ficar tranquila”; ela receberá rótulos como “frigida”, “nervosa”, “odiadora de homens”, “vaca” e “provocadora”. Os mesmos pais que estariam desaprovando sua atividade sexual agora estarão preocupados com sua inatividade porque isso sugere que ela não é ou não será popular, ou que não é sexualmente saudável. Ela provavelmente será acusada de lesbianismo. Se uma mulher é estuprada e até então era heterossexualmente ativa, ela será acusada de “ter gostado” (porque sua atividade demonstra que ela gosta de sexo) e se ela até então não era heterossexualmente ativa, será acusada de ter gostado (porque ela era supostamente “reprimida e frustrada”). Ambos tipos de sexualidade, ativa ou inativa, estão sujeitas a ser consideradas provas de que você queria ter sido estuprada e que, obviamente, aquilo não era um estupro de verdade. Você não pode vencer. Estamos todas num empacadas em nós duplos, presas entre opressões sistemáticas.

Mulheres são pegas dessa forma, também, por redes de forças e barreiras que as expõe a penas, perdas ou desprezo, quer elas trabalhem em casa ou não, quer elas estejam bem de saúde ou não, tenham crianças ou não, eduquem crianças ou não, casem ou não, permaneçam casadas ou não, sendo heterossexual, lésbicas, ambos ou nenhum. Necessidades econômicas, confinamento em trabalhos em guetos raciais e/ou sexuais; assédio sexual; discriminação sexual; pressões para atender a expectativas e julgamentos sobre mulheres, esposas e mães (na sociedade como um todo, em subculturas raciais e étnicas e na cabeça de cada uma); dependência (completa ou parcial) de seus maridos, parentes ou do Estado; compromisso com idéias políticas; lealdade a grupos raciais, étnicos ou de outras “minorias”; as demandas de respeito próprio e responsabilidade para com outros. Cada um desses fatores existe em completa tensão com todos os outros, nos penalizando ou nos proibindo toda vez que escolhemos por uma opção aparentemente disponivel. Sempre beliscando nossos calcanhares, claro, é um pacote infinito de pequenas coisas. Se uma mulher se veste de uma determinada forma, ela está sujeita a presumirem que essa forma pretende traduzir sua disponibilidade sexual; se uma mulher se veste de outra forma, está sujeita a ser julgada como “desleixada” ou “não feminina o suficiente”. Se uma mulher usa uma “linguagem forte”, será categorizada como uma “dama” – ela é delicadamente instituída para lidar com discursos robustos ou com as realidades as quais presumivelmente se refere.

A experiência de pessoas oprimidas é de que suas vidas são confinadas e moldadas por forças e barreiras que não são acidentais ou ocasionais e, por conseguinte, não evitáveis, mas são sistematicamente ligadas umas as outras de tal forma a pressionar indivíduos entre elas e restringi-los e penalizá-los de diferentes formas. É a experiência de ser enjaulado; todos os caminhos, todas as direções, estão bloqueados.

Jaulas. Considere a jaula de um passarinho. Se você olhar bem de perto para apenas um arame da jaula, você não consegue ver os outros. Se sua concepção do que está antes de você é determinada por esse foco míope, você poderia olhar para só um arame, pra cima e pra baixo de toda sua extensão, e ser incapaz de entender porque o passarinho não pode voar em volta do arame a qualquer momento e ir aonde ele quiser.  Além disso, mesmo que, algum dia, você miopiamente inspecione cada arame, você ainda não poderá ver porque o passarinho tem dificuldade de ir além dos arames e chegar a qualquer lugar. Não há qualquer propriedade física de qualquer um dos arames, nada que o mais próximo escrutínio possa descobrir que vá revelar porque o passarinho está inibido ou prejudicado por ela, com exceção de casos acidentais. É só quando você dá um passo atrás e para de olhar para os arames microscopicamente, e então enxerga macroscopicamente toda a gaiola, que você consegue entender porque o passarinho não vai a lugar algum; daí só vai levar um instante. Não requer nenhum grande poder mental. É perfeitamente obvio que o passarinho está rodeado por uma rede de barreiras sistemáticas, as quais nenhuma seria, sozinha, um impeditivo para esse passarinho voar, mas juntas, relacionadas umas as outras, são tão confinadoras quando as sólidas paredes de um calabouço.

Agora talvez seja possível compreender uma das razões pelas quais opressão pode ser difícil de ver e reconhecer: uma pessoa pode estudar os elementos de uma estrutura opressiva com grande dedicação e algum cuidado sem ver a estrutura como um todo, e, por tanto, sem ver ou ser capaz de entender que está olhando para uma gaiola e que há pessoas que estão enjauladas nela, pessoas cujos movimentos estão restritos, cujas vidas estão moldadas e reduzidas.

As limitações da visão microscópica rendem confusões comuns como a que diz respeito ao ritual masculino de “abrir as portas”. Esse ritual, que é extremamente difundido por todas as classes e raças, intriga muitas pessoas, algumas das quais o acham e algumas das quais não o acham ofensivo. Olhe para a cena de duas pessoas se aproximando de uma porta. O homem dá dois passos a frente e abre a porta. O homem segura a porta aberta enquanto a mulher passa. E só depois o homem passa. A porta fecha atrás deles. “Agora como”, eles inocentemente perguntam, “podem aquelas malucas daquelas mulheres libertárias dizerem que isso é opressivo? O homem removeu uma barreira para facilitar o suave e prático progresso da moça.”. Mas cada repetição desse ritual tem um lugar no padrão, nos padrões. É preciso elevar seu nível de percepção para poder entender o quadro geral.

O ritual de abertura de portas pretende ser um serviço útil, mas é de uma utilidade falsa. Isso pode ser notado ao percebermos que será realizado quer tenha ou não um sentido prático. Homens enfermos e homens sobrecarregados com pacotes irão abrir portas para mulheres sem deficiências que estão livres de encargos físicos. Homens irão se impor desajeitadamente e empurrarão todos pra chegar até a porta primeiro. O ato não é determinado por conveniência ou graça. Além disso, estes muitos numerosos atos de desnecessária ou mesma perniciosa “ajuda” ocorrem em contra-ponto a um padrão: de homens não serem úteis de muitas outras formas que poderiam ajudar verdadeiramente as mulheres.

O que as mulheres experimentam é um mundo no qual o príncipe encantado constantemente faz uma confusão sobre ser útil e prover pequenos serviços quando ajuda e serviços são de pouca ou nenhuma utilidade, mas no qual eles raramente são verdadeiros príncipes quando precisamos de assistência substancial, em tarefas difíceis ou situações de medo e terror. Não há ajuda quando há roupas (dele) para lavar; não há ajuda quando estamos digitando relatórios as quatro da manhã; não há ajuda quando estamos mediando brigas entre parentes ou entre as crianças. Não há nada mais que um aviso de que as mulheres devem ficar dentro de casa após o escurecer, acompanhadas por um homem, ou quando chega a essa situação, “deitar de bruços e aproveitar”.

Os gestos galanteadores não tem um significado prático. Seu significado é simbólico. O ritual de abertura de portas e outros serviços similares que eles nos prestam são serviços demandados apenas por pessoas que por uma razão ou outras estão incapacitadas – indispostas ou sobrecarregas. Então a mensagem é que as mulheres são incapazes.  O abismo entre o que os atos oferecem e a realidade concreta do que as mulheres precisam é um veiculo para a mensagem de que as reais necessidades e os reais interesses das mulheres são irrelevantes ou pouco importantes. Finalmente, esses gestos imitam o comportamento de funcionários em relação a mestres e, por tanto, as mulheres, que são em muitos aspectos as servas e guardas dos homens. A mensagem da falsa ajuda masculina é a dependência feminina, a invisibilidade ou insignificância das mulheres, o desprezo por nós.

É impossível ver o significado desses rituais se estamos focadas neles individualmente em suas particularidades, incluindo as particularidades dos indivíduos envolvidos naquele especifico ritual, mais precisamente o homem e suas intenções e motivações conscientes, ou a mulher e sua percepção consciente do evento naquele momento. Parece, algumas vezes, que pessoas pegam deliberadamente a visão míope e preenchem seus olhos com ela e seus elementos microscópicos, só para não serem obrigadas a ver o macroscópico. De qualquer maneira, seja deliberadamente ou não, as pessoas podem e falham em ver a opressão das mulheres porque elas falham em ver macroscopicamente e por isso falham em enxergar os vários elementos da situação como são: sistematicamente relacionados em um esquema mais amplo.

Como a gaiola do passarinho é um fenômeno macroscópico, a opressão das situações nas quais as mulheres vivem suas várias e diferentes vidas é também um fenômeno macroscópico. Nenhum dos dois pode ser enxergado a partir de uma perspectiva microscópica. Mas quando você vê a partir da perspectiva macroscópica você enxerga – uma rede de forças e barreiras que estão sistematicamente ligadas e que conspiram para imobilização, redução e molde das mulheres e as vidas que vivemos.

II

A imagem da gaiola nos ajuda a reconhecer um aspecto da sistemática natureza da opressão. Outro aspecto é a seleção de quem vai ocupar a gaiola, e a analise desse aspecto também nos ajuda a entender a invisibilidade da opressão das mulheres.

É enquanto mulher (ou enquanto chicana, ou enquanto negra ou asiática ou lésbica) que essa pessoa está enjaulada.

“Porque eu não posso ir ao parque? Você deixou o Jimmy ir!”

“Porque não é seguro pra meninas.”

“Eu quero ser uma secretária, não uma costureira. Eu não quero aprender a fazer vestidos.”

“Não há espaço para negros nesse mercado. Aprenda algo que vá te sustentar.”

Quando você questiona porque está sendo bloqueada, porque essa barreira está no seu caminho, a resposta não tem a ver com seu talento individual ou mérito, desvantagens ou fracassos, tem a ver com o seu pertencimento a alguma categoria entendida como “natural” ou “física”. A “habitação” da jaula não é individual mas coletiva, todos aqueles de uma determinada categoria. Se um individuo é oprimido, é em virtude de ser membro de um grupo ou categoria de pessoas que são sistematicamente reduzidas, moldadas e imobilizadas. Por tanto, para reconhecer que uma pessoa é oprimida, essa pessoa tem que individualmente pertencer a um grupo de um certo tipo.

Há vários fatores que podem encorajar ou inibir a percepção de pertencimento de alguma pessoa ao grupo ou categoria em questão aqui. Em particular, parece razoável supor que se um dos dispositivos de restrição e definição de um grupo oprimido é o de confinamento físico e segregação, o confinamento e a separação iriam encorajar o reconhecimento daquele grupo enquanto um grupo. Isso iria, então, encorajar o foco macroscópico que nos permite reconhecer a opressão e encoraja a identidade dos indivíduos e, por tanto, a solidariedade com outros indivíduos daquele mesmo grupo ou categoria. Mas o confinamento físico e a segregação do grupo enquanto um grupo não é comum a todas as estruturas de opressão, e quando um grupo oprimido é geograficamente e demograficamente disperso a percepção desse grupo enquanto um grupo é inibida. Talvez haja pouco ou nenhum fator nas situações dos indivíduos que encoraje a visão macroscópica que poderia revelar a unidade da estrutura pressionando para baixo todos os membros daquele grupo.*

(* Assimilação forçada é, na realidade, uma das políticas disponíveis para um grupo opressor para reduzir ou aniquilar outro grupo. Essa tática é usada pelo governo dos Estados Unidos com os americanos indianos.)

Um grande número de pessoas, mulheres e homens de todas as etnias e classes, simplesmente não acreditam que mulher é uma categoria de pessoas oprimidas, e eu acho que isso se deve em parte porque eles vem sendo enganados pela dispersão e assimilação das mulheres em todo e para todos os sistemas de classe e raça que organizam os homens. Ou simplesmente ser dispersa torna mais difícil para as mulheres ter conhecimento umas sobre as outras e por tanto dificulta o reconhecimento de que estamos presas em gaiolas com formatos muito similares. A dispersão e a assimilação das mulheres através das classes econômicas e raças também nos divide umas contra as outras de forma prática e econômica e, por tanto, atribui interesses para a incapacidade de ver: para algumas, a inveja de seus benefícios, e para outras, o ressentimento das vantagens de outros.

Para superar isso, ajuda perceber que, de fato, mulheres de todas as raças e classes estão juntas em um gueto de classificações. Não há um lugar das mulheres, um setor, que é habitado por mulheres de todas as classes e raças, isso não é definido pelos limites geográficos mas pela função. A função está a serviço ao homem e aos interesses dos homens. São os homens que as definem, e isso inclui a criação e a educação dos filhos. Os detalhes do serviço e da condição de trabalho variam de acordo com raça e classe, porque homens de diferentes raças e classes tem interesses diferentes, percebem seus interesses de formas diferentes e expressam suas necessidades e demandas em diferentes retóricas, dialetos e linguagens. Mas também existem algumas constantes.

Seja na baixa, média ou alta classe, na esfera doméstica ou de trabalho remunerado fora de casa, o serviço da mulher sempre inclui o serviço pessoal (o trabalho de baba, cozinheira, secretária)*, serviço sexual (incluindo provisões para as necessidades sexuais do genital do homem e a criação de seus filhos, mas também incluindo “ser legal”, “ser atraente”, etc) e o serviço de ego (encorajamento, suporte, dedicação, atenção). O serviço da mulher também é caracterizado em todos os lugares pela fatal combinação de responsabilidade e falta de poder/autoridade: nós somos responsáveis pelo bons resultados e rumos de nossos homens e crianças em quase todos os aspectos, mas ainda assim nós não temos nenhum poder para realizar esses projetos. Os detalhes das subjetividades dessas experiências de servitude são locais. Eles variam de acordo com a classe econômica, raça, e tradições étnicas bem como as personalidades dos homens em questão. Assim são também os detalhes das forças que forçam nossa tolerância a essa servidão em particular, para as diferentes situações nas quais as mulheres vivem e trabalham.

(*Em classes mais altas mulheres talvez não façam todos esses tipos de trabalhos, mas geralmente ainda sim são responsáveis por contratar e supervisionar aquelas que o fazem. Esses serviços então ainda são, nesses casos, responsabilidade da mulher).

Tudo isso não quer dizer que as mulheres não tem que, afirmam e gerenciam, por vezes, para satisfazer nossos próprios interesses, nem negar que em alguns casos e, em alguns aspectos, interesses independentes das mulheres se sobrepõem aos dos homens. Mas em todos os níveis de raça/classe e até mesmo através das linhas de raça/classe, homens não servem as mulheres como mulheres servem aos homens. “Esfera feminina” talvez seja entendido como “setor de serviços”, levando essa expressão a um nível muito mais amplo e profundo em relação ao que geralmente é habitual nas discussões sobre economia.

III

Parece ser da condição humana que em um grau ou outro nós todos sofremos de frustrações e limitações, nós todos encontramos barreiras indesejáveis, e nós todos somos prejudicados e machucados de diferentes formas. Tendo em vista que somos uma espécie social, quase todos os nossos comportamentos e atividades são estruturados por muito mais que uma tendência pessoal ou condições do nosso planeta e sua atmosfera. Nenhum ser humano está livre das estruturas sociais, e nem mesmo, talvez, felicidade esteja nessa liberdade. Estruturas consistem em limites e barreiras; em um conjunto de estruturas algumas mudanças e alterações são possíveis, outras não. Se alguém está procurando por uma desculpa para diluir a palavra opressão, pode se utilizar do fato de que uma estrutura social atinge a todos para dizer que todos somos oprimidos. Mas se essa pessoa prefere esclarecer o que a opressão é o que não é, então precisa resolver os sofrimentos, danos e limitações e descobrir quais são os elementos de opressão e quais não são.

A partir do que eu já disse, está claro que se uma pessoa quer determinar se um sofrimento, dor ou limitação particular é parte de uma opressão, essa pessoa precisa olhar para todo o contexto a fim de dizer se se trata de um elemento dentro de uma estrutura opressiva; essa pessoa precisa ver se esse elemento é parte de uma estrutura sólida de forças e barreiras que tendem a imobilizar e reduzir um grupo ou categoria de pessoa; essa pessoa tem que observar como essa barreira ou força se encaixa com outras; e a quem essa barreira ou força beneficia, em detrimento de quem ela funciona. Assim que essa pessoa olhar para essas mostras, se torna obvio que nem tudo que frustra ou limita alguém é opressivo, e nem todo mal ou dano se deve ou contribui para uma opressão.

Se um playboy branco e rico que vive da renda de seus investimentos em minas de diamantes na África do Sul quebra sua perna em um acidente de esqui em Aspen e tem que esperar, com dor, numa nevasca de horas antes de ser resgatado, nós assumimos que, naquele período, ele sofreu. Mas seu sofrimento tem um fim; sua perna é reparada pelo melhor cirurgião que o dinheiro consegue comprar e ele logo vai estar se recuperando em uma suíte bebericando Chivas Regal. Nada nessa cena sugere que há uma estrutura de barreiras e forças. Ele é parte de vários grupos opressores e não se torna de repente oprimido porque está em situação de injuria e sentindo dor. Mesmo se o acidente tivesse sido causado pela negligencia maliciosa de alguém, e por tanto alguém pudesse levar a culpa por isso e ser moralmente responsabilizado, essa pessoa ainda sim não seria um agente de opressão.

Outro exemplo: as fronteiras dos guetos raciais em uma cidade americana servem até certo ponto para impedir pessoas brancas de entrarem bem como para evitar que os moradores do gueto saiam. Um cidadão branco talvez se sinta frustrado ou privado porque ele ou ela não pode passear e curtir a aura “exótica” de uma cultura “estrangeira”, ou fazer compras a baixos custos nos shoppings do gueto. Na verdade, a própria existência do gueto, da segregação racial, priva a pessoa branca de conhecimento e fere o personagem dela ou dele ao consolidar injustificavel sentimentos de superioridade. Mas isso não faz com que a pessoa branca dessa situação seja pertencente a uma raça oprimida ou seja uma pessoa oprimida por sua raça. Você deve olhar para a barreira. Ela limita as atividades e o acesso daqueles que estão nos dois lados dela (embora em diferentes níveis). Mas ela é produto da intenção, planejamento a ação de pessoas brancas pelo beneficio de pessoas brancas, para assegurar e manter privilégios que estão disponíveis apenas para pessoas brancas num geral, e membros desse grupo dominante e privilegiado. Ainda que a existência da barreira resulte em algumas conseqüências ruins para as pessoas brancas, a barreira não existe em uma sistemática relação com outras barreiras e forças formando uma estrutura opressiva para os brancos; na verdade, é exatamente ao contrário. É parte da estrutura que oprime moradores do gueto e por então protege e garante interesses das pessoas brancas e sua cultura branca enquanto dominante. Essa barreira não é opressiva aos brancos, ainda que seja uma barreira para os brancos.

Barreiras tem significados diferentes para aqueles que estão em lados opostos delas, ainda que sejam barreiras para ambos. As paredes físicas de uma prisão são tão eficazes para impedir alguém de fora de entrar quanto para deixar alguém de dentro sair, mas para aqueles que estão dentro elas significam confinamento e limitação, enquanto para aqueles que estão de fora elas significam proteção daquilo que essas pessoas consideram ameaças, que se materializam na idéia da liberdade das pessoas de dentro de todo o mal ou ansiedade. Uma série de barreiras e forças sociais e econômicas que separam esses grupos talvez sejam sentidas, de forma dolorosa, pelos membros de ambos os grupos, e ainda assim eles significam confinamento para uns e liberdade e alargamento de oportunidade para outros.

O setor de serviço das esposas/mães/assistentes/meninas é quase que exclusivamente um setor de mulheres; seus limites não só enclausuram as mulheres, mas mantém os homens fora. Alguns homens ás vezes encontram essa barreira e experimentam-na como uma restrição aos seus movimentos, suas atividades, ao controle que tem sobre suas próprias escolhas e “estilo de vida”. Se pensarmos que eles talvez gostem daquele estilo de vida (que eles provavelmente imaginam ser livre de estresses, alienações e trabalho duro), e se sentem privados já que lhes parece tão restrito a homens, eles então anunciam que descobriram ser oprimidos, também, pelos papeis de gênero. Mas essa barreira foi erguida e é mantida pelos homens, em beneficio dos homens. Consiste em forças e pressões culturais e econômicas em uma cultura e economia controlada pelos homens para que, em todos os níveis econômicos e em todas as subculturas raciais e étnicas, tradições e mesmo nas ideologias de liberação do trabalho, ao menos a cultura e economia local estejam sob controle dos homens.*

(*É claro que isso é complicado por fatores de raça e classe. Machismo e políticas “fraternidade negra” parecem ajudar a manter homens negros e latinos no controle de mais dinheiro que mulheres negras e latinas; mas, ainda assim, a economia mais ampla continua sob o controle do homem branco.)

Os limites que os mantém separados da esfera feminina são mantidos e promovidos por homens em beneficio dos homens, e os homens se beneficiam de sua existência, até mesmo homens que esbarram nessa barreira e reclamam de tal inconveniência. Essa barreira está protegendo a sua classificação e seu status enquanto homem, de superior, de ter garantido seu direito a acessar sexualmente uma mulher ou a mulheres num geral. Essa barreira protege um tipo de cidadania que é superior à das mulheres de sua classe e raça, protege o seu acesso a um patamar extenso de trabalhos com melhor remuneração e não só isso como status mais altos dentro do mercado, e seu direito a preferir ficar desempregado a se submeter à degradação de desempenhar trabalhos de status mais baixo ou trabalhos tidos como “femininos”.

Se a vida ou atividade de uma pessoa é afetada por alguma força ou barreira que essa pessoa encontra, não se deve concluir que aquela pessoa é oprimida simplesmente porque ela encontra essa força ou barreira; nem só porque o encontro é desagradável, frustrante ou doloroso àquela pessoa naquele momento; nem só porque a existência da barreira ou força, ou o processo que mantém ou aplica ele, serve a privação daquela pessoa a algo de valor. Deve-se olhar para a força ou barreira e responder algumas questões sobre ela. Quem a constrói e quem a mantém? Aos interesses de quem a existência dela serve? Ela é parte de uma estrutura que tende a confinar, reduzir e imobilizar algum grupo? É esse individuo um membro do tal grupo? Uma pessoa pode encontrar ou viver com várias forças, barreiras e limitações sem que elas necessariamente pertençam a uma estrutura opressiva, e se elas pertencem, essa pessoa pode estar ou do lado do opressor ou do lado do oprimido, e isso não pode ser determinado pelo quão alto ou quão baixo essa pessoa reclama.

IV

Muitas das retenções e limitações que vivenciamos são internalizadas (em níveis diferentes) e monitoradas por nós mesmas. São parte de nossa adaptação aos requerimentos e expectativas impostas pelas necessidades, gostos e tiranias dos outros. Eu tenho em minha mente tais coisas como: as posturas restritas das mulheres e seus avanços atenuados, e a restrição emocional dos homens (exceto quando se trata de raiva). Quem ganha o que da prática dessas disciplinas, e quem impõe as penas quando relaxamos e quebramos as regras? Quais são as recompensas por bom comportamento?

Os homens podem chorar? Sim, em companhia de mulheres. Se um homem não pode chorar, certamente é na companhia de outros homens. São os homens, não as mulheres, que requerem tal característica uns dos outros. Um homem que mantém-se resistente ou descontraído (todas são formas que sugerem invulnerabilidade) passa a ser tido como um membro da comunidade masculina e passa a ser estimado pelos outros homens. Isso é bom, e esse homem poderá se sentir bem consigo mesmo. Consequentemente, a manutenção daquele comportamento pode contribuir para a auto-estima desse homem. A forma como essas restrições se encaixam nas estruturas das vidas desses homens é que os comportamentos sociais requeridos são tais que, se cumpridos, contribuem para o aceitamente e respeito perante outros significativos e contribuem também para sua própria auto-estima. É em seu próprio beneficio que eles praticam essa disciplina.

Considere, só para efeito de comparação, a disciplina das rigorosas posturas físicas de uma mulher. Essa disciplina pode ser deixada um pouco de lado na companhia de outras mulheres, geralmente é mais vigorosa na companhia dos homens. * Mas assim como as retenções emocionais dos homens, as retenções físicas das mulheres são requeridas pelos homens. Mas ao contrário das retenções emocionais dos homens, as retenções físicas das mulheres não dão recompensas. O que ganhamos com isso? Respeito, estima e aceitação? Não. Eles zombam de nós e fazem paródias das nossas falhas. Nós parecemos fracas, incompetentes, bobas e geralmente desprezíveis. Nosso exercício dessa disciplina tende a abaixar nossa estima e nossa auto-estima. Não nos beneficia. Se encaixa numa rede de comportamento através das quais nós constantemente anunciamos aos outros nosso pertencimento a uma suposta casta mais alta e nossa falta de vontade e/ou inabilidade de defender nossa integridade física e moral. É degradante e parte do padrão de degradação.

Os comportamentos aceitáveis para ambos os grupos, homens e mulheres, envolvem retenções que parecem em si mesmo bobas e talvez um tanto quanto danosas. Mas os efeitos sociais são drasticamente diferentes. As retenções das mulheres são parte de uma estrutura opressiva às mulheres, as restrições dos homens são parte de uma estrutura opressiva às mulheres.

(*C.F., “Let’s take back OUT space: “Female” and “Male” body language as a Result of Patriarchal Structures, por Marianne Wex (Frauenliteratureeverlag Hermine Fees, West Germany, 1979), especialmente pg. 173. Esse notável livro apresenta literalmente centanas de fotos de homens e mulheres, em publico, sentados, de pé e deitados. Ele vivamente demonstra as várias sistemáticas diferenças entre as posturas e gestos dos homens e mulheres.)

V

Alguém é marcado para sofrer as pressões opressivas por causa de seu pertencimento a um grupo ou categoria. A maior parte do sofrimento e frustração daquela pessoa se deve ao fato de que aquela pessoa pertence àquela categoria. Nesse caso em especifico, é essa a categoria que tratamos, mulher. Ser uma mulher é um fator de peso quando falamos sobre não termos trabalhos melhores que os nossos; ser uma mulher me faz uma provável vitima de assédio ou abuso sexual; é eu ser mulher que reduz o poder da minha raiva a uma mera prova da minha insanidade. Se uma mulher tem pouco ou nenhum poder econômico ou político, ou alcança apenas uma pequena parte daquilo que ela quer alcançar, um grande e significante fator nisso é que ela é uma mulher. Para qualquer mulher de qualquer raça ou classe econômica, ser uma mulher está significantemente ligado a qualquer desvantagens ou privações que ela sofra, sejam elas grandes ou pequenas.

Não é o caso quando estamos falando de um homem. Simplesmente ser um homem não é o que se coloca entre ele e um emprego melhor; seja lá quais sejam os assédios ou abusos que ele esteja sujeito a, ser um homem não é o que o faz a vitima perfeita; ser um homem não transforma sua raiva em impotência – bem ao contrário, na verdade. Se um homem tem pouco ou nenhum poder material ou político, ou alcança apenas parte daquilo que ele quer alcançar, ser um homem não faz parte da explicação. Ser um homem é algo que ele tem a seu favor, ainda que talvez raça, classe, idade ou deficiência esteja contra ele.

Mulheres são oprimidas enquanto mulheres. Membros de um certo grupo ou classe racial e/ou econômica, ambos homens e mulheres, são oprimidos enquanto membros daqueles grupos ou classes raciais e/ou econômicas. Mas homens não são oprimidos enquanto homens.

… e não é estranho pensarmos que já estivemos confusas e mistificadas em relação a algo tão simples?

NOTAS

  1. Esse exemplo foi tirado de “Daddy Was A Number Runner”, de Louise Meriwether (Prentice-Hall, Englewood Cliffs, New Jersey, 1970), p.l44.

Texto original: http://feminsttheoryreadinggroup.wordpress.com/2010/11/23/marilyn-frye-the-politics-of-reality-oppression/

Tradução: A.M., de www.materialfeministatraduzido.tumblr.com