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Ser Mulher; texto de Annelise Pacheco.

 

Estar as 3 da manhã tremendo de raiva, com sensação de angústia ao lembrar que sou refém do meu próprio corpo e da sociedade capitalista que rouba minhas reais escolhas e me faz ter que seguir um roteiro que é minha única opção possível pois “ai de mim” sugerir edições. É ser jogada num mar de dor, culpa e angústia pois minha biologia não tem espaço nesse mundo porque vincularam minha vagina e meu útero a um gênero que apelidamos mulher e, esse gênero ao ser forjado, serviu para prender a mim e minhas companheiras a esses papéis que temos que cumprir conforme todos esperam que aconteça pois a “ordem natural das coisas é assim e não se discute”.

Raiva é o que me define. Dor me define. Aflição. Medo. Impotência. Gostaria de saber quem (e aqui me refiro aos homens, é claro) teria coragem de aguentar ser mulher se esse combo trouxesse junto da feminilidade o útero e todos os hormônios que entram em colapso durante TODA NOSSA VIDA, pois a cada mês, nosso corpo se prepara pra trazer uma nova vida e esse “berço” se desfaz todo mês e depois de dias ele se refaz e se desfaz e se refaz e se desfaz… Mas isso é óbvio né, todos estudamos biologia, todos sabemos disso e tua reclamação não faz sentido nesse mundo que não é teu. Por que eu tenho a “impressão” que preciso me adaptar ao mundo? Respondo… Pois ele não foi feito pra mim, nunca se considerou que a mulher é um tipo diferente de ser humano (rs), na verdade, nem humana a mulher é, não é mesmo? Somos um sentimento ambulante, um mistério a ser descoberto, uma experiência de vida que não conta. Ser mulher é sofrer. Todo mês. A vida toda (quando tem “sorte” de nascer). Quando criança te arrancam a infância. Nos casos mais brandos, te restringem as brincadeiras e te impõem responsabilidades de menina, quando agressivo, é através do teu sexo.Quando jovem, castram teus sonhos e limitam tuas possibilidades, te ensinam o medo. Na passagem pra vida adulta, através da maternidade, impõem que tu te anule em prol daquela nova vida e desmoralizam aquelas (raras) que não conseguem (pois tentam) viver negando sua existência. Na velhice, te abandonam e te enxergam agora como um adorno, uma coisa querida e fofa ou descartável mesmo, e a cegueira diante da humanidade da mulher permanece. Eu gostaria de gostar de ser mulher mas não posso, já vivi tempo de mais nesse corpo pra entender que eu não faço parte desse mundo e que ele não foi feito pra mim. A minha permanência só se dá por conta da teimosia e da submissão. Se sentir mulher é saber que, várias vezes durante sua vida, você vai chegar ao limite de perder a sanidade, de chegar no ponto inicial da loucura mas NÃO PODER dar o passo seguinte, pra perda da sanidade, pois te ensinaram a ser forte, paciente, estar disponível para cuidar e esse egoísmo não te é permitido. Gostaria que você soubesse como me sinto, Presa por uma invenção do homem que soube vincular minha biologia à sua vontade e necessidade para construir esse mundo, a sua imagem e semelhança, pensado de forma que atendesse sua própria demanda e me excluísse como pessoa e, até hoje (com tanto avanço e tal rs) me fazer sentir desconfortável dentro do meu próprio corpo, na minha própria casca. Eu não escolhi ser mulher, eu não pedi pra ser mulher, eu me tornei mulher no momento que permitiram que eu vivesse, no momento que furaram minhas orelhas e me diferenciaram dos humanos com uma fita rosa na cabeça. Eu quero acreditar em um mundo que as mulheres possam ser livres dessas amarras que as impedem de viver uma vida confortável dentro desse corpo. Eu quero que nós possamos experimentar a sensação de não ser como uma coisa estranha nesse mundo. Quero mesmo que um dia nossa biologia não seja mais uma barreira pra nenhum caminho que almejemos seguir. Quero abolir essas amarras chamadas gênero e sociedade patriarcal, quero que as mulheres percebam-se como classe subordinada e que possamos assim organizar uma resistência contra esse roteiro que nos faz sentir inadequadas a este mundo. Mulheres, falta-nos raiva.

Sou a Camila Souza. Estudante de Direito, ex estudante de Letras, professora de inglês e literatura, sagitariana e tomo chá mesmo no verão.

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