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Precisamos falar sobre o Sr. Grey*

*título alusivo à obra Precisamos falar sobre Kevin

 

Aviso: o conteúdo do texto pode ser gatilho de trauma.

Em tempos de lançamento da adaptação para o cinema da obra 50 tons de cinza, acho necessário colocar em perspectiva essa romantização de abusos físicos e psicológicos que percebemos nas artes que consumimos desde que somos bem pequenas.

Nós precisamos falar sobre abuso. E precisamos falar o quê a romantização desse abuso está ensinando pras nossas meninas.

A construção da sexualidade feminina gira em torno da nossa subordinação. Isso pode ser facilmente constatado no que a pornografia, esmagadoramente, mostra: a erotização da dominação e da subordinação.

A literatura, por sua vez, romantiza esse vínculo de poder na forma do amor romântico (alguém se lembra do enredo d’A Bela e a Fera?). Nessas obras, o amor é sempre descrito, nunca analisado. Sei que já afirmei isso antes (aqui), mas vai de novo: é necessário que mulheres aprendam essa ideia romantizada, pois esse mesmo amor romântico é um dos alicerces do patriarcado/capitalismo: logo que surgiu a primeira noção de propriedade privada surgiu, também, a necessidade de haver vínculos rígidos com a mulher do núcleo familiar para que, assim, os bens de quem controla os meios de produção (o homem) pudessem passar para a próxima geração.

Colocar isso em análise é ameaçar esse sistema que opera sobre hierarquias tão logo esse amor é inerente à estrutura de poder e dominação. A supremacia masculina, então, escora-se em instituições artificiais (qual o conceito mais artificial e abstrato do que o “amor” que somos ensinadas a buscar?) para que a família patriarcal se mantenha rígida, sólida.

O romantismo é um desses alicerces abstratos que mantém tudo no lugar: “[…] é um instrumento cultural do poder masculino para impedir que as mulheres conheçam sua condição”, como diz a Shulamith Firestone, em A Dialética do Sexo.

Quem se lembra das aulas de literatura? O romantismo surgiu no final do século 18 e suas características eram a retratação de dramas humanos, utopia e amores trágicos. Seus componentes são a erotização e o ideal de beleza – e sabemos que todo o ideal exclui a maioria. Não é gratuito que esse movimento tenha surgido nas décadas finais do século 18 e permeado o século 19.

 

Desamparo aprendido

O psicólogo Martin Seligman é um dos responsáveis por pesquisar sobre o desamparo aprendido e como nos tornamos incapazes de responder ou agir a processos e circunstâncias dolorosas.

Um experimento foi realizado com dois cães em gaiolas em que eram dados choques elétricos e, com um toque de focinho, era possível cortar a energia. O primeiro cão fez, o segundo não. O segundo cão entrou em depressão e tristeza profunda.

Muitas das mulheres vítimas de violência doméstica – e esse é um fato que pode ser generalizado – são incapazes de reagir ao abuso. Essa é uma das consequências de sucessivos ataques e desgaste psicológico.

O abuso sistemático faz com que a vítima acredite que é incapaz de administrar a própria vida e passa a questionar a sua percepção da realidade. Sua autoestima e identidade são destruídas. “A vítima aprende a acreditar que é indefesa, que não tem controle sobre nenhuma circunstância e que qualquer coisa que se faça é inútil”.

A psiqué da vítima se adapta à situação de violência para não ter que lidar com a dor, assim, a situação de abuso passa a ser inevitável, algo causado pela própria pessoa e que não há nada que possa ser feito. Essa inércia é resultado da deterioração psicológica.

Ou seja, mulheres submetidas a violências sistêmicas de incontrolabilidade mostram, posteriormente, um déficit na aprendizagem de respostas de êxito. A violência repetida afeta nossa cognição. Apreendemos que, indiferente do que façamos, sempre seremos maltratadas.

Eu não acredito em atos isolados e também não acredito em análises que foquem a microestrutura. Tudo que acontece e é produzido dentro desse sistema (e não sei de nada que é produzido fora dele) está sujeito aos tentáculos do capitalismo/patriarcado.

Uma obra literária que aborde uma relação heterossexual (e ainda não entrei no mérito de que um dos sustentos do patriarcado é a heteronormatividade) não seria diferente.

 

Precisamos falar sobre o Sr. Grey

Não vou entrar na crítica ou análise literária da obra (até porque minha área é a linguística), mas quero apontar – ou tentar – aquilo que Sr Grey (tipo um Edward Cullen da vida) tão fielmente representa: um retrato clássico de um abusador.

Há um glamour na obra.

Quando abri o primeiro livro eu esperava ler, sim, sobre tudo que estou escrevendo aqui. Porém há milhares de jovens que abrem o livro esperando ler um romance. O que encontram é um relacionamento doentio e perigoso que passam a achar “Ok”- e até querer um relacionamento assim.

 

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Não há glamour no abuso.

A ideia que a obra quer que compremos é a de que o amor romântico pode salvar um homem de sua destruição e depravação. Isso é perigoso. Além de acinzentar os limites daquilo que, convencionalmente, acreditamos ser um relacionamento saudável e um não saudável, a obra tenta questionar, perigosamente, os “moralismos” e, também, até onde estaríamos dispostos a nos “desconstruir” sexualmente. Questionamentos falaciosos quando observamos a macroestrutura: é mais do mesmo, continuam sendo formas de dominação e poder sobre a sexualidade feminina.

Grey é o que eu posso chamar de retrato fiel de um abusador: eles são encantadores no início, bem articulados, charmosos, sedutores. Porém, quando percebemos, estamos presas num jogo de manipulação e controle – voltando ao desamparo aprendido. O desgaste psicológico acontece primeiro e ele não é facilmente percebido. Começa com pequenas agressões verbais, desmerecimento de atitudes da vítima, gaslight, apagamento de identidade e manipulação emocional.

Como esta crítica fala (e faço uma tradução/adaptação aqui), a sacada genial da obra é que mascara esse tipo de relacionamento abusivo atrás de um bilionário sexy que só quer ser amado. Grey não é o tipo de abusador que as mulheres imaginam e a maior parte delas reconheceria a primeira vista. Ele não é o cara bêbado de barba mal feita que bate na mulher por ela não ter feito o jantar na hora certa. Christian Grey tem classe, é rico e educado. Isso faz parecer que esse tipo de comportamento não é problemático. É violência doméstica disfarçada de fantasias sexuais.

Acredito, também, que a combinação de abuso emocional e BDSM fazem com que qualquer um que tente problematizar a história seja chamado de moralista ou hipócrita ou que não entende o que é o BDSM. O livro borrou as linhas limites.

Durante algumas cenas, se analisarmos mais atentamente, podemos notar um claro exemplo de como opera o ciclo da violência doméstica:

 

Ciclo violência doméstica

1. aumento de tensão: as tensões acumuladas no quotidiano, as injúrias e as ameaças tecidas pelo agressor, criam, na vítima, uma sensação de perigo eminente.

2. ataque violento: o agressor maltrata física e psicologicamente a vítima; estes maus-tratos tendem a escalar na sua frequência e intensidade.

3. lua-de-mel: o agressor envolve agora a vítima de carinho e atenções, desculpando-se pelas agressões e prometendo mudar (nunca mais voltará a exercer violência).

Fonte: APAV Violência Doméstica

Durante o período de ­lua-de-mel, o abusador usa de sedução como arma para controlar e manipular a vítima. Essa, psicologicamente desgastada, aprende que o afeto é a recompensa após o abuso. Como já dito lá em cima, quebrar esse ciclo é algo extremamente doloroso e difícil para a vítima e esta se torna incapaz de reagir ao abuso.

A primeira experiência sexual da Anastasia Steele (personagem principal) é com seu abusador, Christian Grey – um cara que grava seu sobrenome até no próprio lápis – e vi, diversas vezes, o argumento de que houve consentimento. Devo lembrar que coerção não é consentimento. Devemos apagar da nossa mente aquele estuprador ideal: taciturno, que ataca no beco escuro, à noite, com a vítima sozinha e desamparada. Os estupradores, alarmantemente, estão próximos: são nossos amigos, parentes, colegas de trabalho. São aqueles que colocam medicamentos na nossa bebida, que forçam sexo quando estamos inconscientes e não respeitam um “Não!”.  É importa para a manutenção do sistema que tenhamos uma imagem clara do abusador ideal.

Não compre o discurso de amor romântico, de relacionamento ideal e de romantização do abuso e chame tudo isso pelo nome: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.

Não permita que as artes naturalizem nossas opressões.

Terminei o primeiro livro com Ana decidindo deixar Christian quando ele havia extrapolado os limites com ela. Anastasia tinha decidido que aquela não era uma relação em que ela poderia estar. Rezei internamente para que isso se mantivesse e tive uma vontade incontrolável de parar de ler naquele momento e dar um final diferente para a trama, mesmo que só na minha mente. Continuei a leitura para vê-la voltando à mesma montanha russa emocional. Com alternâncias entre momentos bons e momentos muito ruins. Voltei para vê-la presa a um maníaco por controle que a manipula física e emocionalmente. E ela, ingenuamente, vai pensando em mil maneiras diferentes de fazer as coisas para que os momentos bons prevaleçam aos maus momentos e que, um dia, talvez, ele vai parar de tratá-la mal.

Apesar de tudo, pode-se tirar um importante aprendizado de 50 tons de cinza: se um cara te adverte sobre a própria conduta, com frases do tipo “Eu não sou o homem pra você” e “Você deve ficar longe de mim”, a gente segue o conselho do cara e CAI FORA!

 

 

Referências:

 

A Letter to my children

Fifty Shades of Grey –  review

Carta de uma Psiquiatra sobre 50 tons de cinza

A dialética do sexo, parte 1 e 2

Síndrome de Estocolmo e Desamparo Aprendido (tradução Jan)

 

Sou a Camila Souza. Estudante de Direito, ex estudante de Letras, professora de inglês e literatura, sagitariana e tomo chá mesmo no verão.

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